terça-feira, 2 de novembro de 2010

Semy (Capitulo 019)

(Capítulos anteriores: 001, 002, 003, 004, 005, 006, 007, 008, 009, 010, 011, 012, 013, 014, 015, 016, 017, 018)

CAPITULO 19

Quando Wise Sage chegou à cabana encontrou Jamie, Kate e Muriel à sua espera. Satisfeito com a visita, sentou-se na sua cadeira sempre a sorrir.
- Minhas queridas amigas, julgava-as a descansarem depois do que se passou hoje.
- Lann pediu que lhe viéssemos trazer-lhe o chá. Está aqui... bem quentinho.
- Obrigado, Muriel. -Bebericou um pouco e olhou para Jamie que se mantinha calada e séria. - Já estavam aqui há muito?
- Um pouco. Até pensámos que teríamos de levar o chá de volta e trazer um outro mais quente. - respondeu Kate num sorriso.
- É bom vê-las assim tão bem. Mas... nota-se na expressão triste dos olhos que ainda tremem por dentro. Foi um susto inesquecível. Dan Tolos precisa de uma lição...
- Fui um valente susto! - desabafou Kate.
- Creio que não voltará a aparecer por aqui. - disse Jamie sem acreditar no que dizia.
- Lamento não compartilhar da mesma opinião. Infelizmente estás enganada, completamente enganada. Dan Tolos não é daqueles homens que desistem perante um obstáculo difícil de ultrapassar, muito pelo contrário, aprecia com toda a intensidade um desafio como aquele que lhe foi feito hoje. Não vai ficar sossegado enquanto não fizer algo contra vocês, principalmente contra ti, Jamie.
- Não percebo porque me quer. Se é pelos cabelos, eu corto-os já! Eu não quero originar problemas para Semy. Quero viver a minha vida calma e discretamente.
- Daqui para a frente, a tua vida correrá sérios perigos. - Continuou Wise sem tirar os olhos da sua cara.
- Não tenho medo. Estou bem protegida em Semy e muito mais no interior do castelo.
- Será?
- O que pretende dizer com isso? Dan Tolos não poderá certamente entrar pelo castelo como o fez antes de descobrir-me.
- Sim, é verdade. Ele já não vai voltar a entrar daquele modo. Mas Tolos é um homem muito persistente, inteligente, manhoso e quando toma uma decisão, possa ou não ela prejudicar inocentes, não descansa enquanto não a concretizar. Os seus súbditos conhecem bem essas decisões. Dan Tolos é obstinado e em tudo que faz transporta um pouco da chama de uma paixão impregnada de emoções nefastas e mordazes. Será que um dia alguém ou algo conseguirá acalmar a sua sede de crueldade? - E calou-se momentaneamente observando os olhos de Jamie. - Talvez...
- Wise Sage, diga-nos o motivo porque nos fez vir à sua cabana trazer-lhe um chá que poderia ser sido trazido por apenas uma pessoa. O que quer dizer-nos? Vamos deixar-nos de rodeios?
- Jamie! - repreendeu Muriel.
- Fui assim tão óbvio?
- Começo a conhecê-lo e respondo: foi.
Wise Sage ajeitou-se na cadeira e num sorriso disse:
- Era o modo mais simples de as preparar para a conversa que iremos ter em seguida.
- Preparar??
- Sim, Muriel. Sentem-se, por favor. Trata-se de um assunto um tanto delicado mas sei que não vão zangar-se com o que lhes tenho a dizer. Irão achá-lo particularmente interessante. E na verdade têm mesmo de o ouvir.
- Fizemos alguma asneira? - perguntou Kate sentando-se no chão aos pés de Wise Sage. - Não me diga que nos vão vender a Dan Tolos? Não!!
- Não, que absurdo! Fica descansada.
- Não é assim tão absurda. Nós fomos as causadoras do conflito entre os senhores deste reino, conflito esse com consequências violentas que irão atingir de bem perto todos os habitantes das duas cidades. Esta é uma grande razão para a nossa venda imediata. Só pode ser isso! E os Elmer encarregaram-no, como nosso amigo, de nos avisar do facto.
- Oh! Muriel! Não é nada disso, estejam descansadas. Eu tenho outra história bem diferente para vos contar.
Calmamente, o feiticeiro explicou as regras e os costumes relacionados com a escolha das noivas dos governantes, ou futuros governantes de Semy. Muito atentas, as jovens mulheres escutaram tudo. Informou então, de que os corações dos irmãos Elmer já se encontravam definitivamente ocupados. A oficialização do noivado teria lugar numa manhã do primeiro dia do mês escolhido para a cerimónia do casamento junto do grande pátio do castelo. Aí, e de uma forma simbólica, o povo da cidade prestaria homenagem aos antepassados dos Elmer.
Wise Sage divertia-se com as expressões de Muriel e Kate mas nada conseguiu retirar do rosto sério de Jamie. A sua expressão era a mesma desde que tinha entrado naquela casa. Jamie encostou-se à parede e desviou o olhar para o fogo da lareira. E então uma delas perguntou se as noivas eram alguém que conheciam. E Wise Sage num grande sorriso respondeu:
- Sim, sim, sim... Conhecem muito bem.
- Quem são? Aposto em como uma delas é aquela escrava que está sempre a importunar-nos... - disse Kate. E virando-se para Muriell disse: - A Quinza, aquela que...
- São vocês!
- Nós?! - exclamou Muriel espantada e com um brilho nos olhos negros. - Não está a brincar connosco? Tem a certeza? Eles tratam-nos sempre tão mal, com brusquidão até. A Jamie então é a mais massacrada. Não pode ser. Está errado.
- Estarei Muriel? É o que o teu coração diz?
Jamie olhou repentinamente para o feiticeiro e abanou a cabeça num sinal negativo.
Kate olhou-a e não conseguiu segurar uma cara de felicidade.
- Desculpe Wise Sage, mas isso passou das marcas. E vou embora.
- Não o faças Jamie. Por favor, fica. Ainda não terminei. E é uma ordem que te estou a dar.
Contrariada, Jamie manteve-se imóvel junto à porta.
- Tudo que eles fizeram serviu para disfarçar um amor que nascia dia a dia, cada vez mais intenso. Mas digam-me, nunca repararam num olhar, numa atitude? Tu, Muriel, não precisas responder porque há muito que namoriscas Leo.
- Não temos tempo e nem devemos reparar no que os senhores fazem. - replicou Jamie.
- Não acredito. Podem enganar quem as rodeia, mas a mim, jamais conseguirão. Sabem muito bem da preferência sobre vós. Presenciaram, há bem pouco tempo, uma troca de palavras muito comprometedora na cozinha. Dave Elmer nunca se exaltou contra Dan Tolos daquele modo. Nunca. Era preciso possuir uma razão muito forte para o enfrentar como enfrentou.
- Na verdade, ouvimos comentários a esse respeito após a saída de Dan Tolos da cozinha. Contaram-nos um pouco do que aconteceu no pátio. - lembrou Muriel. - E depois... sentimos olhares suspeitos sobre nós. Era como se nos começassem a ver de um outro modo. Deixámos de ser as escravas de cabelos escuros para sermos algo... algo diferente e receoso...
- Receoso não, respeitoso. Começaram a ser vistas como as futuras senhoras da cidade.
- Wise Sage não diga disparates. - interrompeu Jamie visivelmente irritada. - Começamos a ser vistas como uma real ameaça à calma de Semy. Querem é ver-nos longe daqui!! Não invente contos de fadas! Gosto muito de si, mas está a inventar uma história deveras ridícula. Até irei descansar muito mais tranquila esta noite. - terminou num riso falso.
- Não sejas idiota; Jamie! Ninguém está a inventar histórias a não seres tu. - resmungou Muriel.
- Jamie, que estás tão céptica, finges não estar interessada no que revelei, finges que tudo que disse é uma invenção... e nem imaginas como és importante na história que afirmas ter inventado. - Wise Sage levantou-se e com um ar sério acrescentou: - Sei muito bem que o vosso coração também lhes pertence.
- O meu coração somente a mim me pertence. - respondeu Jamie com um tom ríspido na voz.
Wise aproximou-se dela e bem junto do seu rosto disse:
- Não mintas a este velho senhor que já assistiu a muito. Eu sei que isso não é verdade.
- Não vou dizer absolutamente mais nada a respeito deste assunto. Estou muito cansada. Quero ir dormir. Amanhã temos de trabalhar cedo. Mesmo contrariando uma ordem sua, abandono este lugar. Boa noite, bom amigo. - disse Jamie beijando a testa enrugada do sábio.
E abandonou a cabana em passos rápidos. Wise Sage olhou-a pela janela. Parecia que entre aqueles gestos decididos, alguma lágrima caiu. Também ela necessitava de mudar. Afinal não seria somente Dave Elmer. Rodou a cabeça e encontrou duas mulheres felizes a espera de mais algumas palavras suas.
- Chora.
- Possivelmente. - confirmou Muriel - Sempre preferiu que ninguém a visse a chorar. Ela não gosta de confessar coisas pessoais... tem um feitio um pouco difícil. É Dave quem gosta da Jamie, não é? Só pode ser...
- É. E reagiram os dois do mesmo modo às minhas revelações.
- Eles, eles já sabem de nós??
- Claro, linda Kate. - respondeu num sorriso.
- Eu gosto do Clive. Muito. - declarou Kate dando-lhe um beijo meigo na face do velho senhor marcada pelas rugas da vida.
- Ahh Eu sei!! Clive, esse rapaz maroto e algo tolo está enamorado por ti, minha doce Kate.
- Falta-me coragem. Tem de ajudar-me a aproximar-me dele, está combinado? Boa noite, Wise. Durma bem... - E saiu a correr.
- O meu coração é do Leo, como já todos sabem. Acho que agora já não precisamos de esconder. - afirmou Muriel só com a cabeça à vista junto à porta. - Ajuda-nos?
- Claro! É essa a minha missão.
Mas Muriel já não ouviu as suas últimas palavras. Wise Sage viu-as afastarem-se felizes e fechou a porta. Claro que as iria ajudar. Adorava aquelas jovens mulheres que um dia, de repente, tinham entrado na sua vida vindas de um lugar que só em sonhos tinha visto.
Olhou para a vela e com os olhos verdes a brilharem de contentamento, afirmou:
- Dave e Jamie... os dois juntos, tornar-se-ão tão diferentes. - E riu com satisfação. - Tornar-se-ão libertos de uma barreira cheia de impedimentos. Serão mais abertos aos sentimentos... e...
E o seu rosto tornou-se repentinamente tenso.
Lembrou-se da sua visão mais aterradora. Preferia que tais lembranças não lhe vagueassem na mente. Como queria ter poderes para mudar o futuro que presenciara. Talvez conseguisse. Tinha de conseguir.
- Senhores do Além Real: porquê? Porquê um destino destes? Jamie, querida Jamie... se eu falhar... nem imaginas o que sofrerás.

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