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quinta-feira, 22 de março de 2012

Semy (Capitulo 042)


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CAPITULO 42
 
- Dave... Dave, estás acordado? - perguntou Jamie bem dentro dos seus braços nus. Levantou a cabeça e encontrou os olhos abertos numa expressão inquietante.
  O quarto iluminava-se cada vez mais e a chuva batia fortemente nas janelas produzindo um som em nada tranquilizante.
- Quem é que consegue dormir com todo este barulho?
- Eu tentei adormecer mas não consegui. Nunca esteve este tempo em Semy, pelo menos desde que cheguei cá.
- Nunca vi nada igual. E não está a agradar-me. Estou a ficar preocupado... Se continuar a chover assim... algumas casas da povoação poderão ficar inundadas... isto sem falar no vento que sopra e que já deve ter destruído alguns telhados.
- Não poderemos fazer algo?
- Talvez.
- Podemos ir ver como estão as coisas e se houver problemas com as casas levamos as pessoas no celeiro principal que é um lugar quente e seguro.
- Tens razão. Não estamos aqui a fazer nada. Vamos levantar-nos.
- Ficaremos mais descansados.
  Dave e Jamie saíram da cama e vestiram-se rapidamente, preparados para enfrentar o tempo furioso do exterior. Quando chegaram à sala principal, Dan Tolos encontrava-se junto da lareira. Aquecia as mãos.
- Não consegui dormir. Este tempo está a preocupar-me. Nunca vi nada assim.
- Também não conseguimos adormecer.
- Vamos até lá fora. - disse Dave levando Jamie pela mão.
- Esperem! Vou convosco. Não consigo ficar aqui sem fazer nada...
- É melhor não.
- Dave, eu estou a ficar preocupado e posso ajudar se houver problemas. Não chamas o teu irmão?
- Não... Não o quero incomodar. Ele saberá onde me encontrar.
  A correr, abandonaram a sala.


- Como está a situação, Lann?
- Não sei ainda, senhor. Aqui no pátio apenas alguns danos menores. Fora dos muros do castelo, não sei de nada. Cheguei há pouco tempo. Enviei homens para ver o que se passa pela cidade. Suspeito que haja problemas. Este vento e principalmente a chuva...
- De certeza que já fizeram estragos. - disse Dan perante o olhar reprovador de Lann. Era notório no rosto de Lann a insatisfação com a presença daquele homem em Semy.
- É por causa dela que estou preocupado. Vem.
  O vento soprava fortemente e a chuva caía sem cessar juntamente com a dança ininterrupta dos raios no céu. Encharcados, saíram do pátio e começaram a percorrer as ruas de Semy.
- Não vejo hipótese de isto passar rapidamente. - afirmou Jamie a olhar para o céu.
- Cuidado, Dave! - avisou Dan Tolos ao mesmo tempo que puxou o alto Elmer por um braço.
  Do telhado, saiu disparado um tronco de madeira que deixou, em seu lugar, um buraco na estrutura da pequena casa. O tronco caiu mesmo no local onde Dave estivera. Teria sido um acidente fatal.
  Ainda a imaginar o que lhe poderia ter acontecido, Dave não sabia o que pensar. O seu maior inimigo acabava de lhe salvar a vida. Porquê? Estaria a ser sincero na amizade que prometia? Poderia ter aproveitado aquele acidente. Mas... Porquê? Porquê? Porquê?
- Obrigado, Dan. - acabou por dizer quase num murmúrio.
- Consegui ver a tempo. Não tens de me agradecer. Vamos ver ali mais abaixo. Estão lá muitas pessoas. Aconteceu algo!!
- Olha ali Dave. Há um incêndio!! - alertou Jamie.
- Lann, corre para o castelo e reúne o maior número de homens. Receio que haja grandes estragos na povoação. Chama também o Jullien. Há trabalho para todos. Depressa!!
  Sempre a correr, desceram uma rua e foram ao encontro do ajuntamento. Furaram caminho e observaram com tristeza o que surgiu aos seus olhos. Uma casa tinha sido destruída por um raio, e todos os seus ocupantes permaneciam subterrados nos destroços. E se não bastasse, o fogo tratava de destruir o que restava do choque de energias. Muitos foram aqueles que tentaram retirar as pedras e madeira, mas o vento, a chuva e o fogo, dificultaram o seu trabalho. Dave, Jamie e Dan juntaram-se ao grupo e também ajudaram no levantar do que sobrara da casa. Agora, restava presenciar o fim do fogo. Já nada poderiam fazer para salvar aquela família. Chegaram tarde demais.
  Pouco depois, mais alguns chegaram ao local, assim como Jullien. Os corpos dos ocupantes daquela pequena casa encontravam-se praticamente incógnitos. Queimaduras e muito sangue espalhavam-se por todos os cadáveres.
  Logo mais abaixo, uma outra casa ameaçava ruir a qualquer momento. Um grupo, dirigiu-se para lá e enquanto apoiavam a estrutura frágil e parcialmente destruída, os seus donos retiraram do interior os poucos haveres de que dispunham. Após a dolorosa despedida, a casa caiu em terra. A noite terrível tinha feito mais uma vítima.
  O vento, os raios e principalmente a chuva não dava tréguas.
  Dan, Dave e Jamie afastaram-se do local e repousaram um pouco debaixo do telhado de uma outra casa. Logo de seguida, Jullien juntou-se-lhes.
- Preciso usar o celeiro para tratar dos feridos.
- Sim, claro Jullien. Leva o Lann contigo e tratem de arranjar um local para recolher os feridos e quem fique sem casa. - disse Dave a olhar para o céu. - Assim que terminar de ver tudo que se passa na cidade irei ter convosco.
- Estou muito assustada com tudo isto. Nunca assisti a uma tempestade tão forte.
- Não te preocupes. - Disse Dan também algo apreensivo.
- Até parece uma revolta dos céus... - acrescentou Jullien.
- Tudo correrá bem. É preciso ter calma. - murmurou Dave abraçado à esposa.
- Eu posso ir ver o que se passa naquela zona - disse Dan apontando para a direita.
- Eu e Jamie seguimos por aquele lado, tu, por ali. Encontramo-nos aqui depois da ronda pela povoação. Lann, vai chamar o meu irmão. Diz-lhe que organize abrigos para os desalojados e que prepare o celeiro para os feridos. Vão!!
  Jullien, Lann e Dan afastaram-se rapidamente sem ligarem à chuva torrencial e ao vendaval.
- Esta noite irá ser inesquecível... Minha querida cidade...
- OH, Dave! Agora é a minha vez de te dizer que tudo correrá bem. Calma.
- Nastro não deve estar melhor.
- Tens razão. Talvez até estejam pior. Não têm o seu senhor para os orientar e... têm falta de escravos.
- Não falemos disso agora. Eu devo é preocupar-me com Semy.
- Sim. Vamos ver quem precisa da nossa ajuda.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Semy (Capitulo 041)



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CAPITULO 41


  No exterior, Dan Tolos e a sua comitiva iniciavam a escalada da rua principal em direcção ao castelo de Semy. Na garupa de cada cavalo dos 6 homens que o seguiam de perto, vinham grandes e pequenos objectos. Arcas, sacos, caixas de madeira e outros objectos passaram pelos muitos olhos do povo que observou com medo aquela súbita visita.
  Assim que chegou ao pátio Dan Tolos desmontou. Com ligeireza, aproximou-se da entrada da torre de menagem. Preparado para um golpe traiçoeiro por parte do vizinho, Dave semicerrou os olhos. Surpreendendo todos, Dan fez uma vénia e disse:
- Primeiro... os meus sinceros parabéns pelo enlace, perdão... pelos enlaces... - e observou melhor quem o olhava com desconfiança. - Peço humildemente desculpas por não ter assistido a tão falado dia, mas não me encontrava em condições de empreender uma viagem até Semy...
- Não devo estar a ouvir bem... - comentou Leo.
  Dave lançou-lhe um olhar e Leo percebeu que era melhor nada dizer. Dave pretendia compreender o que aquele homem tinha ido ali fazer.
- ... Por esse motivo, venho aqui hoje trazer-vos as minhas humildes ofertas. São pequeníssimas ofertas perante o perdão grandioso que vos peço em consequência dos actos desumanos que fizeram parte da minha vida. Dave, gostaria de afirmar perante todos os presentes que tudo o que se passou entre nós pertence definitivamente ao passado. Jamais o irei lembrar ou repetir. Errei terrivelmente. Aprendi a lição. O importante é o presente e o futuro. Vamos esconder as armas e ser amigos. É o meu maior desejo neste momento da minha vida. O que me aconteceu fez-me perceber o caminho errado que seguia. Renasci e agora quero ser uma outra pessoa. Sei que não acreditam mas saberão, com o tempo, que falo a verdade.
  Dave olhava-o desconfiado. Jamais iria confiar naquele homem.
- Por certo que estarão a pensar: "Que mentiras inventou desta vez?". Asseguro-vos que nenhuma. Nenhuma, Dave. Nunca fui tão sincero. Sofri muito e percebi que não poderia continuar a ser quem eu era. Peço que me dêem uma oportunidade de provar que estou diferente.
 Leo olhou para o irmão e disse:
- Entra. Vem connosco. Estou ciente de que precisamos conversar a sério. Lá dentro conversaremos melhor.
  O silêncio de Dave deixou Dan sem uma resposta.
  Dave ordenou a Lann que tratasse de recolher as ofertas e de as trazer para a sala.
  Clive, Leo e Dave acompanharam o visitante ao longo do caminho sem proferirem uma única palavra. Observavam-no atentamente. Procuravam um gesto, um olhar que comprometesse a sua nova personalidade. Nada. Até parecia que era tudo verdadeiro. Abriram a porta e entraram na sala principal.
  Kate e Muriel mantiveram-se sentadas junto da mesa. Mais afastada, quase escondida a um canto, Jamie olhava para o exterior. Não queria olhar de novo para aquele homem. As recordações estavam muito vivas na sua cabeça. Queria-o longe. Muito longe. E no entanto ele estava ali. Aquele homem parecia controla-la no estranho misto de medo e mistério. Os seus olhos deixavam-na, de algum modo, invulgarmente frágil. Nem ela própria era capaz de explicar.
  Como se conhecesse com antecedência o lugar onde se encontrava, Dan Tolos observou-a enquanto caminhava para a mesa. Jamie não largou os olhos do horizonte e cruzou ainda mais os braços.
- Senta-te.
- Clive, primeiro, devo cumprimentar as damas presentes.
  Aproximou-se de Kate e pedindo a sua mão, beijou-a amavelmente. Kate abriu os olhos de espanto e viu o mesmo gesto no rosto da amiga assim que Dan repetiu a delicadeza. Muriel olhou para Leo e este nada indicou. Receoso, Dave observou-o a caminhar em direcção a Jamie. Avançou uns passos e parou. Talvez não houvesse motivo para alerta. Jamie não lhe estendeu a mão. Ignorou-o. Mesmo perante a insistência de Dan Tolos, Jamie não cedeu. Olhou-o de lado e voltou a concentrar-se na janela. Dan levantou o sobrolho e disse:
- Aceito uma cadeira. - afirmou voltando-se rapidamente. Sentou-se e prosseguiu: - De certo que estão todos ansiosos por saber o que se passou comigo quando deixaram Nastro. Não vale a pena recordar um passado que quero esquecer. Já esqueci. Morreu. Nunca mais voltará. O caminho que percorro e o que percorrerei é o único pormenor que me interessa. As inimizades que prevaleceram entre nós antigamente, não se manterão de agora em diante. É essa a minha vontade. E farei tudo para vos provar que estão perante uma nova pessoa. Venho aqui pedir que aceitem a minha amizade. Sei que não será fácil esquecerem o que eu fiz, mas peço-vos que me dêem tempo... uma oportunidade para provar que estou a fazer o pedido mais sincero e puro da minha vida. Mudei. Preciso de vocês.
- Não estarás a pedir demais? - interrompeu Leo.
- Possivelmente... Creio que sim. Têm todo o direito de duvidar de mim...
  Dave não parava de o observar sem nada dizer. Sentia os receios de Jamie e sentia um ódio que não conseguia controlar. Como poderia aquele homem ser seu irmão?
- Reconheci a tempo que estava a lutar para obter algo que nunca seria meu. Lutar para conseguir o amor de Jamie, tornou-se para mim, presentemente, uma luta sem qualquer significado. O amor que ela sente por ti, caro Dave, eu nunca o teria. Ele é único. Só posso louvar que o meu irmão tenha encontrado tal preciosidade. Peço apenas que aceitem a minha amizade... apesar de tudo que vos fiz e... que peço aqui perdão. Fui um louco e um demónio mas foi-me dada uma nova oportunidade de rectificar o mal que vos fiz. Percebo pelas vossas caras que estão cheios de dúvidas. Eu no vosso lugar estaria de igual modo. Peço-vos uma vez mais: dêem-me tempo para provar a sinceridade do que aqui vos digo agora. Naquele dia em... que fiquei no cimo da torre do meu castelo, a minha vida mudou. Inúmeros factos, gestos, pensamentos, desejos deixaram de ter significado. Outros, explicaram-se por si mesmos. O poder deixou de ter importância para mim. Nastro é o meu mundo, é certo... e é nele que devo viver sem magoar ninguém. Semy não é mais um alvo de poder mas sim um alvo de amizade e boa vizinhança.
  Dan bebericou um pouco de vinho e no ar fixou o silêncio.
  Murial olhou para Kate e Jamie e disse:
- As tuas palavras surpreendem-nos muito. - afirmou Muriel.
- Gostei de as ouvir. - comentou Clive cada vez mais surpreendido.
- Arriscaste ao regressares a Semy depois de tudo que fizeste. Poderias ser capturado ou...
- ... morto. Eu sei, Leo. Mas eu agora sou um livro aberto e não tenho receio de nada. stou aqui... Façam de mim o que entenderem.
- Chegas com pedidos de perdão e esquecimento e esperas que tudo se resolva... Não sei se te devo chamar ingénuo ou irónico.
- Humilde, talvez. Sincero, acima de tudo!
- Talvez. - disse Dave quebrando o seu silêncio. - No passado, que tanto fazes questão em esquecer, foram inúmeras as traições que nos infligiste. Porque haveria eu de confiar agora?
- Deves relembrar apenas como recordação e não como realidade.
- Impossível!
- Acreditem que sofri uma mudança radical!! Não sou a mesma pessoa que conheciam!! Farei tudo para que acreditem em mim.
- Tudo? - interveio Jamie ainda junto da janela.
  Dan Tolos virou o rosto para ela e respondeu:
- Tudo.
- Não penses que vamos esquecer assim tão facilmente o que nos fizeste. Se quiseres a nossa amizade, tens de nos oferecer confiança em ti. - declarou Leo de braços cruzados. - Prova que és franco no que dizes.
- Dêem-me uma prova que eu provarei! Dêem-me tempo e verão que estou a dizer a verdade!!
- A tua confiança vai ser muito difícil de impor entre nós. - afirmou Jamie a olhar para Dave.
- Tens a noção disso, certo? - Acrescentou Dave.
- Farei desse objectivo a minha luta de futuro, a minha ambição de corpo e alma. Só vos quero bem. Acreditem. Percebo que é difícil de acreditarem...
- Estamos, então, em presença do novo Dan Tolos...
- É verdade, Clive. Por fora, permaneço o mesmo mas por dentro, tudo se esclareceu. Estou limpo.
  Nesse instante ouviram-se toques na porta e Lann entrou. Abriu ainda mais as portas para que os escravos que transportavam as muitas ofertas de Dan Tolos pudessem passar. Olhando no sentido contrário de todos, o formoso homem sorria vitorioso. Em pouco tempo, a sala ficou repleta de vários objectos, uns de metal, outros de madeira e cerâmica. Dan levantou-se e aproximou-se de um grupo de arcas.
- Isto representa a minha oferta para celebrar a união dos Elmer com as suas actuais esposas de encanto sublime. - Abriu as várias arcas e acrescentou: - Jóias e tecidos ricamente bordados para as maravilhosas mulheres presentes. Venham. Observem bem quanta beleza!
  Kate e Muriel aproximaram-se e admiraram tanto as jóias de múltiplas pedras coloridas como os tecidos coloridos que pareciam moldar-se perfeitamente ao corpo como se tivessem sido feitos para elas. Jamie caminhou até à mesa e sem olhar para nenhuma das ofertas, sentou-se. Logo atrás do encosto da cadeira, Dave apertou-lhe a mão e acariciou-lhe o ombro. Jamie respondeu com um encosto carinhoso do rosto.
- Armas e manuscritos para os senhores de Semy. E muito mais! O melhor! Gozem tudo isto num clima de plena felicidade.
- Não sei o que dizer... É tudo tão... tão belo. - comentou Muriel. - Lindo! Nunca vi tal beleza por aqui...
- São artes de terras longínquas.
Jamie chegou junto de Dave que observava um belo elmo quadrado e retirou-lhe o elmo das mãos. Não queria que tocasse nada que fosse de Dan Tolos.
- Vou aproveitar para te anunciar uma boa nova.
- Sou todo ouvidos, Leo.
- A minha adorada Muriel está à espera de bebé.
- Verdade? Óptimo!! Isso merece um brinde! - exclamou Dan enchendo o seu copo com vinho. - Ao herdeiro! Mas que excelente noticia!! Estou encantado !!
  Todos ergueram os copos brindando ao primeiro descendente dos Elmer.
  Ninguém reparou que o dia estava prestes a findar. A estrela que iluminava aquele lugar mantinha-se escondida por detrás de nuvens escuras.
  A folhagem das árvores começava a agitar-se cada vez mais.
- Ainda bem que gostaram das minhas ofertas. Tentei arranjar o que de mais perfeito há...
- O que interessa é o gesto, não o valor material. - declarou Kate.
- Concordo.
  De novo o silêncio caiu sobre a sala. Dan Tolos encheu o seu copo e perguntou:
- Onde as irão colocar?
- As ofertas?
- Sim.
- Não sei. Possivelmente... algumas ficarão nos nossos quartos e outras numa sala do castelo, na cave. É lá que guardamos as peças de maior... - respondeu Leo antes de ser interrompido por Dave.
- Têm lugar para ficar.
- Também possuo uma, precisamente na cave. - Respirou fundo.
  Um forte relâmpago iluminou toda a sala o que assustou alguns dos seus ocupantes.
- Que susto! - exclamou Kate. - Vem aí uma tempestade.
- E não é das pequenas. - afirmou Muriel a observar o céu pela janela. - Está muito vento... e começou a chover. Vai ser uma noite terrível.
- Que contratempo! Como é que voltarei para Nastro? Os cavalos não conseguirão avançar nem um passo...
- Poderás passar a noite aqui. - sugeriu Leo. Olhou para Dave e este em nada o contrariou.
- Certamente que amanhã a tempestade já terá passado e poderás regressar a Nastro. - acrescentou Clive.
- Hoje não podes viajar com este tempo.
- Não sei... Não queria abusar... Acho que vou aceitar. Lá fora está mesmo mau... - respondeu Dan junto de uma janela. Fechou-a e voltou para a mesa. - Que contratempo... E os meus homens?
- Poderão ficar junto dos meus homens. - Respondeu Dave.
- Muito bem... vou avisá-los. - disse Clive saindo da sala.
  Bem no fundo da sala, junto da sua janela preferida, Jamie observou o raio a desenhar-se no céu escuro sem estrelas. Parecia que lhe dizia algo. Imaginou que comunicava com Wise Sage e que ele surgiria, a qualquer momento, no céu. Isso era impossível. Estava morto e nunca mais falaria consigo. Precisava da sua ajuda. Não confiava na súbita mudança de Dan. Não confiava em nada naquele homem. Sentia que em cada gesto, em cada palavra, havia algo que não conseguia explicar. Mas como o provaria? Esperaria com calma por um passo em falso. Onde quer que estivesse, o querido sábio saberia a verdade. E o quanto ela desejava saber. Precisava saber a verdade.
  A chuva batia forte contra o vidro impossibilitando-a de visualizar o exterior. Despertou dos seus pensamentos com a súbita luz intensa de um raio. Triste, voltou para junto de todos. Olhou para Dan e reparou que também se encontrava pensativo e preocupado.
  Teria realmente mudado?
  Teria?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Semy (Capitulo 040)


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CAPITULO 40

  A pedido de Jamie, Dave, Leo e Clive apareceram na sala principal e estranharam o ar solene das três mulheres.
  Muriel levantou-se e pediu:
- Leo, gostaria de falar contigo em particular.
- Aconteceu al...
- É rápido.
- Está bem. - respondeu intrigado.
  Pegando-lhe na mão, Muriel levou-o para fora da sala.
  Dave não parava de olhar para Jamie. Na sua voz de contrariado, avisou:
- Eu sou o senhor deste castelo e como tal ordeno que me contes o que se passa imediatamente!
  Jamie começou a comer entre um sorriso sem ligar aos olhos azuis que a fixavam revelando uma crescente fúria. Desviou o olhar e encontrou um Dave ameaçador. A sua resposta foi escolher o vinho a beber.
- Jamie Elmer, não abuses da minha boa paciência! - Bateu com os punhos na mesa e gritou: - És a minha mulher e eu mando em ti!
- Mandas?
- Quero uma resposta JÁ, senão...
- Senão o que fazes?... Acalma-te. Dentro de minutos já saberás. Não sejas tão dramático. - disse Jamie num grande sorriso. - Acordaste mal disposto hoje foi? Não notei...
- Não precisas ficar assim.
- Não te metas, Kate. Isto é só entre mim e a minha mulher. Tenho de te mostrar quem manda aqui... Não tolero indiferença de nenhuma mulher! NENHUMA, ouviste?
  Jamie olhou-o fixamente para depois suspirar reprovadoramente com a cabeça.
- Dave, eu sei que tudo ficará esclarecido. - insistiu Kate a medo.
- Clive, controla a tua mulher.
- Ainda não entendi o que se passa.
- O problema, Clive, é que o teu amigo gosta de saber tudo que se passa neste lugar e agora está perdido.
  Dave aproximou-se dela e enterrou o punhal com veemência na madeira.
- Ele está muito curioso. - murmurou Jamie para Kate. - Já viste? E pensa que me mete medo.
- Jamie... tu não me provoques.
- Calma. Só peço para teres calma.
  À beira do limite da tolerância, Dave levantou-se e caminhou em direcção à porta por onde tinham saído Muriel e Leo.
- Não faças isso!
- Quem és tu para mandar em mim? - respondeu ao parar.
- Ninguém... - respondeu Jamie a cortar uma peça de fruta.
  Quem fazia tudo por compreender o que se passava, era Clive. Assistira à troca de palavras com uma cara de curiosidade. Quando ia de novo perguntar a razão daqueles gestos e atitudes, Kate fez-lhe um sinal para que se calasse. Prontamente, atendeu ao pedido da mulher.
  Nesse momento, a porta da sala abriu-se e dela surgiram Leo e Muriel. A felicidade radiava e iluminou a sala. Com Muriel nos braços, Leo beijava-a sem parar.
- Vou ser pai, Dave! Eu, PAI! Sou o homem mais feliz do mundo! Mano... vou ser pai!!!!!!!
  Dave virou-se rapidamente e encontrou o olhar de Jamie que sorriu levantando o sobrolho. O seu rosto mostrava também uma clara desaprovação dos modos exagerados com que a bombardeara anteriormente. Constrangido, Dave aproximou-se e ajoelhou-se.
- És um pateta! Para quê tantas ameaças de senhor todo poderoso? Até parece que não me conheces...
- Perdoa-me. Exagerei.
- Pois exageraste. Não cabia a mim contar a novidade. - prosseguiu beijando-o. - Estava a ver que tinha de te prender para não fazeres uma asneira.
- Sabes que não gosto de segredos entre nós.
- Eu sei. Mas confesso que estava a gostar de ter enfurecer...
- Percebeste agora, Clive? Não queríamos revelar a novidade. - declarou Kate.
- Muitos parabéns! O meu amigo vai ser pai!! Uau! Estou feliz, muito mesmo.
- Obrigado, Clive. Eu ainda não acredito. Foi a melhor prenda de anos que me podiam dar. - afirmou Leo a olhar para Muriel.
- Vamos festejar! Este dia vai ficar na história de Semy. Estou... estou feliz! - propôs Dave enchendo todos os copos com vinho. - Meu irmão! - E abraçou-se a Leo.
- Não vais chorar, pois não?
- Quem, eu?!! Um Elmer não chora! - respondeu Dave entre uma gargalhada. - Vais parar de trabalhar.
- Como?! Nem pensar! Não vou conseguir ficar sem fazer nada.
- Leo...
- Não posso contrariar a minha mulher, Dave. Agora não posso.
  Um toque na porta sobrepôs-se às palavras de felicidade. Os olhares de todos assistiram à entrada de Lann.
- Anda cá, Lann. Apareceste na altura ideal para festejar. Vem festejar connosco.
- Festejar?
- Semy vai ter um primeiro herdeiro. Vou ser pai, Lann! Pai! Não é uma maravilha?
- Os meus sinceros parabéns.
- Alguma vez me imaginaste nesse papel?
- Não.
- O que se passa Lann? - inquiriu Dave.
- Trago-vos uma notícia menos agradável.
- Dan Tolos vem a Semy. - interveio Jamie quebrando o silêncio. A sua expressão tornara-se preocupante.
- Sim, precisamente.
- Não. - murmurou Dave.
- Ele encontra-se a pouca distância do castelo. Mas não traz escolta.
- Porque será que esse homem tem o dom de estragar os momentos felizes? - resmungou Leo.
- Que faço, senhores? Mando fechar os portais e colocar a guarda em alerta? Ordem de ataque?
- Deixa-o entrar. Mas quero a guarda alerta e preparada para o travar ao mínimo gesto suspeito. - ordenou Dave. - Quero os homens prontos em todos os cantos da cidade. Nós vamos recebê-lo à entrada do castelo.
- E eu que estava tão feliz... - murmurou Muriel.
  Jamie afastou-se. O medo incentivava as batidas do coração nos ouvidos. Era uma dor sem dor que lhe apertava o peito.
  Será que teria de passar por tudo novamente?

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Semy (Capitulo 039)


(Capítulos anteriores: 001, 002, 003, 004, 005, 006, 007, 008, 009, 010, 011, 012, 013, 014, 015, 016, 017, 018, 019, 020, 021, 022, 023, 024, 025, 026, 027, 028, 029, 030, 031, 032, 033, 034, 035, 036, 037, 038)

CAPITULO 39

  Pouco a pouco, todos tiveram conhecimento da falsa morte de Dan Tolos. A verdadeira versão nunca foi revelada. O povo pensava que o governador de Nastro tinha sido ferido mortalmente por Dave Elmer. Contudo, mais tarde, foi-lhes revelado que Dan Tolos já se encontrava praticamente curado da ferida na barriga. Assim, e mais uma vez, a preocupação e o medo tomaram conta da mente e coração de cada um dos habitantes de Semy mas muito em especial os escravos refugiados de Nastro. Estes pediam constantemente aos Elmer que não os deixassem partir de novo para aquela horrível cidade. Não queriam voltar para o inferno.
- Entristece-me todos estes pedidos. - afirmou Jamie enquanto limpava o cavalo de Dave. - Faz-me crescer uma raiva por não poder satisfazer os seus desejos. As velhas leis deste lugar... continuo sem perceber algumas coisas. Não têm lógica.
- Não podemos fazer nada... - murmurou Kate a varrer o chão naquela zona. - Não depende de nós.
- Há certas tradições deste lugar que nunca irei entender. Já tentei tocar no assunto mas Dave diz para não me preocupar. Está a dizer-me nitidamente: Não te metas no assunto porque não vais mudar nada.
- Mas é isso mesmo. Infelizmente não podemos mudar nada dessas coisas.
- Jamie! - gritou Muriel que avançava com velocidade pelo pátio. - Jamie... preciso falar contigo. Tens de ajudar-me!
- Que euforia é essa, Muriel? Calma mulher!
- Oh, Jamie... fiquei a saber que o Leo faz anos hoje!! E eu não tenho nada para lhe dar! Não sei o que fazer assim tão de repente! Queria que ele soubesse que eu...
- Não sabias em que dia era o seu aniversário?
- Não, Kate. Perguntei mais do que uma vez mas ele nunca me respondeu. Talvez não goste de o comemorar.
- Idiota!
- E então? - inquiriu Jamie que parou momentaneamente de pentear a crina do belo cavalo castanho. - Que queres que eu faça?
- Hummmm...
- Queres que lhe pergunte se é verdade? O que queres que faça? Não estou a entender o que queres.
- Não, nada disso. Queria oferecer-lhe qualquer coisa significativa, mas não sei o quê. - Levou a mão à boca e prosseguiu de testa enrugada: - Huuggg! Tenho de me sentar!
  Rapidamente, Jamie puxou um banco de madeira e ajudou Muriel a sentar-se. Levantou-lhe o rosto e ao ver a palidez, pediu:
- Kate, vai buscar um copo com água, por favor. Depressa.
- O que é?
- Depressa! Vá! Vá!
- É para já. - disse afastando-se a correr.
- Estás tão emocionada que até te sentes mal. Andas muito nervosa. Tu e a tua impetuosidade.
- Eu sei como sou mas tenho andado tão estranha. Já nem me conheço!! Não sei...
  Jamie levantou um sobrolho e perguntou:
- Mas já sentiste isto mais que uma vez?
- Não... Sim. Talvez uma vez mais. Bem... ultimamente tenho sentido muitas vezes o estômago revirado. Desde que comi aqueles frutos esquisitos fiquei assim. Estarei doente?
- Os frutos todos nós comemos. Não sou a pessoa indicada para te dar essa resposta. Pode ser uma questão nervosa ou... Lembra-te que passaram apenas algumas semanas do nosso regresso e a notícia do ressurgimento de Dan Tolos trouxe a todos nós uma carga excessiva de medo. Talvez isso seja só nervosismo e nada a ver com o que comeste há dias atrás. Abaixa-te e coloca a cabeça entre as pernas. Assim... isso mesmo! Quem deveria estar nervosa era eu e não tu.
- Eu começo a recordar tudo que passamos e fico assim.
- Dan Tolos é o meu inimigo e não vosso. Ele não vos fará mal. Estão livres de suspeitas. Dan é um assunto meu e de Dave. Nós somos os alvos dele.
- Eu sei, mas... o que queres? Sempre fui assim.
- Eu sei. Uma doida desmiolada. - respondeu Jamie rindo-se.
  Do interior da sua casa, Jullien observou Kate a correr com um copo. Parecia aflita. Deslocou-se até à outra janela e viu Muriel sentada com Jamie ajoelhada à sua volta. Olhou para o rosto dela e percebeu que se passava algo com Muriel.
  Muito ligeiro, o louro sábio saiu da sua casa e aproximou-se das jovens governantes.
- O que se passa com ela?
- Jullien! Oh! Não tenho nada. Apenas um ligeiro mau estar.
- Interessante.
- Não vejo onde está o interesse. - declarou Kate.
- Não vou ser mais uma das tuas cobaias. - ameaçou Muriel. - Nem pensar!
- Não, não, não! Longe disso! Estou preocupado não como curandeiro mas sim como amigo.
- Jullien, talvez seja melhor a observares. Não é a primeira vez que acontece. Fazes isso?
- A sério? Muito bem. É melhor ver o que se passa.
- Muito bem?! Só, muito bem? É o que tens a dizer? - resmungou Muriel. - Obrigado por tudo, mas já passou. Já estou bem. Jamie, quanto à nossa conversa de há pouco, o que é que eu lhe posso oferecer? Não me ocorre nada...
- Bem... talvez... não sei. E se fizesses um daqueles bolinhos de chocolate com recheio de noz que o Leo tanto gosta? É uma sugestão. - interveio Kate.
- Não é má ideia...
- E se lhe oferecesses algo ainda melhor? - Disse Jamie a sorrir.
- O que queres sugerir?
- Vai com o Jullien.
- Vou com o Jullien?!! O que é que ele poderá sugerir de interessante?
- Faz o que te peço, Muriel. - Jamie olhou para Jullien e este percebeu o brilho no olhar da sua amiga.
- Anda lá comigo.
- Por favor, Muriel, vai e cala-te.
- Está bem, eu vou. Chata!! - disse levantando-se do banco. - Mas por favor, não digas nada ao Leo. Não quero apoquentá-lo hoje. Ele faz anos.
- Eu sei.
- Sabias? Então porque não me disseste nada? Que rico amigo que me saíste.
- Promessas são promessas. Vamos. Querem vir?
- Tenho de terminar a preparação do Casi. Aparecerei em breve. Prometo. - respondeu Jamie encostada ao cavalo. Sorriu e acariciou o belo cavalo. Por entre os lábios que sorriam, sussurrou:
- Seria tão giro...