quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Semy (Capitulo 036)

(Capítulos anteriores: 001, 002, 003, 004, 005, 006, 007, 008, 009, 010, 011, 012, 013, 014, 015, 016, 017, 018, 019, 020, 021, 022, 023, 024, 025, 026, 027, 028, 029, 030, 031, 032, 033, 034, 035)


CAPITULO 36

Numa pequena e derradeira carta, Wise Sage redigiu o seu último desejo.
Reunidos na sua cabana, os Elmer, suas noivas e Lann, escutaram atentamente a leitura de Jullien.
As exéquias fúnebres realizaram-se sem grandes aparatos tal como pedido. No centro do pátio, todos os habitantes assistiram ao nascimento das suas cinzas. De todos que olhavam para aquela grande fogueira, Dave e Jamie eram os mais nostálgicos. A sua tristeza era profunda. Jamie sentia-se estranha e as últimas palavras do sábio não lhe saíram da cabeça. Mas como Wise Sage pedira, a alegria não podia morrer. As suas cinzas foram cuidadosamente depositadas numa sala existente por baixo do castelo. Era o local onde se encontravam os potes que continham os pequenos e finos restos mortais de todos os antigos sábios e governadores de Semy, assim como outros familiares dos Elmer. Foi a primeira vez que as três tomaram conhecimento da existência de tal câmara.
Assim, três dias depois, a cerimónia dos casamentos foi efectuada. Quem as concretizou foi Jullien, o novo sábio e feiticeiro de Semy. Possuidor de todo o poder e sabedoria de seu tio, Jullien iniciou com prazer e dedicação a sua nova tarefa, muito diferente das anteriores. Estava visivelmente nervoso.
Durante os preparativos para aquele dia memorável, ninguém conseguiu deixar de recordar Wise Sage. Na cozinha, lembravam-se das visitas que fazia aquele local de trabalho. Mas era preciso esquecer, porque a vida continuava. Mas todos os acontecimentos dos últimos dias deixaram apreensão e tristeza no olhar. Nunca a maldade de Tolos deixara uma marca tão forte.
As recordações combatiam a saudade.



E a cerimónia começou.
Os noivos teriam de trajar a sua melhor roupa acompanhada do respectivo elmo. Manteriam a viseira do elmo fechada até ficarem oficialmente casados. As noivas, vestiriam um simples vestido claro bordado, decorado com flores naturais, flores essas apanhadas no próprio dia e que também deveriam existir no cabelo. Mas antes de os casais se encontrarem, os noivos lutariam com os melhores e mais bem treinados homens da sua guarda. Seria uma pequena luta sem esforço apenas para provar a destreza. Só depois, elas desceriam dos aposentos e apareceriam no pátio do castelo. Nesse largo, seriam rodeadas pelos noivos que a cavalo andariam durante uns minutos à sua volta. Seguidamente, era só pegar na noiva, colocá-la no cavalo e aproximar-se do sítio onde encontraria o sábio.
Enquanto esperavam que os noivos lutassem no pátio, Jamie, Kate e Muriel conversavam no quarto, já prontas para descerem. Pela janela, observaram o início dos rituais.
- Eu gostaria de ver casamentos destes em Los Angeles. - afirmou Muriel a rir. - Ai que cómico... Pensariam que se tratava de filmagens para algum filme!!
Tinha o seu cabelo preto solto e em volta da orelha e metade do alto da cabeça, um grupo de pequenas e coloridas flores decoravam os cabelos. Atrás, as flores encontravam-se espalhadas pelo longo cabelo escuro.
Todas riram às gargalhadas imaginando o que seria tal cerimónia na dita cidade.
Lann, que se aproximou do quarto, sorriu ao escutar os risos alegres e felizes das jovens mulheres. E a sorrir, saiu do corredor.
- Nunca pensei vir a ter um marido tão formoso. Isto para mim está a ser um sonho... Tirando alguns pesadelos pelo meio. - desabafou Jamie sentada na sua cama. Baixou o rosto e suspirou. - Nunca pensei viver o que estou a viver. Por vezes ainda penso que estou algures num sonho e que vou acordar a qualquer momento...
As flores em Jamie dispunham-se numa coroa no cimo da cabeça, rodeando uma parte do cabelo escuro apanhado lateralmente. Pétalas brancas e azuis entre outras, caíam sobre os restantes cabelos compridos.
- Não vamos recordar tristezas.
- Não são tristezas, Kate, são confusões na minha cabeça e são saudades.
- Já não tenho saudades do meu mundo... Gosto imenso de viver aqui, apesar de tudo. Sou feliz neste lugar... feliz como nunca fui.
Kate trazia flores pequenas reunidas em molhos por cima das orelhas e no alto da cabeça. Muito do seu cabelo castanho era visível.
- Não era dessas saudades que falava.
- Nós sabemos muito bem a quem te referias. - comentou Muriel. - Onde quer que esteja, estará feliz por ver que estamos bem.
- Sim... Mas custa-me não o ter aqui.
- Os habitantes de Semy estão lá em baixo, no pátio. Ele é pequeno para todos... Como estou nervosa... O meu coração bate acelerado. - informou Muriel observando o exterior pela pequena janela aberta. - Suas excelências já acabaram de lutar. Estão a olhar para cá. Maldita viseira que não deixa ver a cara. Eu gostava tanto de ver a de Leo... Ele é tão giro!!!!!!
Devagar, a porta do quarto foi aberta. Muito galante, Lann disse:
- Venham, princesas. Chegou a vossa vez de brilharem.
- Princesas?! Mas que simpático que Lann está connosco. - disse Jamie levantando-se da cama sem deixar de ajeitar o vestido. - Será por o dia ser diferente?
- Desde sempre demonstrei uma franca simpatia por vós.
- Sim, é verdade. - confirmou Kate.
- Sabia que eram diferentes.
Jamie levantou o olhar e sorriu agradecendo.
- Esteve do nosso lado nos momentos mais difíceis.
- E ajudou-nos na adaptação à nova vida. - completou Jamie. - Obrigado.
- Vamos.
Uma por uma, saíam do quarto. Ao fazê-lo, não deixaram de beijar com carinho e respeito o fiel servidor dos Elmer. A pele rosada sobressaiu ainda mais. Lann fechou a porta e com o sorriso nos lábios, acompanhou-as de perto.
Quando chegaram à entrada do castelo foram fortemente aclamadas. Flores e ramos, saltaram de mão em mão e misturaram-se com palavras de saudação saídas da boca da maioria dos habitantes de Semy. Com as caras vermelhas, dirigiram-se para o meio do pátio onde já se encontravam os Elmer em cima dos cavalos, cavalos esses arranjados de acordo com a importância da cerimónia. Cumprindo a tradição, os três homens começaram a cavalgar à volta das recém-chegadas. Esperaram uns segundos e pegaram nelas. Dirigindo-se para o local onde Jullien se mantinha, os irmãos murmuraram ao ouvido das noivas algumas palavras delicadas.
Desmontaram dos cavalos quando chegaram junto ao pequeno estrado situado por baixo dos pés de Jullien e retiraram-nas com suavidade das montadas.
Jullien trajava a rigor. Trazia uma túnica preta até aos pés com motivos em dourado e, na cabeça, um chapéu quadrado, achatado, de idênticas características. Lado a lado, os seis esperaram pelo início da cerimónia. Os olhos verdes claros de Jullien observaram todos em pormenor. Eles brilhavam e sorriam ao mesmo tempo. Respirou fundo e iniciou o seu primeiro grande trabalho.
Estariam casados a partir do momento em que o sábio juntasse as mãos dos noivos e em cima delas colocasse uma grande flor azul.
Pronunciando uma série de palavras incompreensíveis para todos, Jullien abriu os braços e fechou os olhos. Prosseguindo no mesmo tipo de linguagem, colocou uma grande flor azul escura em cima de cada par de mãos. Mal acabou de as colocar, o povo começou a gritar e a agitar ramos e flores. Comemoravam o fim da cerimónia. Dave, Leo e Clive tiraram os elmos e beijaram as suas mulheres.
- Agora têm de retirar uma flor do cabelo e atirar para eles. - indicou Jullien a sorrir. - Isto é, se quiserem.
- Porquê? - inquiriu Muriel curiosa ao tirar uma flor do seu cabelo.
- Não nos disseram nada nesse sentido.
- Significa que autorizam que toda a população de Semy participe e se divirta na festa a seguir à cerimónia dos casamentos. - informou Dave.
- Atiraremos com todo o prazer. - afirmou Jamie lançando juntamente com Muriel e Kate as suas flores para a enorme multidão que assistia à cerimónia.
E a saudação do povo tornou-se enorme.
E assim que desceram do estrado, a festa começou.
Música, alegria, bebida e comida não faltou.
Antes de tudo terminar, Dave e Jamie sentaram-se debaixo da árvore onde ela um dia decidira desenhar. A paisagem estava deslumbrante naquele final de dia. Cada vez mais cores enchiam os campos deixando-os multi-coloridos. Era uma mensagem de tranquilidade, tranquilidade à muito merecida.
- Estás bem? - perguntou Dave espreitando-a de lado.
- Sim.
Dave olhou para o céu e disse:
- Ele falta aqui. Eu sei.
- Sinto-me culpada da sua ausência. Não consigo afastar este sentimento de culpa.
- Não. Não fiques assim. Ele tomou uma decisão. Eu teria feito o mesmo. - Beijou-a na cabeça e acrescentou: - Estamos em paz.
- Sim... - respondeu Jamie estranhamente séria.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Esquinas

São comandados os passos que incerta dou
nas ruas que agitam traços despidos.
Vestem vidas cheias por onde o tempo andou
e ondulam em futuros cegos e floridos.

Esquinas que raspam desejos,
guardando-os na tinta sofrida,
entregam marcas amadas nos peitos
de quem foge simplesmente na ida.

Esquinas onde adormecem seres perdidos
escavando minutos na paciência do dia,
em caminhos imóveis cingidos
que lhes abrem os braços da pura mania.

Esquinas que guardam segredos
das criaturas que passam medrosas,
escondem nas mãos o calor dos dedos
despedaçam rabiscos no passar das horas.

Esquinas onde abertos escondem as almas
as pessoas que correm fúteis,
no avançar das curvas calmas
dos sentimentos vazios e inúteis.

Esquinas que abraçam no quente
quem lhes toca suplicante,
procuram respostas no instante recente
sem se importar na descoberta amante.

Observo assim vidas que desconheço
criando histórias no livro branco.
Perco-me nas palavras, reconheço,
despedaço-me num ténue poder franco.


domingo, 28 de agosto de 2011

Uma pergunta para pensar - 00051

"O que te stressa?"

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Lançamento do meu livro

É com muito orgulho e satisfação que vos anuncio...


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Enches-me


Enches-me a alma.
Enches-me a vida.
Enches-me na calma.
Enches-me na ida.

Enches-me de abraços.
Enches-me de tudo.
Enches-me de traços.
Enches-me do que é puro.

Enches-me de caminhos.
Enches-me de recantos.
Enches-me de carinhos.
Enches-me de espantos.

Enches-me de esperas.
Enches-me de intervalos.
Enches-me de demoras.
Enches-me de embalos.

Enches-me de calor.
Enches-me de prazer.
Enches-me de amor.
Enches-me do fazer.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Infinito mar


É no infinito do mar que olho aqui
que navego o meu sonhar.
Sopras o vento das tempestades
brandas com que, devagar, te guias.
Suavemente como onda cativa
levas-me até ti.
Mar imenso e mar maldito
que me fazes pairar
como uma ave faminta.
Vem amor, sopra-me o horizonte
dá-me a terra para semear.
Amor meu, dá-me do teu soprar
para que eu enfim te possa amar.
Quero banhar tuas rochas,
quero repousar nas tuas areias.
quero respirar teu aroma.
Vento e terra feito homem
que um dia nasceu para me amar.
Iço vela e rumo a ti.
Sei que agora estou segura.
Sigo as ondas sábias do teu refúgio.
Sigo a água bendita que nos uniu.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Someone Like You

Há algum tempo que conheço esta canção, mas só hoje coloquei aqui.
Um dia que esta senhora venha cá, eu vou lá estar para a ouvir.



Adele - ''Someone Like You''

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Novamente

Pergunto-me se valerá o meu tempo
esta entrega novamente.
Questiono-me sem parar
se cairei assim cegamente.

Poderei eu viver sem ti
nesta espera que me gasta,
nesta certeza medonha,
do percurso que não basta.

Imploro pelo juízo final
sábia do seu vazio vão,
ajoelho-me de pé
nesta verdade sem visão.

Não sei mais o que pensar,
nem controlar meu coração,
sou veia suja e negra
que me cobre de razão.

Olho para mim e choro
lágrimas de incógnita extrema,
tenho vontade de quebrar
a dádiva intima suprema.

Oiço o rugido do vento
que acoita o meu cansar,
quero perder as forças
para não tornar a amar.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Semy (Capitulo 035)

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CAPITULO 35

Na sala, Dave enchia o copo uma e outra vez. Encheu-o de novo mas não bebeu até ao fim. Completamente transtornado, atirou-o para a lareira o que originou uma enorme labareda. Ficou por momentos a olhar para a dança das chamas. Não queria crer que estava a passar por aquele pesadelo.
- Dave... devias tratar dessa ferida na mão. - disse Leo abraçado a Muriel que ainda chorava. - Estás a perder muito sangue...
- Quero lá saber da mão!... Já nada me importa.
- De certeza que Jamie não permitiria que ficasses assim com a mão. - declarou Kate entre vários soluços de choro.
- DEIXEM-ME! Deixem-me! Saiam daqui!!! Deixem-me...
- Tens de ser forte. Tens de continuar a viver... - afirmou Clive. - Semy precisa de ti. É como se ela nunca tivesse aparecido em Semy.
- Mas apareceu!!! Nada poderá apagar as minhas recordações! Nada será como dantes. Não tenho mais vontade de viver... Quero desaparecer! - desabafou dando murros na parede da lareira. - Quero desaparecer!!!!
- Não faças isso, Dave.
A voz não era de ninguém presente e para ver de quem se tratava, olharam para a porta. Vendo o rosto surpreso de Leo, Dave virou-se. Era Jamie quem estava na sala mais viva do que nunca.
- Jamie???! Jamie... Estás viva! - exclamou correndo para ela.
- Estou, estou! - disse beijando-o várias vezes.
- Mas como...?
- Dave, escuta!! Wise Sage está a morrer. Ele cedeu a sua vida pela minha. Ele quer falar com todos, mas especialmente contigo. Anda!
- Wise Sage?! Aquele velho tonto! - exclamou ao entrar no quarto a correr levando Jamie atrás.
Os outros quatro seguiram-nos curiosos.
O sábio de olhos verdes encontrava-se deitado na cama no meio de uma grande mancha de sangue. Dave e Leo levantaram-no para que pudesse falar melhor. Já sem forças, o venerável senhor simpático sorriu para todos.
- Meu velho doido... o que fizeste?
- Ofereço-te de volta a felicidade.
- Como é qu...
- Eu nada fiz. Sabia que te iria custar muito... se a perdesses... Já estou velho... Preciso descansar. Necessitava de... dar-vos este... - e respirou fundo - Não... se preocupem porque terão um sábio... e um feiticeiro tal como eu o fui... Os meus... poderes irão para o meu sobrinho... Jullien. Ele está na minha cabana à espera... de... os receber. Será tão bom... ou melhor do que eu...
- Não. - murmurou Jamie entre o deslizar de uma lágrima. - Não queria isto... eu disse... Não me...
- Por favor... perdoem-me. Eu não tive outra escolha... Perdoem-me...
- Perdoar o quê? Não há nada para perdoar, só para agradecer. - respondeu Dave.
- Perdoem-me...
- Não há nada para perdoar. - disse Jamie beijando-o na testa como agradecimento e o velho senhor tornou a sorrir.
- Não tive... escolha...Jamie...
E foi com uma expressão séria que deixou de respirar. Deitaram-no na cama e todos choraram a perda daquele grande amigo.
Da porta, Lann despediu-se do seu fiel amigo. Só mesmo Wise Sage poderia ser o autor de tal gesto. Utilizou todas as suas forças e poder para esta última acção. Terminara a sua vida como queria: a fazer algo de bom para alguém.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Foto 0022

Na perfeição das tuas notas,
toco devagar a minha pauta.
Construo sinfonias que esgotas,
no teu corpo de flauta.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Leito

Despedaço-me na cama
onde roubo as tuas saudades,
jazo imune à vida e vivo a dor da ausência.
Deixo-me consumir pelo amor que não posso dar-te,
traio a razão fechando-a no silêncio.
Cura-nos, meu amor, porque ardo em febre.
Dormito no lençol do meu pesadelo,
cravado de sonhos de esperança,
e grito com o corpo a revolta sentida.
Pendo a mão que segura o coração,
no precipício do leito que um dia foi teu.
Salva-nos, meu amor, porque estou exausta de lutar.
Choro lágrimas de alma negra,
porque as de água de pele desenhada,
já não as consigo criar.
É no infinito que quero repousar,
no sitio onde guardas quem tu és.
Escuta-nos, meu amor, porque vejo-me surda de promessas.
Tomo-me nos braços e só te encontro perdido,
no salto final de liberdade do ninho que nunca achaste teu.
Agarras-te ao meu choro,
seguras-te sequioso aos meus beijos,
para no meu medo fazeres o teu lar.
Respira-nos, meu amor, porque estou estéril de vida.
Encerro-me na tua doença,
aquela que poucos sentem e muitos julgam sofrer.
Alimento-me de palavras
enquanto me purgo do que foste
e do que eu me julguei ser.
Limpa-nos, meu amor, porque estou ferida do que perdemos.
Toco-me para te sentir,
e tu, no leito estranho,
consomes-te do turbilhão do vazio.
Errantes, doentes, ausentes, unimo-nos na mesma cura.
Resgata-nos, meu amor, porque estamos à deriva neste céu de vontades.