segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Semy (Capitulo 025)

(Capítulos anteriores: 001, 002, 003, 004, 005, 006, 007, 008, 009, 010, 011, 012, 013, 014, 015, 016, 017, 018, 019, 020, 021, 022, 023, 024)

CAPITULO 25

Wise Sage apareceu por detrás de uma cortina e viu-a sentada no chão encostada à porta exausta, amedrontada e com um rosto preocupante. Pegou na mão dela e tentou tranquilizá-la.
- Temos de sair daqui! E eu não sei como!! Perdi a espada e não sei...
- A porta já aguentou ataques piores. Calma, Jamie.
Porém, nada a fazia acalmar pois ouvia os gritos e a fúria com que Dan batia na porta. Era pequena e parecia ceder a qualquer momento. Mas na verdade continuava a aguentar. O coração de Jamie ainda bateu mais quando escutou Tolos gritar para os seus guardas ordenando-lhes que incendiassem a cabana.
- Ele está louco!! o que fazemos agora, Wise Sage? O que fazemos? Se sairmos somos mortos de certeza!
- Ele não te vai matar.
- Não tenho essa certeza. Escute-o!!
- Estava no destino ele amar-te também. É incapaz de te fazer mal.
- Wise, por favor, não brinque comigo agora!
- Não estou a brincar. Estou a dizer a verdade.
- O quê? Raios parta o destino! Mas o que se passa neste lugar?? Eu não sou uma mulher linda para andarem a disputar-me, a desejar-me desta maneira! Quero viver a minha vida em paz e não nesta guerra. - replicou dirigindo-se para uma pequena racha existente na cabana de onde se poderia observar o que acontecia no pátio. - Oh não!! Ele já está com o fogo na mão!!
- Podes não ser linda por fora mas por dentro tens uma beleza sem fim. Ele venera a tua diferença, a tua força, a tua mente... os destaques dessa personalidade que eu também respeito e admiro.
- Já não há muitos guardas nossos em acção. - observou Jamie através da racha sem ouvir o que Wise Sage lhe tinha dito. - Os homens de Dan estão também a incendiar os celeiros e casas da população! Não!!!! Estão a bater nas escravas que se defendem com paus, vassouras e cestos. Raios!!! E eu aqui sem poder fazer nada... E tudo por minha causa... Preciso sair deste refúgio e enfrentá-lo! Tenho de sair daqui!! Vou terminar com isto já!
- Cuidado Jamie!
Jamie conseguiu escapar das chamas que um guarda colocara mesmo na zona onde existia o buraco por onde espreitava o exterior. Limpou o suor que escorria pelo rosto e levantou-se.
- Obrigada Wise Sage. Eu tenho de sair daqui!! Não posso permitir que destruam a cidade e a sua casa por minha causa. Basta entregar-me que eles pararão com a luta. É simples.
- NÃO! - interrompeu o sábio aflito. - Casas posso ter quantas eu quiser, mulheres como Jamie Mills, não. - Wise Sage pegou na mão da jovem - Segue-me. Vem, vem... Eu sei o que fazer. Irás sair ilesa e ainda poderás fazer algo pela povoação que tanto gostas. Vem!
Wise Sage levou Jamie até ao fundo da cabana. Abriu as cortinas e mostrou um velho alçapão de madeira junto a uma arca desviada. O sábio estivera a preparar a fuga mal se apercebeu do início da luta de Jamie com Dan. Wise Sage sorriu e abriu-o. Afinal, a arca escondia um buraco escavado no chão.
- Leva isto com cuidado. É muito precioso! - pediu Wise Sage entregando-lhe três grandes livros antigos para os braços. - Esses livros contêm informações fabulosas. Não os quero perder. Não os posso perder, nunca. Representam parte da minha vida e dos que a ela ficarão ligados pela visão.
O velho sábio começou a descer pela escada de madeira que existia no buraco seguido de perto pela jovem mulher. Jamie perguntou-lhe onde ia dar aquela passagem mas Wise Sage não respondeu. Limitou-se a apressá-la. Quando chegaram ao fundo das escadas, o feiticeiro pegou numa tocha que se encontrava colocada na rocha e acendeu-a misteriosamente.
A voz forte de Dan Tolos ouviu-se, arrepiando Jamie.
- Wise Sage, quero sair daqui depressa, por favor!
O feiticeiro pousou a mão no ombro e transmitiu-lhe uma estranha calma. Jamie deixou de sentir o medo que a fazia tremer. Crescia uma vontade vinda do íntimo de defrontar Dan Tolos.
Percorrendo a estreita passagem, os dois caminhavam o mais depressa possível. Muitas foram as vezes que Jamie teve de se baixar pois a sua altura não passava por completo. Em pouco tempo chegaram a uma nova escada. Devagar e apoiado em Jamie, o sábio subiu os vários degraus dispostos verticalmente na parede rochosa e húmida.
Surpreendida, Jamie reparou que tinham ido parar à cozinha do castelo. Os escravos que se encontravam naquele local olharam espantados para os dois quando surgiram de um alçapão num dos cantos da grande sala de trabalho. Ao ter conhecimento da presença de Wise Sage e Jamie, Lann apareceu na cozinha.
- Estava aqui preocupadíssimo com a demora!! A tua cabana está a arder. E o louco espera, a todo o momento, que ela saia de lá. Restam-nos poucos guardas. O pior de tudo é que uma parte de Semy está a arder... e nada poderemos fazer enquanto Tolos não sair daqui. Precisávamos de mais homens experientes. Dan Tolos possui uma boa selecção de guerreiros e são eles que estão a destruir a cidade. Ele planeou muito bem este ataque!
- Mas Dave deixou na cidade alguns dos melhores! - exclamou Jamie.
- São esses que ainda defendem o castelo. Nunca pensámos que Dan Tolos atacasse assim...
- Com aquela fúria, não é?
Lann respondeu afirmativamente com a cabeça.
- Está revoltado comigo. Eu tenho de terminar o que provoquei.
- Jamie, ele é que é o provocador.
- Onde estão Muriel e Kate?
- Estão a salvo dentro do castelo. Encontram-se no cimo da torre principal.
- Vou ter com elas! - declarou Jamie colocando os livros no chão. - Sei de uma maneira de mandar Dan Tolos embora da cidade. - E saiu da cozinha a correr.
- Desculpa ter denunciado a nossa passagem secreta. Era necessário.
- Claro, Wise. Eu calculei que o fizesses. Eu estava à vossa espera. Era a única maneira de escaparem do fogo. Se demorassem, quem os iria buscar era eu!
- Vamos ver o que Jamie está a preparar em relação a Dan...
Jamie apareceu no pátio sem ser vista. Escondeu-se por detrás de cestos e caixas de madeira, pegou num arco e flechas e subiu até ao topo da torre de menagem do castelo.
Uma vez lá, reencontrou as suas amigas e mais alguns escravos e guardas. Surpreendidas e felizes por a verem viva, Muriel e Kate abraçaram-na fortemente. Jamie tranquilizou-as e afirmou que tudo acabaria em breve. Para isso, bastaria um gesto seu. As duas amigas olharam-na intrigadas e abrigaram-se de novo. Enquanto escolhia o melhor sítio para disparar, contou como tinha escapado daquela enorme fogueira que ardia lá em baixo.
Dan Tolos cavalgava como um louco em redor da cabana em chamas sempre na esperança de encontrar Jamie. Desmontou e gritou de desespero. Chorava por Jamie, por a ter perdido depois de um momento de loucura.
No alto da torre, Jamie já tinha escolhido o local ideal. Com muita concentração, pegou no arco, colocou uma flecha e fez pontaria para um dos ombros de Dan. Depois de corrigir a posição largou a corda de cânhamo. Mas no momento em que o fez, Dan mudou de lugar e a flecha foi espetar-se nas costas de um guarda de Tolos.
Olhando para a origem da flecha, Dan Tolos viu Jamie que muito depressa preparava uma outra carga. Vendo que dispararia contra si, o belo Tolos não se protegeu. Virou-se para ela e abrindo os braços, esperou. Jamie hesitou um pouco ao ver a sua reacção. Os olhos encontraram-se numa expressão intrigante. Todavia, Jamie acabou por largar a corda e a flecha enterrou-se no ombro direito.
Fazendo apenas um gesto leve com a cabeça, Dan olhou-a fixamente. Estava alheio a tudo que se passava à sua volta. Fechou os braços e arrancou-a da carne. Com a mão na ferida, subiu para o cavalo. Virou-o e abandonou o pátio do castelo numa velocidade que anunciava a sua real fúria. Os guardas repararam que o seu senhor deixara aquele local e, também eles, saíram de Semy.
Muriel e Kate sorriram aliviadas. Mas Jamie sofria. Sentada e encostada ao muro da torre, Jamie recordou cada momento. Dia para dia, gesto para gesto, ela sentia o engrandecimento da preocupação. Aumentava também a determinação de Dan Tolos em relação a si. A morena estranha era um troféu que tinha a todo o custo de conquistar. Jamie olhou para o arco e deixou escorrer algumas lágrimas de medo. Limpou-as assim que Kate e Muriel se aproximaram.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Uma pergunta para pensar - 00024

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Crónicas da Marciana: 3º Calhau


Uma das vistas mais fascinantes que tenho o privilégio de admirar cada vez que me aproximo da Terra, é o captar da sua beleza no espaço.
O 3º calhau a contar do sol (tirei este nome de uma série da TV baseada nuns conhecidos meus de uma outra galáxia mas isso não interessa nada para o assunto) é absolutamente deslumbrante, único de todos os planetas que conheço.
É meu hábito parar na Lua para ficar a admirar este vosso belo planeta.
E é nessas ocasiões que interrogo porque será que os seus habitantes o destroem dia após dia como se ele fosse inesgotável.
Sim, leram bem: eu disse d e s t r o e m.
O sentido de posse e egoísmo latente nos terráqueos origina uma corrida a tudo que dê poder ou ostentação e o resultado é a exploração desmedida dos recursos naturais sem respeito ao presente e muito menos ao futuro.
"Não é comigo" dizem, "Não é problema meu!" exclamam, "Isso é um exagero" inventam, "Vou fazer e isto não muda nada" resmungam, "Isto vai melhorar" pensam...
Mas nada disto é verdade.
É tudo convosco, é problema vosso, não é exagero, fazer muda sim e isto não vai melhorar.
Nas várias etapas da dita evolução humana (eu não vejo grande evolução, e tenho aqui as antenas a concordarem), os terráqueos esqueceram-se de um pormenor muito importante: não têm para onde ir quando a Terra se tornar inabitável.
Estão presos neste planeta.
P r e s o s.
A tecnologia que dominam ainda não é suficientemente poderosa para o transporte de populações pelo espaço e muito menos para a sua manutenção. Há que pensar no combustível, na alimentação, no ambiente interior e exterior, na saúde e na higiene.
Já alguém reparou que no espaço, na ausência da gravidade, não se consegue tomar banho?
Aahhh mas há Marte, dizem os cientistas e visionários (adorooooo esta vossa palavra!).
Nós os marcianos sabemos perfeitamente que o objectivo é conquistar Marte. Mas antes têm de perceber que Marte não é um planeta fácil para viver. Porque pensam que somos todos verdes? Verdes lá, claro, porque aqui sou normal, normal tirando as antenas.
É bem mais pequeno que a Terra, tem apenas 0,7% da atmosfera terrestre, tem constantes tremores de terra e para não falar na escassez de água.
Ao longo de milénios temos aprendido a viver com as condições do planeta e principalmente com os escassos recursos naturais que dispomos e isso ensinou-nos a pensar primeiro na comunidade e depois em nós como individuo uno.
É verdade. É mesmo assim que os marcianos pensam.
Conseguem ver os terráqueos a fazer o mesmo? Não? Pois não... Não conseguem.
É por isso que a nossa sociedade é tão diferente da sociedade terráquea.
O respeito pelo outro é igual ou superior ao respeito por nós próprios.
E isso origina um retorno: o equilíbrio.
Um dos nossos maiores tesouros é a água. Temo-la escondida e bem protegida.
Aqui na Terra desperdiçam, estragam e pensam que é eterna. Mas não é.
Apesar do planeta existir há milhões de anos, o Homem estragou mais num século do que em toda a sua existência como criatura pensante.
Faz-nos reflectir, certo?
Faz-nos questionar de como estará a Terra daqui a mais... cem anos.
(a olhar para as antenas) Xi! Até as antenas tremeram!
Aterrorizados?
Eu estou. E nem sou de cá...
Sentada na minha nave pousada na Lua, ou mesmo a pairar imóvel no espaço, sou inundada pela tristeza ao não entender porque fazem isto à Terra. Pergunto-me vezes sem conta porque será que os humanos são assim. Será que não percebem que estão a prejudicar-se a eles mesmos?
A luz e cor do vosso planeta é inacreditável, hipnotizante, indescritível, arrepiante e única.
Não se consegue deixar de olhar.
Cativa, seduz e conquista.
Mas não se esqueçam que afinal não passa de um calhau flutuante a girar à volta de uma estrela.
Frágil.
Indefeso.
Solitário.
Os seus habitantes não têm hipóteses de saltar para outro lugar.
É impressionante a desordem e negligência.
Vocês não são os donos do universo.
São apenas um grão num deserto rico chamado Cosmos.
Um minúsculo grão.
Meus amores, ailalô!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Fogo cruzado

Sinto-me angustiada pelo fogo cruzado a que me obrigas.
Atiramos silêncios um ao outro ricocheteando com o suspirar,
numa batalha desigual de desejos parados e só falados,
onde respiro o pó do chão para onde me atiras.

Levanto vagas e comando demente que te afoguem,
que te salvem, que te abram, que te façam desaparecer.
Atiras-me ventos que me circundam, vedando-me,
como corda em chamas q não quer que a larguem.

Evoco magias daquelas que me iluminam
e empurro-as para ti num desespero de raiva,
pedindo favores ao tempo maldito e ao chicote do destino
que de longe brincam e te dominam.

Miras-me com teus olhos azuis, naquele azul céu puro,
e por ele trespassas-me de raios ferventes do sol impiedoso,
e eu respondo num rodopiar vadio que te nega, afugenta e aconchega,
aludindo-te com forças celestiais que só te vestem impuro.

Andamos por entre as gentes que não nos crêem reais,
no preto e branco de uma luta que se acasala una,
e chora desgastada deste fogo cruzado
à espera de dias serenos e abundantes de tão ideais.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Impossible

Há quem nasça com uma grande voz..


Christina Aguilera & Alicia Keys - Impossible

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Semy (Capitulo 024)

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CAPITULO 24

Faltava apenas um dia para o regresso dos Elmer. A sua longa viagem terminaria em breve. As três amigas pediam que esse momento chegasse rapidamente Pairava no ar uma sensação estranha de medo. O povo ria e conversava, mas por baixo dessa aparente descontracção os ânimos desciam a um nível de preocupação e prece.
Quando tentavam não pensar mais em Dan Tolos, este apareceu fazendo-se acompanhar por uma grande escolta. Os escravos mal o viram na planície alertaram imediatamente os guardas existentes em Semy. Estes, prepararam-se para defender a cidade de seus senhores. Espalhados pelo castelo e muralha, esperaram pela chegada daqueles habitantes de Nastro.
Com um ar triunfante de quem nada temia aliado a uma calma que só transmitia preocupação para quem o olhava, Tolos entrou pela povoação dentro. Observou as gentes com as suas caras assustadas, desconfiadas e sorriu. Com esse mesmo sorriso no canto da boca, subiu até ao pátio do castelo. Parou quando encontrou as mulheres morenas à sua frente. Olhou em volta e desmontou do cavalo. Atrás de si, alguns homens repetiram o seu movimento. Sempre a sorrir e com um brilho especial nos olhos azuis, examinou atentamente o pátio. Virou-se para Jamie e olhando-a de soslaio, declarou:
- Já tinha saudades tuas, amor.
- Nunca lhe dei tal confiança para me tratar assim. O que faz aqui?
- A partir do momento em que nos tocámos... tornámo-nos... amigos...
- Não existe nem nunca existirá qualquer tipo de amizade entre nós. Não quero ser amiga de um demónio.
- Ahhh que autoritária! Humm... gosto! Gosto muito... - Virou-se e olhou-a ainda mais. - Mas eu quero ter uma mulher de fascinantes cabelos negros como amiga...
- Desapareça desta cidade. Não gostamos da sua presença... - ordenou Muriel. - ... como pode ver.
- O que vem aqui fazer?
- És tu quem me manda embora de Semy? - perguntou Dan Tolos com o olhar directo para Jamie. - Consegues? Mesmo??
- Não é só a Jamie. - replicou Muriel.
- Jamie... Então é esse o teu nome, amor?
- O meu nome não interessa. Torno a perguntar o que veio fazer a Semy. Não é bem-vindo à cidade, já deveria saber isso. Só posso supor que seja idiota ou mesmo até muito estúpido.
Dan levantou a cabeça num gesto de crescente irritação pela coragem daquela mulher.
- Cuidado...
- Cuidado com o quê? Não tenho medo de alguém que é temido e odiado por todos nesta cidade e, principalmente, na sua. Eu não conseguiria dormir descansada ao saber que qualquer pessoa poderia levantar um punhal contra mim. Mas... um demónio nunca sente remorsos dos seus actos ou palavras, não é assim?
- Ohh isso não é verdade. Eu preocupo-me muito com os meus súbditos. Muito. Sempre. Estão sempre no meu coração. - E sorriu.
- Desapareça. - Jamie estendeu um braço e um escravo ao compreender o sinal, entregou-lhe uma espada. Logo atrás, Muriel hesitou em pegar na sua. Não tinha a destreza da amiga. Olhou em redor e, mais descansada, viu os vários guardas em posição de atacarem perante qualquer gesto suspeito de Dan Tolos.
- Hummmm... mas o que vejo eu aqui?? Uma escrava a ameaçar-me? Uma escrava??? Como é possível? - Observou melhor os rostos de quem o olhava e percebeu que algo se passava. - Devem ter um grande poder sobre esta gente para estarem a defender a cidade deste modo. É preciso muita coragem para me tratares assim, amor. Não sei se eu permitirei tal coisa, amor...
- Último aviso: saia da cidade imediatamente.
- Mas amor... eu venho em missão de paz. Eu vim apenas fazer uma visita de cortesia. Não é rapazes? - perguntou Dan para os seus guardas que responderam afirmativamente com sorrisos e murmúrios de gozo. - Nunca duas mulheres poderão lutar contra nós... E se esperarem pela ajuda dos homens que Dave deixou, a minha compaixão irá inteira para vocês. Muito mal guardado este castelo... muito mal... muito mal...
- Muito mal, senhor. - repetiu um grande homem de longos cabelos louros que se encontrava logo atrás de Dan Tolos.
- Não brinque connosco. - respondeu Muriel que juntamente com Jamie levantou a espada até ao peito.
- Saia!
- Ora vejam só, rapazes... estou a ser ameaçado por duas mulheres! - exclamou depois de ter avançado uns passos. - Mulheres! Valentes que elas são! Só podem fazer parte de uma grande brincadeira preparada por Dave. Que imaginação fértil tem aquele Elmer! Está a melhorar de dia para dia. Deve ser a tua presença, meu amor, que o inspira.
- Desconhecem o lugar de uma mulher, senhor.
- Tens razão, Be Moon. Mas estas... são especiais... Fascinantes, sem dúvida... Esta aqui então é brava, indomável...
Dan olhou fixamente para Jamie durante um período de tempo em que o silêncio pairou no ar ao mesmo tempo que aproveitou para ajeitar as luvas castanhas. Os presentes no pátio e fora dele trocavam expressões de curiosidade. Perguntavam o que surgiria dali para a frente.
Num gesto rápido, Dan Tolos desviou a espada, agarrou Jamie e beijou-a nos lábios. Com a sua fúria descontrolada, os dentes roçaram com ferocidade. Reagindo ao gesto, ela saiu dos braços do forte homem e, com as costas da mão, limpou um pouco de sangue que apareceu no lábio inferior. Levantou a espada e mirou-o com raiva. O silêncio foi quebrado pelos primeiros sons do embate das duas espadas.
- Nunca pensei vir a lutar com uma mulher. - afirmou Dan no meio do duelo que os dois disputavam. - Desiste!!!
- Nunca! - respondeu fazendo uma investida.
Entretanto, os homens de Nastro começaram a atacar os habitantes da fortaleza. Os que ficaram a cavalo distribuíram-se destruindo tudo que lhes aparecia pela frente. Rapidamente, algumas chamas começaram a surgir. Os gritos dos que fugiam dominavam o ar em conjunto com o choque das espadas. As primeiras setas começaram a surgir dos guardas que protegiam a muralha. Num instante aquele pátio tornou-se com campo de batalha. Todos davam o seu melhor para defender a sua cidade daquela ameaça de Nastro. De ambos os lados caíam no chão pessoas mortas ou feridas. Estavam constantemente a chegar ao pátio pessoas da povoação prontas a lutar do lado das escravas senhoras de Semy. Mas os homens de Dan pareciam nascer de todos os lados.
- Eu não quero lutar contigo. - gritou Dan agitando a sua espada.
- Não fui que a provoquei.
- Pára! - Depois de se defender de um golpe rápido de Jamie, Dan Tolos acrescentou: - Gosto muito do teu estilo. Tenho de dar os parabéns porque...
- Não me elogie com o objectivo de me fazer desistir desta luta. - respondeu Jamie em mais uma investida forte.
- Desistir?! Não! Não és mulher para isso. É por isso que te adoro, mulher. Ahh como te amo mulher!! Quero-te para mim, Jamie. Adoro a tua garra, amor.
- Jamais entrarei em Nastro e muito menos como sua mulher. Você é um demónio que não consegue gostar de mais ninguém! - respondeu Jamie ferindo-o num braço. - Ah! Sem dúvida que tive um óptimo mestre. Só tenho de agradecer assim que ele chegar.
Com o golpe Dan Tolos parou de lutar e levantou o olhar para ela. Os seus olhos azuis turquesa brilharam e mostraram toda a raiva momentânea. Jamie compreendeu que Dan chegara ao limite e, assustada levantou a espada para se defender. Dan encheu-a de golpes que a fizeram perder a espada e quase cair no chão.
Cambaleou e sem meio de se defender, encetou uma corrida em direcção à cabana de Wise Sage. Tolos correu como um doido atrás dela abrindo caminho com a espada a quem o tentava travar. Estava louco e não via mais nada senão a apanhar.
Ofegante, Jamie entrou na cabana e trancou a porta no momento em que a espada do senhor de Nastro trespassava a madeira ficando a parte frontal da arma a poucos centímetros da sua cabeça. Por entre o medo e o cansaço, Jamie respirava sem parar e mal conseguiu chamar pelo feiticeiro.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Jura

Jura deixares-me tocar na tua pele como quem toca a água do mar calmo,
deixares-me seduzir-te com a ponta dos meus dedos,
percorrendo, devagar,
cada ponto do teu rosto,
com vontade de te unir aos meus lábios mas a não o fazer.
Jura ordenares que desça tímida e bravia
as suaves paragens do meu delírio,
atravessando ainda mais devagar o peito ardente,
onde rachaste a defesa para me mostrares tua alma,
para eu pudesse explodir na tua pele,
esvanecendo-me em ti.
Jura fazer de mim uma pedra daquelas que se lasca para se esculpir,
para depositares tuas mãos rudes,
sábias,
carentes,
e de mim fazeres a tua nascente escondida e secreta,
aquela que teimamos esconder.
Jura ordenares que receba teus beijos perdidos,
porque os guardaste enfim salvos,
adornando-os piedosos em mim.
Jura desenhar as minhas curvas em teus lápis de pele,
em cores profundas que não desaparecem,
que me marcam,
curam,
aquecem,
num traço com fim, meio e principio.
Jura ter-me por inteiro quando simplesmente fechas os olhos,
quando estás longe e só,
quando não me consegues ver,
nem mesmo colada dentro de ti,
adormecida em nós.


sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Crónicas da Marciana: As mudanças

Uma das coisas mais complicadas com que me deparei quando cheguei a este planeta foi ter de lidar com as constantes mudanças.
Mas que mudanças?, perguntam vocês.
De tudo, basicamente. Mas a que me chocou e ainda choca - porque eu não entendo e não aprendo (e tenho a antena esquerda a concordar) - é a mudança nas pessoas.
Passo a explicar.
Nós os marcianos somos educados e criados para aceitarmos a personalidade com que nascemos e nunca mudar ao longo da vida. Devido ao uso de telepatia entre antenas, é impossível esconder algo. Podemos fazer pequenas adaptações (apertar um parafuso aqui e ali) mas nunca mudamos. Mantemo-nos fiéis à essência. Daí que primamos pela sinceridade. Somos bem mais práticos e simples. Canalizamos o que é complexo para outros sectores da vida.
Agora imaginem o que foi chegar à Terra e perceber que a sinceridade não é uma qualidade louvável e nem essencial mas sim escondível (upss! inventei uma palavra, desculpem q tenho essa mania... marcianices) pela maioria das pessoas. Ao ser algo que não se assume, é inevitável que seja o principal motor de mudanças de personalidade, infelizmente tão comum nos terráqueos.
Já perceberam que não estou a falar de boas mudanças mas de más mudanças...
Há quem use máscaras, que finja que é outra pessoa, contudo, ao fim de algum tempo, a máscara cai e nós, rapidamente, dizemos: 'ela(e) mudou tanto! Como é possível?'
Mas foi apenas o cair do esconderijo. Não serão estas mudanças meros esconderijos?
Quem escolhe este caminho, mais tarde ou mais cedo, acaba por perder.
Se eu juntasse todas as pessoas que já conheci numa multidão, bastantes teriam máscara.



Confesso que me entristece cada vez que descubro uma máscara.
Como detectar se uma pessoa vai mudar ou não?, perguntam-me vocês. (fazem muitas perguntas... eu sei...)
É impossível de detectar.
Mas a maneira de não sairmos tão magoados, decepcionados ou espantados com as más mudanças é não colocarmos a fasquia muito alta (expressão giríssima que vocês usam). É não ter expectativas elevadas. Não devemos colocar ninguém nas estrelas (apesar de ser um lugar lindo e falo por experiência própria do meu saltitar entre a Terra e Marte) porque para além de estarem distantes, queimam.
Devemos colocar sempre todos ao nosso mesmo nível, na terra.
Da minha já longa estadia neste planeta, devo avisar que é melhor estarem sempre preparados para mudanças porque o Ser Humano é uma criatura muito inconstante. O Ser Humano jamais sacia a sua insatisfação. Está sempre, mas sempre insatisfeito com algo e isso leva inevitavelmente a mudanças e ao uso de máscaras para dar volta a essa insatisfação.
Mas... o tempo é um óptimo seleccionador de pessoas.
Lembrem-se disso.
Não abusem de máscaras porque apesar de a vida ser um teatro, há um público que é exigente e que sabe sempre quem deve aplaudir no final.
A falta de sinceridade cria ilusões, mágoas, mentiras, vazios, confusões, perda de confiança, perda de amor... Perdas. Tanta coisa evitável, certo?
E acima de tudo, não se deve magoar ninguém egoisticamente. O ser humano não é uma criatura isolada. Precisa, em alguma altura, de alguém. E se assim age repetidamente, um dia deparará com um mundo vazio à sua volta. Mas aí, se calhar, será tarde demais para uma boa mudança.
É difícil para mim aceitar as mudanças más nas pessoas. Nós os marcianos não temos dualidades de carácter. As antenas não permitem. Ninguém engana ninguém em Marte. Não conseguimos. Não está nos nossos genes.
Humm... pensando bem... afinal acabei de perceber que enganamos sim: enganamos a NASA! Temos de o fazer para nos protegermos da evasão terráquea. Temos de nos proteger das criaturas mais complexas do sistema solar e arredores!!!
Irra! Que até à distância já nos conseguiram mudar!!!
Meus amores, ailalô!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Desculpa

Desculpa só te escrever agora mas andei perdida
em manobras inúteis que só me afastaram da tua singela figura,
dessa perfeita forma que me faz circular acedida
nos pensamentos mais náufragos que me deixam tão segura.

Desculpa não ter sede de água porque bebo os teus lábios,
aqueles que já beijei e em desejo voltarei a beijar,
numa roda viva de contradições e caminhos ébrios,
embriagada por quem teimo em não deixar tocar.

Desculpa ter andado ausente porque desconhecia a tua importância.
Fui ingrata e padeci culpada de total louca insensatez.
Fugi da óbvia certeza que é minha visível carência,
desde que me fizeste perder a sensata lucidez.

Desculpa a minha luta porque te quero a meu lado no meu mundo.
Estou a cansar-me dos caminhos e peso da espada
com que tenho de desbravar as setas que me atiram fundo,
cobiçando-te e torturando-me por tudo e por nada.

Desculpa se não te toco porque ficaste com o toque quando me amaste,
naquela noite que parece longínqua e esquecida em puros desabafos
guardados como recados de esculturas que rabiscaste,
amedrontaste e choraste em poderosos afagos.

Desculpa não me vestir porque só me sinto vestida com o teu olhar.
Desnudada, pergunto quanto tempo mais segurarei,
esta ansiedade de te ter trajado novamente em meu mar.
Flutuo no silêncio destas palavras e nele ainda mais viverei.

Desculpa não te amar porque aguardo que me ensines como o fazer.
Largo lágrimas de prece que de imediato secas com teus beijos.
Abro gavetas escondidas nesta minha alta nua de bem querer,
e, aos teus pés, ajoelho um corpo pedindo ensinamentos e desejos.

Desculpa porque andei esfarrapada em caminhos que me despojaram de ti,
em terras insípidas e ilusórias de múltiplos encantos,
agarrada a braços e vozes que me apagavam do que contigo senti.
Batalho pelo meu acreditar para te enviar meus calmos ventos.

Desculpa por só te conseguir amar assim.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Desperta

desperta
acorda
renasce
mas não te prendas só a ti

grita
implora
discute
mas não fales só para ti

admira
chora
aplaude
mas não fiques quieto

enraiva
rasga
parte
mas nunca fiques só

canta
dança
toca
mas nunca fiques imóvel

avança
questiona
agradece
pede
toca
beija
chora
penetra
cala
confia
aceita
mas nunca me percas

sábado, 8 de janeiro de 2011

Mad About You

O que eu andei a tentar saber quem cantava isto desde que ouvi pela 1ª vez no canal História. Graças a um amigo já fiquei a saber!! Yessssssssss :-)
É daquelas canções que não me saem da cabeça...


Hooverphonic - Mad About You

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Semy (Capitulo 023)

(Capítulos anteriores: 001, 002, 003, 004, 005, 006, 007, 008, 009, 010, 011, 012, 013, 014, 015, 016, 017, 018, 019, 020, 021, 022)

CAPITULO 23

Foi com alegria que o povo de Semy recebeu o anúncio do noivado dos senhores de Semy. Há muito que não as viam como meras escravas mas sim como alguém especial. Wise Sage e Lann eram apenas dois dos entusiastas da futura união dos Elmer. O seu papel tinha sido importante na concretização dessa mesma união. De todas, Kate e Muriel eram as mais dedicadas aos preparativos. Viviam com intensidade os momentos em que se falava nas tradições e costumes antes e depois dos casamentos. Perguntavam regras, insistiam em preparar algumas das iguarias que fariam parte da festa, questionavam-se sobre a roupa a vestir. Jamie sorria perante tanta inspiração e dedicação. Quanto a si, deixava que acontecesse sem um plano previamente estudado. Não se preocuparia com pormenores ainda distantes.
Apesar de não disfarçarem o brilho com que se olhavam, Jamie e Dave mantinham uma certa distância perante quem os rodeava. Sentiam que todos os olhares caíam sobre si mas a responsabilidade sobre o reino continuava. Todavia, todos se aperceberam dos sorrisos e risos que agora os dois facilmente soltavam ao contrário do modo soturno com que já tinham habituado todos em Semy. Era difícil, mas muitas vezes eram vistos a tocarem na mão quando passavam junto um do outro. A felicidade tinha regressado em pleno à cidade.



Chegara o inverno, e as longas caminhadas pelos extensos quilómetros de terras começavam a ter uma frequência que os seis lamentavam. Era necessário viajar pelo reino de modo a verificar se tudo estava calmo e em ordem. A natureza por vezes proporcionava trabalhos e preocupações desagradáveis. Ao demonstrar o seu poder sobre os homens, destruía um pouco dos seus vestígios. Os Elmer não gostavam de deixar esses trabalhos para segundos, preferiam serem eles próprios a decidirem o que fazer no local. Os anos que o passado já levara eram testemunhas de um bom resultado.
- Vão ser dez dias a pensar em ti. - disse Dave abraçado a Jamie. - Vou sentir falta do teu corpo quente junto ao meu quando adormecer. Criei hábito...
- Volta depressa e inteiro. - pediu Jamie dando-lhe um longo beijo de despedida.
Dave abraçou-a e olhando pela janela da sala viu os cavalos prontos no pátio.
- Temos de ir.
- Nós levamos alguns guardas mas resta em Semy um grande grupo para proteger a cidade. - informou Leo beijando Muriel. - A cidade nunca fica desprotegida.
- Não vai acontecer nada de grave. - disse a jovem.
- Dan anda muito calado... Por esta altura já deve saber da novidade. - murmurou Dave abraçado a Jamie. - Estou com um receio de as deixar aqui... Parto preocupado. São dias demais longe de Semy.
- Tu sabes que precisas de fazer esta viagem. Sossega. Não te preocupes. Nós arranjaremos um meio de nos livrarmos dele se aparecer. Tu estiveste a ensinar-me umas coisas e passaste-me uma grande responsabilidade para as mãos na tua ausência. E já sabes como eu sou.
- Sei sim, cada vez mais. Recebi um tesouro sem fim dos céus.
- Não digas isso que me fazes sentir mal. Só quero que sejas feliz ao meu lado.
- E sou, muito. Tanto que por vezes até tenho medo de que seja um sonho que acabe depressa e eu acorde e...
Jamie colocou-lhe os dedos nos lábios e disse:
- Eu sou real. Tu és real. Mas só podemos viver um dia de cada vez.
- Puxem-me senão já não saio daqui!! - disse Clive agarrando-se ainda mais a Kate.
- Vamos. - ordenou Dave colocando a sua espada na cintura.
Saíram do castelo, subiram para os cavalos e entre olhares para o que deixavam atrás, abandonaram o pátio a galope. Acompanhavam-nos um grande grupo de guardas e carroças com os mantimentos e as tendas. As jovens mulheres correram para junto das árvores para verem melhor o caminho que os levava para fora da cidade. Abriram velozmente caminho pela planície.
Tristes, Jamie, Kate e Muriel regressaram às suas tarefas. Apesar de já serem consideradas as damas de Semy, não deixavam de executar os seus trabalhos diários. Prosseguiriam com as suas tarefas até ao dia do casamento. Ainda eram escravas e, por isso, não poderiam deixar de trabalhar arduamente. Com a ajuda de Lann, Dave passara a responsabilidade do comando da cidade para Jamie apesar da relutância com que esta negara tal tarefa. Perante a insistência do senhor de Semy e da concordância de todos, ela acabou por aceitar contrariada.
A notícia dos casamentos de Dave, Leo e Clive com as mulheres morenas trouxe para os habitantes de Semy um toque salutar de alegria. Era unânime o respeito para com as suas futuras senhoras. Todos possuíam por elas muita confiança, carinho, amizade e respeito acima de tudo. Contudo, a contrariar toda aquela felicidade reinava uma única e grande preocupação: Dan Tolos, o temeroso homem, amaldiçoado pelas gentes da cidade. As semanas passaram sem que tivesse dado um sinal de vida. Nenhum dos seus homens de confiança ou guardas se atreveram a cruzar-se com alguém de Semy. De Nastro, somente o vento trazia notícias, notícias que as nuvens tão bem guardavam. Para a povoação, o não aparecimento de Dan Tolos depois do confronto no pátio só poderia significar sarilhos. Os escravos mais velhos avisaram as mulheres de cabelos escuros de que quando Tolos não aparecia durante um longo período, era porque preparava algo contra Semy. Poderia não ser especificamente contra a cidade. Certos habitantes viviam o dia a dia sempre na expectativa de que poderiam ser eles, desta vez, os alvos preferidos das atitudes loucas de Dan. No seguimento da sua conversa, os escravos relataram os actos de Tolos que, no passado, provocaram a inquietação e a dor na povoação da cidade. Muriel, Jamie e Kate criticaram a calma dos Elmer perante as atitudes desse homem. Por mais que desgostassem de guerras, as três eram de opinião que chegara a altura, mais do que certa, para todo o povo de Semy se juntar e dar uma boa lição a Dan Tolos. Ele tinha de parar com as suas loucuras.
- Esse homem sabe que pode chegar aqui e fazer o que muito bem lhe entender porque os irmãos mantêm-se serenos. Acho tudo muito complicado e estúpido. - comentou Jamie quando se encontravam na sala de banhos. - Todos os gestos, todas as palavras têm um limite de tolerância. E pelo que me apercebi, esse limite tem sido desde sempre alargado para evitar que a dor se espalhe por inocentes.
- Lann disse-me que eles não gostam mesmo de guerrear e, além disso, prometeram ao pai antes de morrer que nunca fariam guerra contra ninguém. Soube isso pelo Lann porque... vocês sabem perfeitamente como eles fogem do assunto quando nele tocamos.
- É verdade.
- Mas Kate, este senhor de Nastro abusa! - afirmou Muriel. - Não existem duas forças poderosas neste país: existe só uma e ela tem o nome de Dan Tolos.
- Se formos a contar com a força do povo, Dan Tolos acabaria completamente sozinho e esmagado sem ter tempo de suspirar! - contrapôs Jamie. - Passa-me essa toalha, por favor. Obrigada.
- Eu acho que eles só farão guerra com alguém quando esse alguém os ferir profundamente por dentro. De outro modo... aguentarão tudo que o doido fizer.
- E ficou a saber-se que são irmãos... - lembrou Jamie pensativa. - Daí o peso do juramento que Dave fez ao pai.
- A partir do momento em que discutiram daquele modo na cozinha e no pátio, nada voltará a ser o mesmo e não sou só eu que o digo. Muitos já têm vindo dizer-me isso. - declarou Muriel com uma expressão preocupada. - E tu, Jamie, estás mesmo no meio do confronto dos dois senhores.
- Não me lembres isso que só sinto um medo que nunca senti na vida. Como se algo terrível fosse acontecer-me e eu não poderei evitar.
- Eles não vão entrar em guerra.
- Eu não tenho tanta certeza. - murmurou Jamie envolta numa toalha a observar Semy por uma pequena janela. - Confesso que nunca pensei que o Dan Tolos fosse tão... tão...
- ... tão giro.
- Sim, Muriel. Sempre o imaginei como sendo um homem de rosto aterrador, feio... mas não é assim. Foi um choque para mim. Ele é demasiadamente atraente. A sua beleza ofusca-nos a mente fazendo-nos ver uma criatura maravilhosa que na verdade não o é. Faz-nos esquecer todos os seus actos de puro terror. Como o exterior nos pode iludir em tanto...
- É difícil não olhar para ele. Aqueles olhos são magnéticos. Senão temos cuidado, dominam-nos. E a voz... meiga.
- Para falar a verdade, parece-me que não existem homens feios nesta terra. - observou Kate a sorrir. - Todos possuem a sua beleza.
Muriel riu e Jamie num sussurro quase surdo tentou acalmar a sua ansiedade.
- Nem que seja a da maldade. - E vestiu-se.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Crónicas da Marciana: O Início

Todos sabem que sou marciana. Quem não sabe fica agora a saber.
Mas o que muitos não sabem é o que aqui ando a fazer, aqui neste planeta à beira espaço plantado.
Decidi, então, escrever uma espécie de memórias e comentários. Digamos que vou escrever sobre a Terra e seu seres, vista pelos olhos de uma marciana desterrada neste rochedo flutuante.
E vamos começar pela origem...
Chamo-me Ijutgrfftyu e nasci há 444 anos terrestres numa cidade no equador de Marte (para perceberem mais ou menos a localização). Desde cedo demonstrei grande capacidade para descobrir coisas. Foi a minha mãe a responsável por puxar pela minha curiosidade - característica tipicamente marciana mas hiper desenvolvida em mim - e pela minha futura predilecção por planetas vizinhos. E foi assim que me tornei obsessiva com um, apesar de a minha mãe avisar-me vezes sem conta que fugisse dele. Já perceberam de que planeta estou a falar?
Quem a mandou dar-me em bebé miniaturas de planetas para eu brincar????
Cresci a estudar a Terra e sua fascinante Lua.



Formei-me em Técnica Avançada de Investigação Inter-Planetária para além de outros cursos complementares que fizeram com que entrasse para a Academia do Alto Comando muito cedo.
E foi lá que me traçaram o destino: estudar exaustivamente a vida do planeta chamado Terra. (a olhar para o planeta em miniatura a rodar na minha mão)
Conseguem imaginar tamanha tarefa? Pois eu não. Ainda hoje não vi o fundo ao tacho o que significa que vou andar por aqui muito e muito tempo.
(suspiros) Ai o que as minhas antenas vão ter de aguentar!!
Confesso que no dia que cheguei estava deveras nervosa. As antenas tremiam que nem varas verdes.
É que a viagem entre Marte e a Terra, na minha simples nave de dois lugares, é rapidíssima, quase instantânea, isto para entendimento terráqueo. A entrada na atmosfera é que provoca sempre interferências com as antenas principalmente com a direita que é muito emotiva e rebelde. Este pormenor foi logo a minha primeira lição mal pousei o pezinho, lindo por sinal, neste planeta e mais concretamente num país chamado Portugal, numa cidade intitulada Lisboa.
Como já perceberam, tenho duas antenas que, ao contrário que todos pensam (a ver as pontas das antenas a espreitarem o que escrevo), não se encontram na testa mas atrás das orelhas. Uma é emotiva e a outra muito Marte a Marte, perdão, Terra a Terra. No meio fica a minha cabeça a tentar controlar estas duas desmioladas com que nasci. Não é mesmo nada ser marciana neste planeta como irão descobrir.
E lá fui eu crescendo, dia a dia, ano a ano, até que cheguei ao tempo presente sempre com muito para dizer e resmungar porque é outra das características dos marcianos da minha geração: serem muito resmungões.
Mas chega de falar de mim. É tempo de ir falar de vós... e, sim, de ti que estás a ler.
Ainda só vou a meio da minha investigação e já descobri tanta coisa.
Mas muito ainda continua um mistério para mim.
Meus amores, ailalô!

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

É absurdo

É absurdo que me limites as saudades porque as queres para ti
que me desnudes porque me queres admirar sem tocar.
É absurdo que no horizonte só te veja a puxar-me para mim,
na imensa fome de te ver e de te amar.

É absurdo que pense na fuga insana para te procurar
na corrida que faço nos caminhos de uma mente nascente.
É absurdo que acredite no que não posso acreditar
como se fosse lei a que estou presa numa rebeldia crescente.

É absurdo que me devores e eu não sinta
porque me cegaste e guardaste todos os meus muros.
É absurdo que a tua ausência seja a minha paixão faminta
que se alimenta dos meus prazeres mais profundos.

É absurdo que o infinito dos teus beijos seja o meu cobertor
quando vives longe no céu de estrelas que construíste.
É absurdo que o nosso ritual seja secretamente sedutor
enquanto explodes na minha pele onde sabiamente fluíste.

É absurdo recordar os nossos beijos em cada inspiro meu
sabendo que não os posso ter jamais de novo.
É absurdo que o nosso amor seja tão dificilmente fácil
que me faz jurar em cada passo onde me renovo.

domingo, 2 de janeiro de 2011

My Funny Valentine

Alguns que me conhecem sabem da minha predilecção pelo Jazz. Estava eu aqui no ecrã ao lado a ouvir música para me inspirar, quando dei por mim a ouvir isto. Não resisti em compartilhar aqui neste meu cantinho tão pessoal.


Chet Baker - My Funny Valentine

Uma pergunta para pensar - 00020