quarta-feira, 30 de junho de 2010

Embalo

Não são palavras apenas aquelas que digo
são retratos do que sou e quero ser,
nascentes rebeldes que nascem em mim
e que são meros desejos de te ter.

Grito e sacudo-me devagar
na esperança de te consumir desalmadamente
como quem não consegue respirar
mantendo-me imóvel para saciar a desumana mente.

Pairo surda dos teus toques,
cega das tuas palavras,
desenrolando papeis vazios
na pele sulcada de mim que lentamente lavras.

Embalo o silêncio e a multidão,
numa teia rígida em que o teu suspiro,
desliza no centro do meu monte mais secreto
transbordando num fogo em que me inspiro.

Deixo-te penetrar por mim adentro
e afasto-me vendo-nos colados e irados,
não quero acreditar na ardente verdade
dos jogos em que perdidos estamos conjugados.

Sou igual ao sorriso com que te beijo
colado nos meus lábios que acesos choram,
vermelhos vivos porque os mordeste
nos laços que se afundam e enamoram.

Devolve-me o meu desespero pela tua ausência,
não a queiras somente para teu sofrer,
porque é minha enquanto não te entregas
na corrida dos desejos sonhados a percorrer.

Pacífica, rebento em ira por não te tocar,
revolta num turbilhão a que me arrastas perdida
e calada grito e fustigo o vento
que te entrega os meus restos já rendida.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Sei

Sei que desconheço livro tão fechado como aquele que tu és.
Sei que é escasso o que sei das suas histórias.
Sei que lanças constantes palavras que muito caminham mas que mal mostram para onde vão.
Sei que preciso de momentos.
Sei que estou cheia de palavras que me rebentam de vazio.
Sei que tenho falta de ti mesmo quando te repudio.
Sei que estou inconstante, rebelde, cruel até, porque nunca ninguém me despertou assim.
Sei que sou quem te odeia, amando-te.
Sei que me deixas perdida na dualidade de desejos que me apunhalam.
Puxas-me, provocas-me, irritas-me, satisfazes-me, preenches-me, magoas-me, fascinas-me, desafias-me..
perdes-me...
ganhas-me...
Sei que te quero magoar para finalmente saíres do teu mundo e dares um passo em direcção ao meu.
Sei que tenho medo de me dar como nunca me dei.
Sei que tenho medo de perder o último e mais humano pedaço de mim, o reduto que me resta e que defendo até de mim mesma.
Sei que já me deitei algures entre a mágoa e o arrependimento.
Sei que vagueio por mim sem saber o que vou encontrar porque desde que te encontrei que deixei de me conhecer.
Sei que quero perder-te para te ter.
Sei que preciso caçar o que guardas tão bem e no entanto a selvagem sou eu.
Sei que é a minha necessidade de ti que me alimenta impiedosamente.
Sei que peço boleia da vida mas recuso ver porque ela não te leva comigo.
Sei que tudo isto te passa ao lado...
e com isso só me apetece parar...
parar de ti.

domingo, 27 de junho de 2010

Semy (Capitulo 007)

(Capítulos anteriores: 001, 002, 003, 004, 005, 006)

CAPITULO 7

Aquelas criaturas moravam num castelo rodeado por uma povoação, que por sua vez era protegida por uma forte e extensa muralha. Situava-se no cimo de um largo planalto. Em volta, estendiam-se planícies quase sem fim. Foi um acontecimento naquele dia a entrada das mulheres estranhas para todos. Subiram o acesso ao pátio do castelo em grande velocidade, aumentando ainda mais a curiosidade do povo da cidade. Frente à torre de menagem, centro de todo o castelo, os homens retiraram-nas dos cavalos sem qualquer tipo de gentileza. Para eles eram mais uma peça de caça. Com marcas de sangue dos animais abatidos na roupa, Jamie, Kate e Muriel olhavam para os espectadores no pátio. Jamie percebeu que as miravam aterrorizados e não desviavam os olhos dos cabelos. Era ali que se encontrava o maior receio. Tinha de perceber a razão.
O homem que chefiava aproximou-se delas e perante os muitos servos presentes, ordenou que as levassem para o interior do castelo. Dois dos guerreiros colocaram-nas aos ombros e assim as transportaram para o interior da torre. Mais intrigadas do que nunca, esperaram pelo gesto seguinte.
Num passo acelerado, chegaram rapidamente a uma grande sala onde as paredes se encontravam cobertas por belas tapeçarias. Os desenhos que representavam histórias daquele local, predominavam nas altas e largas tapeçarias. Quanto à mobília, apenas umas quantas cadeiras e uma grande mesa de modesto trabalho artesanal, tudo feito de madeira. Logo atrás, vivia uma lareira de pedra clara com o fogo quase apagado. Por vários sítios, viam-se alguns montes de almofadas. E foi para um deles que as atiraram. O mais velho, de quem partiam as ordens, dispensou os outros homens e chamou os servos. A estes, ordenou que trouxessem comida e algo para beber.
Aproximou-se das três mulheres e olhou para os restantes dois guerreiros na sala enquanto acariciava o punho da espada à cintura. Depois de ter admirado demoradamente as novas mulheres, deu ordens para cortarem as cordas que as seguravam.
- Ufa! Caramba! Estava a ver que nunca mais ficava livre. - sussurrou Muriel massajando os pulsos marcados pela corda.
Os homens retiraram a capa e a bainha com a espada e colocaram na mesa. Dois deles, sentaram-se nas cadeiras e colocaram os pés sobre a mesa. O que parecia ser o mais velho, encostou-se à mesma mesa e cruzou os braços. E foi este quem iniciou a conversa.
- Se tentarem fugir atiro-vos com a espada e morrem já. - Semicerrou os olhos e depois de beber num só trago um copo de vinho, acrescentou: - Agora que estão mais confortáveis... já podem começar a contar a vossa origem. Temos muito tempo para ouvi-las. Estou à espera. Quero a verdade. Senão... já sabem o que acontece... - E pegou na espada pousando-a sobre as pernas.
- Pois muito bem, se assim preferem...
- Não se trata de preferência trata-se de uma ordem.
Jamie respirou fundo e respondeu.
- Nós viemos de um outro... de um outro mundo muito distante daqui. Tão distante que nem a imaginação o alcança. Se nos perguntarem como chegámos a este lugar, não lhes poderei responder pois nem nós próprias sabemos. Aparecemos. Mas isso já pertence a um passado que queremos esquecer. É tudo o que tenho a dizer.
- É pouco... muito pouco.
- Esqueçam de onde viemos e digam-nos para onde vamos. - pediu Muriel a ajeitar a saia que usava debaixo de uma grande camisola com motivos florais. - É o que nos interessa presentemente.
Depois de um silêncio que pareceu uma eternidade e perante os olhares ferozes daqueles homens um deles falou.
- Temos de falar com o Wise Sage sobre este assunto. Ele deve ter algumas explicações. Estas mulheres são estranhas demais. Acho que chegou a altura de saberem algumas coisas sobre nós e sobre este lugar já que estão tão determinadas em viver o presente e esquecer o passado. O meu nome é Leo. Este é Dave, o meu irmão mais velho e...
- senhor deste lugar. Nós governamos esta cidade e mais algumas terras em seu redor. Como podem perceber - se é que têm capacidade para tal - somos nós quem manda aqui. Senhores absolutos, habituados a que os seus pedidos sejam satisfeitos sem a mais pequena recusa. Todos! - E olhou bem para os olhos das três mulheres - Aquele ali, é Clive um amigo de longa data que nos acompanha há anos e que é para nós como um irmão. - Bebeu outro copo de vinho e prosseguiu. - A cidade tem o nome de Semy. Este país é governado por duas forças: a nossa e por Dan Tolos.
- Ahh! A comida chegou! Estou esfomeado - interveio Leo enquanto que desapertava o fio em volta da bota.
Entraram na sala uma série de escravos que com rapidez, arrumaram sobre a mesa as várias iguarias e jarros de vinho e água. Tão inesperadamente como tinham surgido, desapareceram. O aparecimento das três mulheres de cabelos escuros era assunto do dia por toda a cidade. Olhavam-nas com curiosidade e uma certa dose de desconfiança.
Jamie, Muriel e Kate tentaram desviar o olhar da comida para não as fazer suplicar por um pouco pois não saberiam a reacção daqueles homens. Kate largou uma lágrima e Jamie abraçando-a sossegou-a.
- Estão com fome? - perguntou Dave sem desviar o olhar da peça de carne que comia.
- Um pouco - respondeu Muriel a medo.
- Podem aproximar-se. Sentem-se aqui, junto à mesa. - convidou Clive empurrando uma cadeira com os pés. - Comam!
Hesitando um pouco de início, acabaram por se sentar à grande mesa de madeira momentaneamente tapada por uma variedade de alimentos. Durante alguns minutos, os três senhores do castelo limitaram-se a observá-las com a devida atenção. Admiravam a maneira rápida e eficiente como limpavam os pratos e algumas travessas.
- Ainda bem que as encontrámos. Quando não... morreriam de fome. - comentou Dave quando retomou a sua refeição. - O que seria lamentável porque têm bons braços para trabalhar.
- Tem aspecto de serem boas trabalhadoras. Escravas destas jamais encontraremos neste país. Diria até que são demasiado preciosas.
E os três riram-se. Jamie achou que havia algo enigmático naquele elogio e decidiu inquirir um pouco mais.
- O que pretendem fazer de nós? Que trabalhos é que nos irão dar? Porque nos acham assim tão preciosas? Somos mulheres como tantas que vimos por aqui.
- Quem faz perguntas aqui somos nós. - replicou Leo a brincar com o seu punhal.
- Por favor, só queríamos saber o que vão fazer connosco. - insistiu Muriel.
- Vão saber em breve... - respondeu Clive atirando um osso para a lareira.
- Temos quantos escravos quisermos. Um dos nossos negócios é a compra e venda de escravos. - explicou Leo entre um sorriso de gozo.
- Podem descansar o vosso medo porque por enquanto não as iremos vender. - Os olhos que os dois homens lançaram a Dave pareciam não concordar com a ideia. - Pretendemos verificar como são a trabalhar em Semy. A vida nesta povoação não é fácil. Mas quem não arranjar problemas, não a achará assim tão difícil.
- São diferentes de todas as mulheres daqui... - sussurrou Leo aproximando-se de Dave. - Saberás bem o que estás a fazer?
Este lançou um olhar que calou o irmão.
- Tratarão das nossas roupas e quartos. - prosseguiu Dave. - E farão mais alguns trabalhos que Lann e nós ordenarmos. O chefe dos escravos chama-se Lann. Ele é o nosso homem de confiança. Tratar-vos-á bem. Isto é... desde que cumpram todas as suas ordens. Quando chegar a altura das colheitas, ajudarão também. Terão sempre que fazer em Semy. Esta é uma cidade de trabalho. Haverá dias em que pedirão para que o dia passe depressa.
- Aqui, os escravos são bem tratados, o mesmo não se passa em Nastro. - indicou Leo antes de beber de uma só vez o conteúdo do seu copo. Acabem de comer e esperem por Lann. Ele vos dirá onde irão dormir e vos dará roupas para vestirem.
- Hoje vão conhecer a povoação e saber os lugares onde farão as diversas tarefas. Despachem-se. - declarou Dave levantando-se da mesa.
Pegou a espada e colocou-a de novo à cintura. Olhou de novo para as três mulheres e acrecentou:
- Espero que tenham entendido bem o que aqui foi dito porque não tenho paciência para novas explicações.
E abandonou a sala com o irmão e amigo por uma das duas portas existentes na sala.
- Depois de tudo... acho que ainda tivemos sorte. - afirmou Muriel bebendo água. - E repararam como eles são tão giros?
- Só tu para reparares nisso agora. - resmungou Jamie passando as mãos pelo cabelo antes de se levantar da mesa.
- Apetece-me chorar. - confessou Kate - Sinto-me triste. Queria sair daqui. Queria tanto voltar à minha casa.
- Mas não podes. Estamos todas com medo neste momento. - declarou Muriel. - Precisamos de forças. Agora mais do que nunca.
- Uma nova vida acabou de nascer. - murmurou Jamie sem conseguir disfarçar a sua preocupação observando a povoação pelo vidro da janela.

sábado, 26 de junho de 2010

Requiem for a Dream

Mais uma música que agora não me sai da cabeça e que é tão adequada ao livro que vos estou a mostrar aqui em capítulos: Semy.


Versão Lord of the Rings de Requiem For A Dream de Clint Mansell

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Consumida, recuo

Pelo vento que jaz em mim penoso e curioso por um suspiro meu
não sei suportar mais o silêncio do teu nascer
aguardo os cantos das montanhas que me acariciam quando tu te vais sem te moveres
sou flor do campo que muitos olham mas poucos colhem para não se picarem na sua rebeldia
agito os meus segredos em cada pétala que desejas arrancar desnudando-me para depois te banhares no seu cheiro.
não sou fácil porque sou genuína
sou difícil porque não consigo iludir
arranco-me em pedaços procurando um poiso
não quero esperar pelo vento que não sai do lugar
vinco cada passo na tua pele emanando um desejo cego e carente
marco a areia do meu deserto na espera do teu mar de carícias
gemo em cada passagem das nuvens que largam pingos das lágrimas que me queimam das saudades que não queres aceitar
Consumida recuo.
Exausta, paro.
Vazia, desapareço.


quarta-feira, 23 de junho de 2010

Toy Story 3

O filme de animação que gosto mais é o Toy Story.
E agora vem aí o terceiro filme ;-) e o meu querido Buzz até flamenco vai dançar ;-) hummmmm

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Quero amar-te

Quero amar-te sem amarras
porque elas corroem o meu desejo
em cada murro distante
que dou em mim porque não te vejo.

Quero amar-te e não sei
porque me perco em amores efemeramente rasos
pedindo ao meu ser que vá incessantemente
por caminhos curtos e sem prazos.

Quero amar-te sem sentido
entre ondas que sufocam e elevam
perdida em murmúrios que não consigo escutar
e que os meus lábios timidamente revelam.

Quero amar-te de ódio
para sentir tudo num só espaço
arrancando pétala a pétala
o meu gemido mais devasso.

Quero amar-te num grito
porque ele de mim se lamenta desunindo-se
da distância que só queima
num rápido fogo consumindo-se.

Quero amar-te desnuda
partilhar a minha pele para te aconchegar
e depositar vestes de malícia
em cada mordidela dos beijos do teu olhar.

Quero amar-te ferida
lembrando-me que quando pingo só ganho apenas
silêncios que falam e se revezam
nestes círculos de sopros chamadas arenas.

Quero simplesmente amar-te
e suplico que fales o quanto louca sou
para que assim não me perca
naquilo que não sou.

domingo, 20 de junho de 2010

Semy (Capitulo 006)

(Capítulos anteriores: 001, 002, 003, 004, 005)

CAPITULO 6

Três homens altos e bem constituídos seguravam firmemente as espadas em direcção a Jamie, Kate e Muriel. Mais afastado, um outro grupo de cerca de uma dúzia de guerreiros parecia esperar por ordens para avançarem. De espadas na mão, olhavam para elas desconfiados.
Dois deles possuíam semelhanças nas feições e igual tom de cabelo. O louro palha ligava bem com o azul discreto dos olhos, olhos esses, que as observavam atentamente. Vestiam uma túnica escura adornada por um grosso cinto colocado diagonalmente sobre as ancas e umas calças largas apertadas por botas de cabedal a partir dos joelhos. A ajustar as botas às pernas, usavam fios escuros de dois dedos de largura.
As expressões de surpresa e desconfiança pairavam por todos os rostos. Mas um deles reflectia com rudeza um olhar que preocupou Jamie. Compreendeu que tinham vindo parar a um mundo sem leis e sem justiça. Agora, a luta pela sobrevivência era mais do que real.
Com o olhar entre a ponta da espada que se mantinha imóvel e no homem que a segurava, Jamie acordou depressa as amigas. A surpresa das duas só aumentou o cuidado daqueles homens. Levantando as mãos, Jamie pediu calma e mostrou que não queriam ripostar.
O homem que segurava a espada em direcção a Jamie Mills foi o primeiro a falar.
Quem são vocês? De onde fugiram? - Vendo que estavam com receio de falar, acrescentou: - Não são escravas... Não são destas redondezas... Já repararam nos cabelos? Negros...
- Devemos recear, Dave. Conhecemos alguém assim. - sussurrou o mais novo. - Não terão vindo de lá?
- Não me parece. Não me lembro de ver mulheres assim em Nastro. Não há mulheres assim aqui.. - Sem tirar os olhos de Jamie perguntou aproximando mais a ponta da espada: - Falem!! De onde surgiram? De que terra vêm? - E a ponta tocou perigosamente na pele da rapariga obrigando-a a uma expressão de dor no rosto.
- Se desviar a ponta da espada do meu peito, eu falarei melhor. Por favor... - pediu Jamie sem demonstrar o medo que sentia de todos aqueles homens armados e rudes. - Obrigada. - Agradeceu após ter sido desviada um pouco. - O meu nome é Jamie Mills, ela é Kate Donan e ela Muriel Walters. Não sei como explicar... Se eu explicasse porque é que nos encontramos aqui e porque razão não podemos voltar para onde viemos, não acreditariam. Por isso, é completamente impossível informá-lo sobre a nossa origem por falta de alguns dados necessários ao seu entendimento. - A ponta da espada tocou de novo a pele ameaçadoramente. - Portanto... façam de nós o que quiserem.
- Sim. - acrescentou Kate abraçada a Jamie.
- Não querias gente, pois aqui estão eles, em carne e osso. - sussurou Jamie.
- Só imaginava este tipo de gente nas histórias medievais que lia em pequena...
- Eles não são um sonho, são a realidade, a nossa actual realidade. - murmurou Muriel.
- Parem de falar! Estão a lançar-nos algum feitiço?
- Não somos feiticeiras. Desconhecemos tais segredos. Apenas estávamos a comentar a nossa surpresa por perceber que existem pessoas neste lugar, nada mais.
- Não são mesmo daqui. Falam de um modo estranho. Reparem nas roupas e no aspecto. O que fazemos com elas, Dave? - perguntou o que segurava a espada em direcção a Muriel.
Depois de as observar bem de novo, o que segurava a espada em driracção a Jamie deu as ordens.
- Levamo-las para a cidade como escravas. Possuem um bom corpo para os trabalhos de Semy. Parecem ter muita força e podem render-nos um bom dinheiro. Lá saberemos muito mais sobre elas. Levem-nas!!
- Certo! Estamos fatigados da caçada. Levantem-se depressa! Depressa! - ordenou o homem situado frente a Muriel, fazendo o gesto de subir com a espada, sinal que todas elas compreenderam e respeitaram sem demora.
Com brusquidão, ataram as pernas e pulsos com força e colocaram-nas atravessadas de barriga para baixo, junto ao pescoço dos cavalos com a caça. Jamie fez uma careta assim que reparou no veado cheio de sangue que ficara a seu lado. Kate chorou ao se ver no meio de peças de caça. Ela era a mais medrosa de todas e estava cheia de medo. Jamie tentou acalmá-la mas já estava longe e Kate não a ouviu.
Tinham sido também caçadas, caçadas para um destino que desconheciam. O desconhecido era mesmo o que as esperaria nos dias seguintes. E num andamento veloz, os cavalos iniciaram o percurso do novo caminho. Enquanto cavalgavam através de um vale florido, Jamie pensou lá bem para consigo: "Viemos parar ao tempo dos cavaleiros medievais... só que estes não devem salvar damas em perigo. Para onde é que nos irão levar? O que nos irá acontecer?... Maldito sejas, John Shaw! Maldito sejas! Onde quer que estejas.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Arco-íris

Os pés permaneciam pousados no braço do sofá ao mesmo tempo que a cabeça dormia uma sesta descansada. As mãos sossegadas no peito, subiam e desciam no movimento do respirar tranquilo da fada.
Os caracóis dos cabelos levantaram-se repentinamente quando as batidas fortes na madeira acordaram a fada dorminhoca.
Bateu as asas, abriu a porta e encontrou uma figura rechonchuda, de cabelos compridos que faziam uma única onda e com um chapéu pontiagudo colorido. Os olhos muito pequenos brilhavam tristes.
- Boa tarde! Disseram-me que és a pessoa ideal para resolver o meu problema.
A fada sorriu e batendo as asas puxou-o pela mão encaminhando-o para dentro da sua casa.
- E no que posso eu ajudar?
A figura sorriu e foi então que mostrou os dentes cheios de cor. Porém, dos 7 dentes, apenas cinco se encontravam no lugar. Saltavam ao olhar os dois buracos vazios.
A fada levantou os sobrolhos e quando ia para falar foi interrompida.
- Eu sei que o meu sorriso agora assusta... Deixa que me apresente. Sou o Arco-Íris.
- Ohhh! - exclamou a fada levantando ainda mais os sobrolhos. - Agora recordaste-me que não te vejo no céu há muitos dias... Mas o que se passa?
O Arco-Íris baixou a cabeça e suspirou. Levantou de novo o olhar e explicou:
- Pois é verdade. Eu bem me esforço mas não consigo. - E suspirou de novo ao mesmo tempo que a ponta do chapéu murchava acompanhando a angústia do seu dono. - Desde que os dois dentes foram embora que nunca mais consegui falar com o meu amor.
- Falar? Não entendi.
- Eu sou o Arco-Íris e é nas minhas cores, com que pinto o céu, que falo com o meu amor que está longe. É assim que digo o quanto tenho saudades dela desafiando o azul do céu só para lhe mandar o meu amor.
- Então... mas não é um pote de ouro que está no fim do arco-íris?
- Nahh! Isso é lá para os reinos do norte. Aqui, o pote de ouro é o meu amor, sempre ansiosa por saber notícias minhas.
A fada sentou-se no chão e disse:
- Estou deveras baralhada.
- Eu explico melhor. Sempre que sorrio, as cores dos meus dentes elevam-se no céu e encontram o seu caminho para o meu amor levando-lhe o que tenho de mais precioso. Mas desde que a cor vermelha e a cor verde fugiram que nunca mais consegui que as cores chegassem até ela. Perdem força pelo caminho e desvanecem-se...
A fada mostrou o seu rosto triste e as asas baixaram tocando o chão.
- O vermelho e o verde fugiram porque queriam brilhar sozinhos nos céus mas ninguém lhes liga... E eu não posso continuar desdentado. Assim, deste modo, vou morrendo...
- Não pode ser! - resmungou a fada levantando-se. - Não pode ser!! O arco-íris nasce de um trabalho de equipa e não de duas cores vaidosas!! É a força da união que encanta os céus no seu arco brilhante e belo e nos maravilha a todos! Cada cor tem a sua importância mas são juntas que fazem a magia!
E a varinha mágica da Paciência começou a agitar-se no cinto da fada onde repousava. Esta, sorriu e rodopiou no ar mexendo alegremente as asas esguias.
- Precisas de ganhar novas cores mais vantajosas e amigas. Ora bem... sorri para mim por favor.
O Arco-Íris sorriu sem saber muito bem o que aquela fada algo estranha lhe iria fazer. Ela pegou na varinha e começou a tocar em cada dente: laranja, amarelo, azul, azul claro e violeta. Todavia continuavam na mesma os cinco dentes e não os sete correctos e necessários.
- Não aconteceu nada. - disse o Arco-Íris algo desapontado.
A fada pegou na sua mão e levou-o para fora da casa.
- Sorri! Vá, sorri!
O Arco-Íris, não muito convencido que resultasse, sorriu.
Um belo, completo e possante arco colorido começou a desenhar-se no céu: os sete dentes brilhavam no seu esplendor deixando todos maravilhados.
A fada piscou o olho, virou-se, guardou a varinha mágica no cinto e dando-lhe umas festas regressou a casa.
Com o reflexo das cores que reinavam no céu a entrarem pela janela, voltou à sua sesta.



(resposta a um desafio com o tema 'arco-íris')



quarta-feira, 16 de junho de 2010

Gravity

(sugiro ouvir a música enquanto se lê o texto ;-)


No silêncio do espaço uma figura esguia flutua, suavemente na sua calma.
O escuro deixa mostrar os contornos de um corpo nu quando passa perto de uma estrela.
De repente, abro os olhos como que recebendo um comando para despertar.
Estico, devagar e num bailado, os braços e os dedos como se quisesse tocar a estrela que me saúda.
Rodo ligeiramente o corpo, encolho uma perna, levanto o olhar e vejo aquele planeta.
Fecho os olhos e prossigo o meu caminho sabendo muito bem para onde ir.
Flutuo... como que ao som de uma música que ambos conhecemos.
Contorno o rochedo acastanhado e a sua luz revela, sem qualquer pudor, os meus seios chamando por ti.
Empurro suavemente o planeta e vejo-te flutuando ao meu encontro.
Esticas a mão e desenhas nos músculos do braço a força para me chocares contra ti.
A luz aquece a pele despida no toque dos dois corpos que a chama desperta.
Flutuando de braços, pernas e lábios entrelaçados, os corpos continuam a viagem no espaço rodando muito... muito... devagar banhando-se no silêncio de uma música que não conseguimos parar de ouvir.
A guitarra implora para explorarmos os nossos próprios cosmos desnudados.
Estico-me para trás e o meu rosto encanta-se num sorriso que tu tratas de aumentar com os teus beijos e carícias.
Agarro-me em delírio aos anéis de Saturno e deixo que me conquistes com o egoísmo do teu desejo contido no tormento das saudades.
Mas é a gravidade de outro planeta que nos puxa...
Navegamos sem pressas e nem nos importamos com a gravidade que nos puxa para a Terra.
Rodamos, quase parados, numa dança de toques e movimentos que origina gotas de prazer que se perdem no espaço silencioso.
Para nós, a guitarra continua a comandar-nos.
Em êxtase entramos na atmosfera numa combustão de chamas que não nos faz parar, mas sim empurrar para o limite, os corpos no jogo da lascívia que há tanto ansiávamos.
E assim, em gritos surdos que só nós dois sabemos largar, caímos no céu.
Rodamos, apertamo-nos ainda mais e esperamos o impacto.
Delicadamente.... muito, muito delicadamente... pousamos na cama.
Arqueio as costas para lançar um último suspiro e tu rouba-lo num beijo que nos funde novamente.
A música termina e nós acordamos olhando um para o outro.
Foi um sonho ou foi a nossa realidade?

(Este texto foi inspirado com esta canção)

Gravity de John Mayer

terça-feira, 15 de junho de 2010

Seca

Sinto-me seca de palavras.
Não consigo escrever as histórias que tenho na cabeça.
Perdi a minha querida inspiração.
Porque será?
Porque me fizeste perder a inspiração?
Preciso que a alma acorde de novo.
Sinto-me morta por dentro sem a vida da minha escrita.
Tenho os enredos sentados no chão do corredor, desarrumado e exausto, em que se tornou a minha alma.
Desanimada
desalinhada,
desnudada,
desacreditada
desmaiada.
Olham para mim culpando-me por não saírem da mente.
E eu não sei o que fazer mais.
Choro por dentro,
tremo por dentro,
adormeço por dentro,
sangro por dentro.
A minha alma precisa de razões para despertar.
Olho para o céu, vejo as estrelas e suplico por um propósito.
Arranca-me este vazio que me está a consumir.
Não me deixes arrastar em agonia.
Assim morro.
E ainda agora nasci...

domingo, 13 de junho de 2010

Someone like you

Esta canção não é nova mas não me sai da cabeça. As palavras que ele canta falam por mim...


Van Morrison: Someone like you

sábado, 12 de junho de 2010

Foto 0012

Que procuro eu em mim que não encontro?
Que encontro eu em mim que não quero ter?
Porque não te encontras em mim como te quero ter?

quarta-feira, 9 de junho de 2010

As minhas lágrimas percorrem o caminho

As minhas lágrimas percorrem o caminho vazio da minha cama,
caminho que me desespera da tua ausência.
Pele, quente e suor que percorre o meu nu,
quando nos tocarmos finalmente.
Agitas-me como a seara que dança,
deixando-me fresca de calor na volúpia da saudade.
Quero beijar e saciar com os meus lábios
o teu mar despido.
Despojo-me de cercas e muros,
porque só te desejo dentro do meu castelo.
Acorrenta-me e liberta-me.
Cria-me,
fio a fio,
no tricotar do erotismo com que me possuis.
Conforta-me,
porque fazes sentido na minha vida.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Sentes-te pronto?

Sentes-te pronto para correres se te fugir?
Estarás pronto para o depois ou apenas para o mero instante?
Sentes-te pronto para seres apenas o que escondes ou para seres o que eu sei que és?
É como se sempre soubesse o que nego saber.
Estarei pronta para me deixar ir?
Estarei pronta para conter o meu respirar sem que me perca de vida?
Estarei eu pronta para confessar o teu nome?
Não tenho medo do que já sei,
do que reparei sem querer reparar.
Estarás pronto para ti mesmo?
Sentes-te pronto para o que sempre sonhaste mas que sempre receaste?
Não quero mentir,
mas sinto-me atada por ti.
Grito alto para conheceres o meu segredo.
Estarás pronto para o ouvir?
Porque me deixaste gritar?
Queres ver-me em desespero por ti?
Chegou o momento.
Deixa de pensar que ainda não chegou a altura porque posso partir ainda hoje.
Pensas que se te tornas difícil que o meu amor por ti aumenta?
Posso,
num instante,
tapar a nascente da minha atenção e deixar-te a secar de saudades.
Estarás pronto a beijar-me ou apenas jogas com ameaças?
Pergunto..
e saberás tu beijar?
Beijar como se fosse o último beijo que podes dar?
Sentes-te pronto para envelhecer comigo?
Sentes-te pronto para contar os minutos que nos faltam usando os meus dedos?
Sentes-te preparado para respirar os pequenos nadas comigo?
Não estejas pronto para seres outra pessoa porque não é essa que está acorrentada aos meus pensamentos.
Dá-me razões para acreditar que estás pronto.
Será desta que vamos trocar altares de devoção?
E conseguirei suportar se me responderes que estás pronto?
Não irei depois enlouquecer porque me vou entregar?
Só sei existir se estiver pronta para amar.
Estarei eu pronta para os teus alicerces na minha alma e corpo?
Não me envergonho dos meus desabafos.
Envergonhava-me sim se os escondesse para não conheceres a minha fraqueza, a minha necessidade de ti.
Sentes-te pronto para me erotizares a mente?
O erotismo da mente é bem mais intenso que a do corpo. Perdura...
Sentes-te pronto para ambos ganharmos?
Não te procuro, não sei te procurar porque simplesmente te encontrei.
Estou pronta para te acarinhar com as palavras.
Sentes-te pronto para me fazeres acreditar quando eu já deixei de acreditar?

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Semy (Capitulo 005)

(Capítulos anteriores: 001, 002, 003, 004)

CAPITULO 5

Felizmente as três jovens não tinham morrido, mas depararam-se com um mundo totalmente desconhecido.
O lugar era, em muitos aspectos, semelhante a algumas paisagens da Terra. Do alto de um rochedo, Jamie, Muriel e Kate observaram o território. Longos campos verdes, lagos de água límpida e flores, variadas flores silvestres, faziam parte do muito existente naquele sítio. Até parecia que não tinham abandonado o seu belo planeta azul. Contudo, o que mais queriam ver não lhes aparecia no horizonte. Não existia um único sinal de vida humana. Era como se tivessem chegado a um lugar virgem, pronto a ser habitado e vivido.
Iniciaram a sua caminhada sobre o calor da estrela que iluminava o mundo desconhecido. Para elas, aquela estrela seria o já saudoso Sol.
A sensação de sede e de fome começava a assolar sem piedade. Perante uma solidão imposta, era o que mais as preocupava. Tudo parecia puro, mas, e se não o fosse? Se não encontraram a morte na viagem, o envenenamento poderia ser o modo rápido de a verem pela frente.
- Gostaria tanto de saber para onde é que aquele filho da mãe nos mandou. - comentou Jamie enquanto caminhavam pelo meio de um campo de papoilas em direcção a um grupo de grandes árvores. - Tenho a ligeira sensação de que nunca mais veremos um carro na nossa vida e é se existem humanos neste lugar. Já sei que vão dizer que sou a pessimista mas desta vez tenho razão.
Muriel baixou o rosto perdido de medo.
- Acredito que deve haver alguém por aqui. Nunca se sabe. Em todos os lugares existem grandes áreas sem sinal de gente. Vou dar-te um exemplo: as grandes pradarias ou o Grand Canyon. - lembrou Kate a limpar o suor do pescoço. - Não é? E há pessoas...
- Sim, sim, e nós estamos no oceano Atlântico, no centro da civilização do Triângulo das Bermudas, portanto, num outro mundo. Assim já estou mais tranquila. - gracejou Jamie olhando para o céu.
- Estava a falar a sério, não precisas de ser irónica comigo. Não fui eu quem decidiu ir trabalhar para aquele homem. - resmungou Kate.
- Eu sabia que um dia irias acusar-me disso!
- Parem! Todas nós somos culpadas. Todas nós aceitámos e até gostámos de trabalhar com ele. Nunca imaginámos que John fosse um cientista tão louco ao ponto de nos sacrificar numa viagem sem regresso a um mundo misterioso que nem ele próprio sabia o que era. Conseguiremos sobreviver, estou certa. Possuímos força nos braços e inteligência suficiente para lutarmos contra os possíveis perigos existentes aqui. Aprenderemos a caçar, a construir abrigos...
- Ohh que giro... - murmurou Jamie fazendo uma careta.
- Acima de tudo, não poderemos desistir.
- Desculpa, Jamie, a Muriel tem toda a razão. Precisamos de unir forças. Estou a ficar com fome. Já passou quase um dia e ainda não comemos nada. Só andámos. Andámos. Estou estafada!
- Até agora só encontrámos árvores com flores e nada de frutos. Chegámos numa má altura. - acrescentou Muriel.
- Não morremos durante a viagem, mas vamos morrer de fome. Parece-me que neste lugar a duração de um dia é igual ao da Terra. É muito possível que não tenhamos abandonado o planeta... ou então, estamos mesmo numa outra dimensão semelhante aquela onde sempre vivemos. Bhah! É melhor esquecer tudo isso. Vamos descansar durante a noite debaixo desta árvore. Veremos o que nos reserva o dia de amanhã. Por hoje, já chega de tanto caminhar.
- Ainda bem que não está frio. - afirmou Kate.
- Também não está calor.
- Tu raramente sentes calor, Jamie. És a maior friorenta que eu conheço.
- Boa noite, para vocês. - desejou Muriel deitando-se sobre a vegetação macia do chão.
Devido ao cansaço, adormeceram rapidamente. Apertadas umas contra as outras, aqueciam-se mutuamente. Nenhuma parecia recordar-se do lugar onde permaneciam. Em sonhos, tinham voltado à sua querida casa, aquela que nunca mais veriam.
No outro dia quando acordaram bem cedo, depararam com algo que não estava nos seus planos e muito para além da sua imaginação.
Jamie foi a primeira a despertar. Espreguiçou-se e quando abriu os olhos, viu a ponta de uma espada. Foi então que reparou pelo canto do olho, que não era somente ela quem tinha aquele objecto junto ao peito. Olhou para cima, e observou os donos das espadas.

sábado, 5 de junho de 2010

Semy (Capitulo 004)

(Capítulos anteriores: 001, 002, 003)

CAPITULO 4

O resto do dia tinha sido aproveitado pelas jovens para uma visita rápida a algumas lojas e algumas visitas a amigos. Quando regressaram à mansão, não encontraram o cientista em nenhuma parte da casa, incluindo o laboratório. Prontamente, Kate, foi ver se John andava pelas traseiras do edifício a tratar das suas plantas e flores. De facto, o cientista encontrava-se agachado a mexer em algumas das mais fracas acabadas de despontar. Oferecendo uma bela rosa cor púrpura a Kate, John pediu que todas se dirigissem para o laboratório e, uma vez lá, esperassem por ele. E as três assim fizeram.
Minutos depois, o cientista apareceu com um ramo de folhas verdes.
- Ainda bem que voltaram mais cedo. Vou preparar uma deliciosa infusão destas folhas. Um velho chá da minha família. Segredos que passam de geração em geração. Delicioso...
- Chá?! Adoro chá, - exclamou Kate. - e agora calha mesmo bem. Vou preparar a mesa lá em cima.
- Não. Não é necessário. Ficamos por aqui.
- Mas porquê? - inquiriu Jamie.
- Existe um pequeno fogão que serve perfeitamente para aquecer a água necessária à infusão. Para quê desarrumar a cozinha por apenas um pouco de líquido transparente? Sentem-se nessas cadeiras. Acabei de as construir ontem à noite. O que pensam? Confortáveis? Digam-me sinceramente. Necessito da vossa opinião. É importante para mim.
- Muito confortáveis. Adaptam-se perfeitamente ao corpo. - respondeu Muriel quando já se encontravam sentadas nas cadeiras. - São mesmo confortáveis... nem apetece sair daqui.
- Jóia! - exclamou Kate a sorrir.
Dizendo que ia buscar a chaleira à cozinha, John Shaw saiu do laboratório.
Logo após a saída, as luzes daquela sala apagaram-se ao mesmo tempo que a porta se fechou sozinha com rapidez o que produziu um forte som de embate. Simultaneamente, as jovens sentiram que algo as prendeu às cadeiras. Escassos segundos depois, acendeu-se uma luz à sua frente. A parede! A parede direita do laboratório tinha desaparecido e dado lugar a uma cabina à prova de som e de ar. Cabina essa, ocupada por John Shaw que, concentrado, mexia em várias componentes dos muitos aparelhos que existiam à sua volta. Foi então que repararam que se encontravam realmente presas às cadeiras pelos pulsos e pelas pernas por grossas braçadeiras de metal. Tentaram libertar-se mas nada conseguiram, a não ser dores que as fizeram adiar nova tentativa.
- Mas o que é isto??? Porque é que estamos aqui presas? - perguntou Jamie ao mesmo tempo que procurava tirar as mãos das braçadeiras. - Se isto é uma brincadeira está a ir longe demais!
- É escusado tentarem uma possível fuga. Essas cadeiras foram construídas à vossa medida. Com o auxílio precioso de todas, eu consegui inventar um aparelho fantástico. - interveio John que as ouvia através de um microfone instalado perto do local onde se mantinham presas.
O cientista mexeu, mais uma vez, nos aparelhos que o rodeavam e surgiu uma espécie de chaminé bem por cima da cabeça de cada uma.
Jamie tentou uma vez mais soltar-se mas nada conseguiu.
- Encontram-se presas porque vão ser os primeiros seres humanos a experimentar a minha maravilhosa invenção. Se não tivesse preparado tudo isto assim na perfeição, de certeza que nunca aceitariam o lugar de cobaias de livre e espontânea vontade. Gostei deveras de trabalhar convosco. Mas agora vão viajar para um novo mundo. Um mundo num outro tempo, numa outra dimensão. Já pensaram no momento que irão viver? Serem as únicas? Oh... como gostaria de estar no vosso lugar.
- E porque não o faz?
- Boa tentativa, Jamie. Mas dispenso a ironia. - disse Shaw sorrindo. - Como se sentem? Nervosas, muito nervosas estou a verificar pelos meus sensores. Calma, não lhes vai acontecer nada de preocupante. Apenas irão para um lugar desconhecido, nada mais.
- Que loucura! Isto não pode estar a acontecer... - murmurou Kate. - Eu devo estar a viver um pesadelo, um daqueles bem horríveis.
- Tire-nos imediatamente daqui!!
- Ohhhh sim, cara Jamie, é para já! Muitas felicidades, caras amigas.
- Espere! Não nos faça mal. Vamos conversar. - pediu Muriel nervosa. - Porquê nós? Porque não experimenta com animais?
- Animais não me oferecem o prazer que necessito. Porquê vocês? Não sei... Talvez porque acabei por amá-las como um pai. Nunca tive filhos, sabiam? E além de tudo isso, revelaram uma personalidade interessante. - Parou pensativo e depois prosseguiu: - Alguém tinha de ser. Prefiro que seja um trio brilhante do que alguém desprovido de qualquer tipo de inteligência verdadeiramente louvável. Nunca conheci três mulheres mais encantadoras. Confesso. Conheci o amor tarde demais para o viver. Não voltarão a este mundo... Talvez até seja melhor para vós. Já pensaram para onde as vou mandar? Para um mundo livre de maldade, ódio, guerra... vão conhecer a verdadeira felicidade. vejam como uma prenda que vos dou.
- Pare!! Não sabe o que está a fazer! - gritou Jamie desesperada. - Tire-nos daqui!! Louco!!
- Minhas caras amigas... Adeus.
E começou a ligar a estranha máquina que tinha à frente. Da chaminé de metal, surgiram luzes que mudaram de cor, até que libertou um poderoso e luminoso raio vermelho.
- NÃO!! - gritou Kate a chorar.
Mas já era tarde demais. As três jovens tinham desaparecido do laboratório deixando as cadeiras ao pó.
Com lágrimas nos olhos, mas feliz, John Shaw abandonou a cabina.
- As minhas queridas meninas estão salvas! Estão no paraíso!
Mas quando chegou junto das cadeiras vazias, algo começou a acontecer aos comandos visíveis do laboratório. Rapidamente, regressou à cabina e procurou entre algum fumo e faíscas a origem da avaria. Tanto a máquina principal como os outros aparelhos circundantes, fumegavam ameaçadoramente.
- Meu Deus! Matei-as!! Não pode ser verdade! O que fiz de errado? Eu não queria... Eu não queria a morte... Elas estão mortas... Sou um assassino. - Visivelmente desorientado, passava com as mãos pela cabeça. - O que é que eu vou fazer? Não... Mortas, não... Idiota! Calma! Ninguém poderá acusar-me do seu desaparecimento. Não existem provas. Não existe um corpo para me incriminar...
Vendo que não poderia fazer nada para controlar o seu invento, John saiu do laboratório a correr. Com o suor a cair-lhe pelas faces, marcou o número dos bombeiros nervosamente. Mas não chegou a falar, pois ao escutar uma pequena explosão vinda da cave, largou o telefone partindo-o no chão. Essa seria o aviso para a que viria a seguir.
John Shaw caminhou por entre o forte fumo que já se concentrara no hall, e alcançou a porta. Todavia, não conseguiu escapar da morte. Uma forte explosão irrompeu do interior do laboratório e destruiu por completo o belo edifício de estilo colonial.
Os belos jardins enchiam-se, pouco a pouco, de pedaços incandescentes daquilo que tinha sido a última morada de Jamie Mills, Muriel Walters e Kate Donan.
A casa de John Shaw, assim como o seu próprio dono, tinha deixado de existir.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Shine

Mas uma descoberta musical que me veio parar aos ouvidos...


Laura Izibor - Shine

Wake up one morning you realize
Your life is one big compromise
Stuck in the job you swore was only temporary
Feel like the world is passing you by
Never done all the things you would need to try
Stuck in one place, got a pain in your face from all your stressin’ out
You ask yourself there’s got to be more than what I’m living for
You ask yourself there’s got to be something else, something more, more, more
Well let the sun shine on your face
And don’t let your life go to waste

Now is the time, got to make up your mind
Let it shine on you, let it shine on you
Feel like there’s nothing nowhere to go
You try and fight but you can’t let go
Roll the pain, got so much to gain
Now is the time
You ask yourself there’s got to be something else, something more, more, more
Well let the sun shine on your face
And don’t let your life go to waste
Now is the time, got to make up your mind
Let it shine on you, let it shine on you
You ask yourself there’s got to be more than what I’m living for
You ask yourself there’s got to be something else, something more, more, more
Well let the sun shine on your face
And don’t let your life go to waste
Now is the time, got to make up your mind
Let it shine on you, let it shine on you
Well let the sun shine on your face
And don’t let your life go to waste
Now is the time, got to make up your mind
Let it shine on you, let it shine on you
Well let the sun shine on your face
And don’t let your life go to waste
Now is the time, got to make up your mind
Let it shine on you, let it shine on you

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Apetece-me, realmente, apetece-me

Apetece-me rasgar a vida ao meio e atirar uma parte para o fundo do poço.
Apetece-me dizer que não sou apenas um corpo para desejar mas uma alma para amar.
Apetece-me cimentar o meu coração para que pare de se dar ao desperdício.
Apetece-me parar de saber o porquê de certas coisas que não consigo compreender e que o tempo insiste em não me mostrar.
Apetece-me desaparecer e só aparecer quando me encontrar novamente porque estou perdida e sem rumo.
Apetece-me matar definitivamente a solidão imposta e deixar apenas a solidão necessária.
Apetece-me ser quem não pensa para assim libertar a mente do que me perturba.
Apetece-me selar os olhos porque só assim paro de largar lágrimas.
Apetece-me levar-te para o sol para que te queimes pelo que me fazes esperar.
Apetece-me perguntar-te tudo de novo mesmo já conhecendo a tua resposta mas esperando que desta vez ela seja diferente.
Apetece-me arrancar a cortina para que possas ver os contornos do meu corpo que te quer amar.
Apetece-me escavar para procurar o coração que escondeste.
Apetece-me ter-te agora e não quando o tempo quiser.
Apetece-me ignorar-te para que me vejas finalmente.
Apetece-me colar-te na parede e deixar-te lá até te cansares de me provocar sem nada dizeres.
Apetece-me ir para além do tempo para viver contigo uma outra vida.
Apetece-me escancarar a porta que insistes em deixar entreaberta e escura para que deixe entrar a luz para te cegar de mim.
Apetece-me, sim, apetece-me...

terça-feira, 1 de junho de 2010

Semy (Capitulo 003)

(Capítulos anteriores: 001, 002)

CAPITULO 3

Os dias passavam e as três jovens apreciavam cada vez mais as suas pequenas e grandes tarefas. Apesar de um certo mistério inicial, dia a dia, aumentava a simpatia para com o patrão. Residia agora entre todos, a confiança necessária para um ambiente de bem estar na mansão Shaw. Apenas um pormenor continuava a intrigar Jamie Mills. Possuía conhecimentos suficientes de química para compreender que certas experiências de John eram extremamente perigosas e enigmáticas. Resistia uma grande dúvida relacionada com a sua finalidade. Shaw nunca lhes informara concretamente sobre o motivo dos seus estudos. Era o grande segredo, o único que mantinha fechado a sete chaves. O entusiasmo em conhecer os resultados, talvez até o resultado final, era tão poderoso que o levava a passar noites seguidas no interior do laboratório, na cave.
E foi numa dessas noites que as amigas acordaram ao som da sua voz, um grito de felicidade.
Juntaram-se frente à porta do quarto de Kate, e comentaram:
- Ele gritou: "Descobri". O que será que descobriu? - perguntou Kate aproximando-se do corrimão. - Estou com uma vontade de lá ir abaixo...
- Não podes!! - lembrou Muriel com uma vontade de fazer o mesmo.
- Não sabemos e creio que nunca o viremos a saber. O único facto que sei é que acordou-nos e deixou-nos demasiadamente curiosas para voltarmos a dormir. Vamos lá abaixo! Já é tempo de descobrirmos a origem de tanto esforço e estudo.
- Não podemos Jamie!! Já sabes que...
- Kate, eu vou lá abaixo.
- Esperem! - pediu Muriel a correr para o seu quarto. - Ao menos deixem-me vestir o robe!
Com as pernas agitadas ao máximo, desceram as enormes escadas que terminavam no hall. Silenciosamente, continuaram o caminho, desta vez, descendo até à cave utilizando os degraus bem por baixo da escadaria que ligava os dois andares do edifício. Chegaram à porta do laboratório para logo verificarem que se encontrava fechada. Jamie reparou que estava trancada por dentro.
Desapontadas, regressaram aos quartos. Durante o resto da noite, nenhuma delas conseguiu dormir, sempre na esperança de descobrirem o segredo do cientista.
No dia seguinte, tiveram de disfarçar o seu sono, não fosse John ficar desconfiado e então seria muito pior para todas. Num momento do seu descanso, indo ele repousar para o quarto, Jamie, Muriel e Kate desceram rapidamente até à cave convictas de que iriam, finalmente, descobrir algo que lhes revelasse o mistério. Porém, quando lá chegaram, o único pormenor diferente era a existência de três cadeiras pregadas na parede esquerda do laboratório.
- Para que será isto? - inquiriu Kate.
- Não faço a mínima ideia. - afirmou Jamie a observar as cadeiras com interesse. - Penso que ainda não é o produto acabado. São cadeiras normais... quase normais... Não estou a gostar disto, nada mesmo...
- Ele vem aí! - avisou Muriel afastando-se da entrada do laboratório. - O que fazemos? O que lhe vamos dizer?
- Kate, pega no pano, Muriel, tu na vassoura. Eu vou começar a lavar o chão.
Sem sinal visível de surpresa ou de preocupação pela presença das colaboradoras naquele local, John entrou muito calmamente no laboratório.
- Começaram bem cedo as vossas tarefas. Tiveram uma boa noite de sono?
- Dormimos como pedras. Acordámos cheias de energia. - respondeu Muriel continuando a varrer. - Se quiseres vir para aqui Jamie, já podes lavar este bocado.
- Sim, já me tinham dito. Peço perdão pelo esquecimento. São os anos de estudo e pesquisa que fazem algumas feridas na mente frágil e complexa do ser humano. Ainda bem que se encontram a limpar toda esta sujidade. Deixei tudo emporcalhado com o meu trabalho. Peço, uma vez mais, perdão pelo descuido. Se quiserem, poderão sair hoje. Têm o resto do dia livre. Apareçam só ao jantar.
- E quem fará o jantar?
- Não se preocupe, Muriel. Eu mesmo tratarei da alimentação referente à terceira refeição do dia.
- Óptimo! Os seus cozinhados são sempre uma delícia.
- Obrigado, Jamie. Podem ir, podem ir. Escusam de gastar energias a limparem o laboratório assim tão bem. Dentro de momentos, irei sujá-lo um pouco mais.
- Precisa de descansar. Não tem dormido o suficiente.
Shaw levantou-lhe um olhar satisfeito e a sorrir disse:
- Não agora, Kate. Presentemente não é o momento ideal para pausar os meus estudos e experiências. O trabalho tem de prosseguir seguindo uma ordem determinada. Para se atingir os resultados esperados, é preciso dar o nosso melhor esforço. As ideias concretizam-se assim. Por muito que as histórias populares afirmem que Newton descobriu a gravidade quando uma maçã lhe caiu na cabeça enquanto repousava debaixo de uma árvore, são apenas versões simples de uma vida de dedicação. O verdadeiro esforço nunca interessa ao comum dos mortais. A ele, somente é importante o resultado, não o seu longo caminho de pesquisa.
- Então até mais logo. - responderam todas quase simultaneamente.
Levando consigo todos os objectos de limpeza, o trio abandonou o laboratório.
Mal saíram, a cara de John Shaw sofreu uma clara e rápida mudança de expressão. Dos seus olhos sinceros, nasceram olhares estranhos, e do canto da boca, um sorriso malicioso completava o aspecto puramente desconcertante. Aumentou o sorriso e falou para si próprio:
- Já caíram na armadilha. Finalmente vou ter a minha glória! Finalmente!... - e soltou uma breve gargalhada.