quinta-feira, 30 de setembro de 2010

... mero desabafo ...

É dos meus tormentos e faltas que nasce a minha inspiração.

Será que realmente falto no coração de alguém?

... Tu a mim faltas-me.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Foto 0016

Arrasta-me carril com destino marcado,
arrasta-me
porque
pura e simplesmente não quero saber de mim.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Coincidência

Não foi coincidência conhecer-te no instante que te conheci.
Estavas no lugar certo para que te conseguisse ver.
E assim cheguei ao estado de total insanidade ajuizada,
e o mundo mudou, rodou, tocou-me e eu não quis crer.

Não foi coincidência o facto de ver as marcas do teu caminhar,
num destino que só eu consegui descobrir.
Pedaços de mensagens perdidas ao vento e, no entanto,
agarrei-as, colei-as, cravei-as às minhas mãos para me cobrir.

Não foi coincidência os sussurros da brisa que não me larga o pensamento.
Brisas que fazem sorrir um pedaço de mim escondido,
parido, calado, rodopiado, controlado, tresloucado, amado.
Fecho os olhos e deixo-me ir em ti num toque atendido.

Não foi coincidência olhar e só te ver a ti,
numa seara de rostos todos iguais, todos agitados.
Agora, deitas-te no lugar onde quero descansar
porque repouso, finalmente, nos braços desejados.



(poema criado como oferta a um casal amigo)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Se a tua vida fosse uma mala o que lá porias?

Por vezes dou comigo a pensar no que levaria dentro de uma mala se esta fosse simplesmente a minha vida.
Fácil?
Não.
Difícil.
Como se pode colocar algo com tanto peso dentro de uma pequena mala?
Porque afinal a minha vida é um grão de areia comparada com a vida de uma estrela que é bem mais importante que eu.
Bem...
... acho que começaria pelo o que nunca colocaria dentro da mala: dinheiro.
Mas vamos por partes.
Afinal do que é constituída uma vida? E o que geralmente colocamos numa mala quando viajamos?

Roupas: Equilíbrio. A beleza não é essencial mas o bem estar físico é vital. A saúde é o nosso maior equilíbrio e temos de mudar de roupa cada vez que nos confrontamos com uma doença ou ferida. Precisamos de roupa para nos proteger e embelezar mas, acima de tudo, para nos confortar.

Sapatos: Caminhar. Para me aguentar o caminho. São os passos dos meus pés que me levam a algum lado porque parada nunca seria viver.

Mapa: Decidir. Sem um mapa como saberei eu o caminho para o meu destino mesmo que afinal nem saiba que destino é o meu? Pelo mapa vejo os caminhos e faço as escolhas. O mapa é o conjunto de decisões que tomamos para chegar a um determinado ponto onde tudo acaba por ter uma razão... ou não. Haverá uma razão para termos um Destino?

Luz: Força. Nascemos da escuridão e terminamos na escuridão e, pelo meio, vivemos nas luzes. Demasiada luz cega-nos. A luz é a força e a esperança que necessitamos de ter ao longo dos intermináveis minutos, horas, dias e anos. Por vezes é fraca, ofuscada, ténue e outras vezes é tão perfeita que nos faz lembrar que somos especiais e que afinal conseguimos andar e subir.

Toalha: Limpar. Há sempre momentos que temos de nos limpar, seja o corpo ou simplesmente a mente e o espírito do que nos sujaram.

Alimentos: Descoberta. Não consigo viver sem me alimentar. Seja dos sabores do que como ou seja da cultura e sensações que me rodeiam. Preciso de alimento para o corpo e para a alma, sedenta de fome do conhecimento.

Caneta: Falar. Pela caneta falo, grito, rio, choro e imploro. O que seria eu sem conseguir falar? Pelas palavras contamos pedaços de nós e damos pedaços de nós.

Máquina Fotográfica: Ver. Os meus olhos vêem o mundo como ele se mostra e como, também, eu o quero ver. Pela máquina, guardaria as visões e as imagens que criariam o livro colorido e a preto e branco das minhas vivências e experiências vividas.

Papel: Memórias. Falo, vejo, tenho força, descubro, decido, limpo-me, caminho, oiço, equilibro-me, sou amada e amo. Tudo isto é precioso demais para se perder. Terei de guardar nas memórias. As memórias são os parágrafos da vida que, juntas, fazem uma história que vivemos e fica guardada num livro para alguém um dia ler.

Música: Ouvir. Não me perguntem porque adoro música porque não sei. O que sei é que a poria sempre dentro da mala porque nela encontro uma linguagem que liga cada canto meu e cada canto dos outros. É a segunda linguagem universal que conheço. A primeira? Já irão saber a seguir.

Água: Amar. O essencial da vida. Todo tipo de Amor, porque sem amor não somos nada e não conseguimos viver. Amor daqueles que nos param o coração porque ele não sabe bater tão rápido. Amor daqueles que nunca termina e se remova a que chamamos Amizade. Amor daqueles que são do nosso sangue e nunca pára de correr a que chamamos Família. O Amor é a água da nossa sede diária.


Casaco: Tu. Para me agasalhar quando sentisse frio. E isso serias tu, meu amor, aquele que me beija e abraça quando preciso. És o aconchego que necessito quando tremo.

Devagar fecho a mala e olho para ela.
Sim.
Está completa.
Podemos ir então?


Desafio de escrita para a:

O que se pode fazer numa cama

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Só não sei...

(Há escritas que pura e simplesmente saem como uma corrente de desabafos
ou
como uma bruma de mistérios que não quero revelar.)



Sei o teu gosto
Sei o teu cheiro
Sei a tua voz
Sei o teu toque
Sei o teu olhar
Só não sei o teu rosto

Sei o teu azul
Sei o teu vermelho
Sei o teu branco
Sei o teu preto
Só não sei a tua cor

Sei a tua palavra
Sei a tua música
Sei a tua raiva
Sei a tua vida
Só não sei a tua história

Sei o teu choro
Sei a tua alegria
Sei o teu medo
Sei a tua liberdade
Só não sei quem és

Semy (Capitulo 016)

(Capítulos anteriores: 001, 002, 003, 004, 005, 006, 007, 008, 009, 010, 011, 012, 013, 014, 015)

CAPITULO 16

Abandonaram a sala principal e deixaram Dan Tolos tomar o comando do caminho
No meio de conversas banais, percorreram os corredores, as salas e os quartos. Contudo, o estado de ansiedade de Dan ia aumentando. Estava nitidamente à procura de algo muito concreto, porque por várias vezes passou por escravas que, anteriormente, em outras visitas, lhe dominavam a atenção e agora eram completamente invisíveis aos seus olhos. Desconfiados e cada vez mais convictos de que procurava as três morenas, os Elmer e Clive trocaram olhares de confirmação. A conversa que puxavam era no intuito de disfarçar que sabiam muito bem qual era o seu objectivo. Não podiam de modo algum demonstrar saber da existência das escravas de olhos e cabelos escuros que todos falavam. Dan Tolos nunca as poderia ver e muito menos reclamar a sua posse.
Farto de não encontrar o que pretendia, Dan Tolos surpreendeu-os quando disse que queria visitar a cozinha. Os Elmer indicaram-lhe o caminho a seguir.
Chegara a altura de revelar à cozinha que se dirigiam para lá. Leo juntou-se a Clive e a conversa com o senhor de Nastro prosseguiu. Apenas Dave preferiu permanecer calado. Não poderia fugir do comportamento habitual para com Dan Tolos. As suas vozes seriam um aviso para todos na cozinha. Com os ouvidos bem apurados, Jullien ouviu-os e alertou logo as suas amigas. Muito nervosas, esconderam-se ainda mais por entre os troncos e ramos de lenha.
Quando chegou à cozinha, Dan Tolos encontrou um ambiente calmo e fora de suspeitas. Mas mesmo assim, olhou para todos com um ar desconfiado. Aquele olhar quase simpático era o mais mortal dos olhares, o mais inquiridor dos que lançava a quem o enfrentava de perto. Os irmãos trocaram expressões que denotavam preocupação e curiosidade.
Lann levantou-se da sua cadeira e perguntou assim que chegou junto do alto homem:
- Deseja alguma coisa, senhor? Uma fruta amarga, talvez.
Bem junto ao ouvido de Lann, Dan ameaçou com calma:
- Não penses que os teus senhores te podem proteger lá por seres o seu braço direito. Eu posso fazer o que quiser e bem entender! Sai da minha frente!! - Em voz bem alta, acrescentou colocando as mãos sobre a mesa no centro da cozinha já sem conseguir disfarçar a sua irritação: - Quero ver tudo! Quero ver tudo muito bem neste lugar!!
- O que queres daqui Dan?
- Cala-te Leo!!!
Por onde passava abria portas e olhava para dentro de cestos e recantos. Desarrumava tudo que fossem lugares suspeitos para esconder alguém. Os escravos começavam a ficar nervosos com os gestos e atitudes de Dan Tolos. Ele estava fora de si. Só o tinham visto assim poucas vezes.
- Procura algo, senhor? - inquiriu Jullien. - Poderei ajudá-lo?
Dan respirou fundo e ignorou-o. Olhou para Dave que o matava com o olhar e respondeu num sorriso:
- Conheço-te... Eu vi-te... Talvez... se me disseres onde é que ela está. - E Dan levantou-o do chão pelo pescoço e roupa e encostou-o à parede. - Onde é que ela está?!!
- Ela... quem... senhor? - balbuciou Jullien a custo.
- Ahhhhhh... Eu sinto a sua presença... - Levantou a cabeça e gritou: - Vá, diz! Tu sabes muito bem!! És seu amigo. Onde está? ONDE ESTÁ????
- Pára imediatamente! - gritou Dave já furioso. - PÁRA! Eu não admiro que faças isso a um dos meus melhores escravos. Tu não estás na tua fortaleza! Larga-o já!!! Se continuares a ameaçar os nossos escravos essa maneira tresloucada, sou obrigado a pôr-te fora do castelo e por sua vez fora da cidade!! Será que desejas essa vergonha?
- Não serias capaz!!
- Não me dês razões para o fazer!!
- Ahhh vais ser atormentado pelo teu pai!! Lembra-te da jura que...
- Já te avisei Dan Tolos!!
Os olhos de ambos envenenaram-se.
- Serias tu o senhor da guerra! Experimenta, Dave Elmer! Experimenta e verás! Não consegues imaginar o que vais originar!!
Depois de um momento de silêncio em que todos esperavam ansiosos pela reacção dos dois senhores, Dan Tolos largou o servo franzino. Mas prosseguiu com a procura. E procurou, procurou, agora de uma maneira louca. Derrubou loiça e alimentos para o chão. E ninguém tinha coragem de o deter.
Jullien afastou-se massajando o pescoço.
- Onde está ela??? Eu sei que está aqui... - disse batendo com os punhos fortemente numa das mesas da cozinha. - Eu sinto-a! Eu sinto-a!!!
Leo segurava Dave mas sabia que não o conseguiria por muito mais tempo. O irmão estava prestes a quebrar a jura que tinha feito no leito de morte de seu pai.
- Não sei do que falas, Dan. - declarou Clive.
- A hora de brincarem comigo, terminou. Será que sabes o que isso é, bebé? Não tinha tanta certeza. Sai da minha frente!! A minha conversa é com os Elmer!! Tu, Leo, sabes o que quero, não sabes?
- Não.
As gargalhadas arrebatadas de Dan Tolos incutiram o medo em todos os escravos.
Dentro do depósito de lenha, Jamie, Muriel e Kate suavam com o calor que fazia no local, e também, porque o medo dominava os seus corpos. Por entre a lenha forte e fraca, esperaram que a cozinha ficasse livre. O coração ainda bateu mais quando Dan abriu a porta do depósito. Disfarçadas por baixo dos troncos, observaram a sua silhueta sem que Tolos as conseguisse ver. Todavia, parecia que sentia as suas presenças naquele lugar. Permaneceu demoradamente a olhar para dentro da sala escura. Foi então que Jullien entrou no depósito avisando que necessitava buscar lenha para o fogão. O rapaz louro tentava assim, despistar Dan. Com uma aparente calma, apanhava alguns troncos em vários sítios sem pôr a descoberto qualquer das três mulheres. Jullien sentia os olhos de Tolos sobre si.
Quando ia a sair com a lenha nos braços, Dan Tolos empurrou-o e, sem hipótese de se equilibrar, Jullien caiu exactamente no lugar onde se encontrava Muriel. Apanhada de surpresa e sentindo uma forte dor num dos braços, libertou um grito. Nunca conseguiria aguentar a dor em silêncio. Tinha sido fatal demais.
Rapidamente, Tolos entrou de novo no interior do depósito, desviou Jullien, e começou a tirar os troncos e ramos onde estava Muriel. Enquanto isso, vendo uma oportunidade para escapar, Jamie saiu sem barulho do seu esconderijo bem por detrás do forte homem. Mal reparou que tinha encontrado a pessoa errada, Dan Tolos virou-se e apanhou Jamie a fugir. Num gesto repentino e certeiro, agarrou-a e levou-a para o meio da cozinha. Ela tentava libertar os braços das mãos de Dan que os apertava fortemente.
- Eu sabia que estavas cá!
- Esta voz! Foi este o cavaleiro que me agarrou hoje de manhã. - afirmou Jamie a olhar para a cara do homem de cabelos escuros que a agarrava. E nesse momento, também se recordou da respiração ofegante. O seu choque foi total. Era completamente diferente do que tinha imaginado. Como era possível que um homem tão belo poderia ser tão malévolo.
- Tu um dia... ainda serás minha... - murmurou ao ouvido de Jamie quando a chegou mais perto do seu corpo apertando-a com força. Jamie olhou-o surpreendida a poucos centímetros da sua cara. Observou-o bem, mas com muito receio. Não acreditava que aquele homem pudesse ser a criatura que todos temiam. Não possuía nada na sua cara que a levasse a pensar isso. Encontrou um olhar louco mas hipnotizador.
Dave, furioso com o comportamento de Dan, não conseguiu aguentar por mais tempo a sua raiva e aproximou-se dele para o travar mas foi impedido pelo irmão e por Clive que o seguraram fortemente. Muriel e Kate saíram do depósito e Dan observou-as.
- É com esta que quero ajustar contas... - disse acariciando-lhe os cabelos sem deixar de a segurar com o outro braço. - Minha cabra selvag...
E foi nessa altura que Muriel aproveitou para se atirar para as pernas de Tolos. Sem esperar o gesto da mulher, o formoso homem caiu no chão deixando Jamie para trás. Quando ia a levantar-se, levou com um forte murro de Jamie que o estendeu no chão outra vez.
- Eles não o podem fazer, mas eu posso. - declarou a jovem esfregando a mão - E tornarei a fazê-lo se for necessário.
Furioso, Dan Tolos levantou-se e quando ia para agarrá-la, foi impedido de o fazer por Dave, Leo e Clive. Tolos queria livrar-se das mãos dos dois, mas estes tinham-no bem seguro. Entre palavras de raiva, retiraram-no da cozinha. Sempre a olhar para Jamie, Dan gritou:
- Vais arrepender-te do que me fizeste!! Tornarás a ver-me!! Fixa bem a minha cara!
As três suspiraram de alívio quando deixaram de o avistar.
- Será que ele volta?
- Hoje já não, Muriel. - afirmou Lann nervoso. - Mas isto ainda só agora começou... Ele agora já sabe da vossa existência e não vai acalmar.
- Ai assim fico com medo... - suspirou Kate.
- Eu fui buscar lenha para que ele não pensasse que se encontravam lá. - disse Jullien tristemente. - Afinal deu tudo errado. Quando eu quero ajudar, só sai asneira.
- Não digas isso, Jullien. Obrigado pela tentativa. Até porque foi uma boa ideia. - agradeceu Muriel.
- Aquele homem é estranho. - sussurrou Jamie ainda a massajar a mão. - Até parece que a maldade lhe dá qualidades para ver no escuro... Diabólico... - E limpou uma lágrima de medo que escorreu no rosto sujo.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

As fotos

Pediste-me para me sentar junto a uma mesa desprovida de tudo e aguardar.
Sentada na cadeira movo o olhar sem levantar a cabeça.
Fecho os olhos momentaneamente e desejo que chegues.
Odeio estas esperas de surpresas tuas que não sei onde vão parar.
Adoro estes jogos que me provocam.
Consciente disso, entras com algo na mão.
Puxas a cadeira devagar e, sem me olhar, sentaste.
A queimar-me, cravas-me o olhar.
Devagar, levantas uma foto como que acusando-me.
Ergo os sobrolhos e pergunto:
- Que queres?
- O que vês?
Sorrio e, respondendo friamente, digo:
- Céu.
- Voa.
E a sorrir puxas outra foto e colocas ao nível dos teus olhos.
- Terra. - Respondo eu.
- Prende-me.
Aproximo-me da mesa e questiono:
- Como?
E agarras-me repentinamente na mão prendendo-me à mesa.
Não dou sinal da dor nem do prazer que começa a nascer.
Pegas numa foto e acaricias-me com ela devagar, muito devagar. E paras a meio do meu braço e perguntas:
- O que vês?
- Água.
- Rebento.
Levantas-te, viras-me para ti e prendes-me o outro braço.
Não sei onde queres ir mas dali eu não saio.
Com outra foto na mão, tocas-me com a ponta deste o pescoço até ao joelho.
Demoraste pelo caminho.
Já deixei de ver o que a foto tem.
Já só te vejo.
Já só vejo os cliques do teu olhar cravado na carne que consomes com cada passagem da foto.
Rasgas-me e expões-me.
Tocas novamente com a foto e não permites que fale.
Colas-me uma foto nos lábios que gritam por ti.
Brincas com as fotos na minha pele colando-as onde recusas tocar-me sabendo que são redutos teus... só teus.
Com a última foto, arrepias-me, acaricias-me, torturas-me.
Largo uma lágrima não de dor mas de êxtase e tu, pegando nela, beijas-me e dizes:
- Deixo o melhor sempre para o fim...
E entras, depois de entregares tantos convites.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Cold

Redescobri esta música há uns dias e sou fã da Annie já desde os Eurythmics.
Esta canção do Album 'Diva' anda aqui na minha cabeça...



Annie Lennox - Cold

"... Dying is easy it's living that scares me to death
I could be so content hearing the sound of your breath.
Cold is the color of crysal the snowlight
that falls from the heavenly skies.
Catch me and and let me dive underfor
I want to swim in the pools of your eyes..."

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Compasso

Oiço o pesado passar do tempo pela alma
num compasso apressado
como que aflito numa noticia
que nunca fará passado.
Atiro setas de questões em vão
num compasso de espera estéril e surdo
como que cego por acertar devidamente
no alvo errado de um grito absurdo.

Olho para as estrelas do céu silencioso
e num compasso crio um circulo nas estrelas despidas
como que cheias de infernos escondidos
que me levam a descobrir as luzes abatidas.
Estico a folha e aliso-a com a mão
e num compasso pego e desenho um circulo
como que criando o meu mundo mágico
que me leva ao fresco do teu crepúsculo.

Atiro-me para um mar imenso e cristalino
num compasso ritmado de brumas gotas
como que navegando nas águas que me aconchegam
criando desertos de saudades que rapidamente esgotas.
Escondo-me das ausências pérfidas
num compasso de notas que o ouvir encantam
como que enchendo a sinfonia de vida
em valsas que me atormentam.


(resposta a um desafio com a palavra e significados de "compasso")

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Sabes Amor,

não consigo falar de ti como os outros falam.
Para dizer "Amo-te" quase que morro.
Sabes porquê?
Porque não te quero usar por usar.

Amor, como posso saber quando o dizer?
Não és uma simples palavra.
És tudo para mim e não te posso desperdiçar dizendo por dizer.
Abraço-te, mimo-te, protejo-te, guardo-te bem fundo de mim, só para saíres um dia,
e, então,
brilhares.
É, Amor...
não consigo dizer "Amo-te" por dizer.
Compreendes-me?
É por isso que exiges tanto de mim?
Porque eu exijo tanto de ti?

Amo-te, Amor.
Amo-te.
Senão... não te escrevia.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Conquista

Pego na espada do meu desejo e corro pela batalha que me espera.
Levanto-a, brando-a no ar.
Grito desafiadora.
Só penso em te conquistar.
Defendo-me dos ataques gritando e não me importando
com os golpes da Espera,
com o machado da Dúvida,
e com as setas do Tempo.
Defendo-me rodando, saltando e caindo de costas.
Levanto novamente a espada e faço-a luzir no ar.
Estou repleta de forças para desbravar caminho até ti.
Ferem-me e cambaleio-o.
Fraquejo.
Cravo a espada na terra chamada Esperança e levantou-me.
Nunca me senti tão forte.
Nunca desejei tanto um guerreiro.
Nunca brandi assim as minhas armas.
Vou contra tudo.
Rasgo, firo, elimino e...
... chego a ti...
Chego a ti...
suja
sagrando
exausta
mas com o maior brilho nos olhos que já senti.
E deposito-me nos teus braços.
E deposito nos teus lábios a minha conquista.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Semy (Capitulo 015)

(Capítulos anteriores: 001, 002, 003, 004, 005, 006, 007, 008, 009, 010, 011, 012, 013, 014)

CAPITULO 15

- E como estão os meus amigos? - perguntou Dan Tolos quando entrou na sala principal abrindo ainda mais as portas para que a sua entrada fosse muito notada.
Dave manteve-se encostado à lareira e os restantes sentados com os pés na mesa.
Dan Tolos era da mesma altura e da mesma idade de Dave. Ombros largos, corpo atlético e uma cara de feições belas, era o que predominava numa figura que em nada fazia associar ao carácter e personalidade destruidora e maléfica que o caracterizava. A ternura e simpatia das expressões iludia qualquer um que não o conhecesse, iludia qualquer um que acreditasse numa mudança no coração sanguinário do senhor de Nastro. O seu cabelo era curto e de cor preta, uma raridade naquele mundo. Os olhos azuis turquesa não paravam quietos, observavam tudo e todos.
Retirou o manto escuro dos ombros e ficou apenas com uma camisa e umas calças largas, tal qual os Elmer. Olhou para a cadeira, sorriu e acabou por se sentar.
- Bem. - respondeu Dave sentando-se contrariado na sua cadeira.
- E tu?
- Melhor é impossível, Leo. Sinto a vida pulsar dentro de mim. Estou a sentir-me renascido! Adoro viver nestes dias.
- Também gosto de viver a estação das colheitas.
- E tu, Clive, sempre ao lado dos teus amigos... - Ajeitou-se na cadeira. - Por falar em colheitas, como vão as vossas? Eu ainda não comecei com as minhas. Dão muito trabalho... a organizar... a orientar aqueles escravos rebeldes... - inquiriu Dan olhando para Dave de soslaio.
- Um dos melhores anos. - respondeu Clive.
- Mas isso... já tu sabias.
- Já sabia? Não entendo onde queres chegar, Dave?
- Porque enviaste aqueles homens aos nossos campos? - acusou Leo batendo com o copo na mesa.
- Eu?! Não fiz tal coisa. Porque o faria? Qual é o meu interesse em enviar homens da minha guarda observar as vossas colheitas? Não preciso disso... Não necessito de vocês para aprender como se lida com a terra... como se lida com escravossssssss...
- Talvez até tenhas vindo tu próprio a chefiá-los...
- Esse teu ar de menino que se julga dono de tudo não me intimida, Dave. E como estou muito bem disposto, vou responder-te: eu não saí do meu castelo. Asseguro-te de que não mandei nenhum dos meus guardas a Semy. Não me daria a tal trabalho. Gosto de poupar os meus cavalos de tarefas medíocres.
Os olhos de Dave já lutavam com os de Dan, mas tentava manter a calma.
- Nem mesmo para verem escravos discretamente? - inquiriu Clive.
Pegou numa uva e numa calma sem suspeitas brincou com ela e respondeu:
- Não.
- Esqueçamos o assunto.
- Acho melhor, Leo. Eu vim em paz. Não quero arranjar conflitos convosco, meus adoráveis vizinhos. - E suspirou.
- Vinho? - ofereceu Leo.
- Sim, sim. A esta hora sabe sempre bem. - Levantou-se e colocando-se em pose com a mão no cabo da espada à cintura, perguntou entre golos do vinho: - Quando é que os formosos Elmer decidem dar a Semy um herdeiro?
- Quando calhar... Mas sempre rodeados de muitas mulheres... - respondeu Leo com um sorriso.
- Muito bem! Tens vindo a aprender com o teu feiticeiro louco, é? Pois eu só pretendo ter um filho da mulher que me agradar completamente. E isso até agora ainda não aconteceu. - Levantando o olhar para o tecto da sala acrescentou levantando a voz - Porém... já tenho uma em vista.
- Óptimo para ti, Dan. Espero ser convidado para o casamento. - declarou Dave com ironia.
Dan Tolos riu com as últimas palavras de Dave.
- Certamente, certamente. Como poderia eu deixar de parte tão ilustre figura do nosso país? Jamais!! Farei a cerimónia em tua honra. Até porque possivelmente irás gostar de assistir, dar a bênção à noiva...
Dave olhou-o sério e Dan Tolos por entre um sorriso vitorioso, perguntou:
- Têm escravos novos? - E bebeu o resto do vinho. - Estou apenas curioso. Fiquem descansados que hoje não venho cá para comprar escravos. A visita é só para vos rever. Mas quero saber para depois fazer as minhas contas. Apesar de ser mais rico, perdoem-me, tão rico como vocês, gosto muito de evitar que as moedas saiam das minhas arcas.
- Nada de novo. É incrível que depois de teres levado vinte escravos há quatro meses, já necessites de mais. Não serás demasiado severo para com eles?
- Meu caro Leo, não tens nada a ver com a minha maneira de tratar os meus escravos. Limita-te a vendê-los e a tratar da reprodução de melhores exemplares.
- E tu tratas de os eliminar rapidamente nessa tua insaciável necessidade de novidades...
Dan, visivelmente irritado, respirou fundo e respondeu a Clive:
- Sabem que detesto monotonia e vocês adoram moedas. - Aproximou-se de Dave e olhando-o nos olhos num claro desafio perguntou: - Será que eu poderia dar uma vista de olhos pelo castelo?... Isto é, para ir vendo mais ou menos o que dispõem. Não quero incomodar, mas gostava... Enche-me a alma...
Dave fez silêncio. Controlando a sua raiva e desviando-se, respondeu:
- À vontade. Nós acompanhamos-te.
- São tão simpáticos comigo. Tratam-me com tantos carinhos. Qualquer dia virei viver para Semy.
- E eu vou para Nastro. Pode ser que faça desaparecer a morte que existe por lá. - replicou Dave ao abrir a porta.
- Ahhh adoro o teu humor!!!

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

De que temos medo?

De perder alguém,
porque não tentamos ficar com ela?

De falar a verdade,
porque não podemos ser sinceros?

De contar o que sentimos,
porque não queremos a rejeição?

De sofrer a dor,
porque não há remédio para a combater?

De arriscar,
porque temos dúvidas?

De criar conflitos,
porque nos obrigam a tomar decisões?

De morrer,
porque só sabemos viver?

De perder uma parte de nós,
porque não sabemos nos adaptar?

De viver a vida,
porque ela nos dá tudo e nada?

De nos abrirmos,
porque nos tornamos frágeis?

Da maldade,
porque sabemos que o bem demora a actuar?

Da solidão,
porque não conseguimos aguentar o frio do silêncio?

Do silêncio,
porque é a ausência de mundos?

De chorar,
porque não queremos mostrar emoções?

De escrever,
porque revelamos o nosso intimo?

De não saber quem somos,
porque não nos queremos conhecer?


De que tenho medo?
De ter medo.

Porque se perde tanto com os medos.


sábado, 4 de setembro de 2010

Bem Vindo ao Passado

Esta música aparece-me muitas vezes na minha cabeça quando vagueo pelas ruas de Lisboa...
Gosto da melodia, gosto da letra...
E hoje mais do que nunca apetece-me ouvi-la vezes sem conta...


GNR - Bem Vindo ao Passado

Já morri a morte certa
Já senti a fome, aperta a dor
Já bati à porta incerta
Viajei de caixa aberta, a dor
Pecado, fundido, queimado
Já desci lá em baixo ao fundo
Já falei com outro mundo e então
Já passei o limbo limpo
Já subi ao purgatório e vou
Zangado, bem vindo ao passado
Pecado, arrependido, queimado
Zangado, bem vindo ao passado
Pecado, fundido e queimado
Zangado, bem vindo ao passado
Pecado, arrependido, queimado

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Os beijos

Da vontade nasceu os traços desenhados
que o caminho ordenou, passo a passo,
para que os nossos lábios, renitentes, lentos,
cansados da distância se unissem tão escassos.

Esmera-te, amor meu, e percorre suavemente
a minha boca seduzindo-me
numa arte de carícias incandescentes
que nem eu sei imaginar e só assim perdoo-me.

Não sei parar de te lembrar.
Não estou cansada nem vou ficar cansada
do teu silêncio porque desta vez ele aconchega-me de ti,
enche-me de beijos e deixa-me, ali, repousada.

Amigo, amante, prudente, incontrolável, figura de homem,
leva-me a viajar nos teus secretos desejos.
Como grãos de areia, sacudo-me dos beijos
neste deserto onde escolhi encontrar-te em dunas de festejos.

Rebenta com as muralhas dos meus lábios
e entra conquistador no seu interior.
Crava tua espada fina e deixa-me rendida
sem resposta perante tal senhor superior.

Tento, luto, revolto, questiono, caminho,
contra este crescente tormento vil
que me despe e enriquece num infinito
sofro de beijos a que me prendo servil.

Pegas-me a medo, com medo de me partires,
e eu, parto-me porque não consigo unir-me depressa
quando os beijos que arrancas só deixam
rios e ventos de saudades que a pele me confessa.