terça-feira, 31 de agosto de 2010

Acasos

O acaso visitou-me e eu questionei-o.
O que são acasos?

Serão recados
ou
peças de puzzle que recebemos nossas mas que ao deixar escapar outros usam?
Serão escritas do destino como que pistas do nosso próprio caminho ou
serão oásis num deserto de incertezas?

O que são acasos?

Sincronismos que damos conta
ou
sincronismos que desperdiçamos?
Serão laços que nos unem a alguém
ou
laços que nos prendem?
Serão a lenha para mente
ou
devaneios dos pensamentos?

Mas afinal o que são acasos?
Silêncios que gritam
ou
gritos que são discretos?
Serão as cenas de um enredo
ou
as falas de uma vida?
Serão lufadas de boa sorte
ou
chicotadas de aviso?
Serão curvas que nos fazem voltar à recta
ou
desvios sem sentido?

O acaso não se explica.

Vive-se
ou...
não.

Não será um acaso estares a ler isto agora?

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Emmy's 2010: Bob Hope Humanitarian Award

Já todos sabem da minha 'pancada' pelo Clooney, mas se calhar muitos não sabem que ele gosta de ajudar quando há catastrofes humanitárias. E foi por esse motivo, que ontem, na cerimónia da entrega dos Emmys (prémios de TV nos EUA) ele recebeu o Bob Hope Humanitarian Award.

Gostei particularmente do que disse no final do discurso, algo que a esmagadora maioria de nós esquece numa catastrofe: que depois dos jornalistas e TV's se irem embora a ajuda continua a ser necessária e muitas vezes deixa de existir e tudo se complica.

"When the disaster happens, everybody wants to help, everybody in this room wants to help, everybody at home wants to help. The hard part is seven months later, five years later, when we're on to a new story. Honestly, we fail at that, most of the time. That's the facts.
I fail at that.
So here's hoping that some very bright person right here in the room or at home watching can help find a way to keep the spotlight burning on these heartbreaking situations that continue to be heartbreaking long after the cameras go away. That would be an impressive accomplishment. Thank you."

Desabafo nocturno...

De que vale ter um bom coração se ninguém o quer?

Céu estrelado

Por vezes apetece-me deitar-me no chão e ficar a olhar para um céu assim, horas e horas...

Joshua Tree Under the Milky Way from Henry Jun Wah Lee on Vimeo.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Semy (Capitulo 014)

(Capítulos anteriores: 001, 002, 003, 004, 005, 006, 007, 008, 009, 010, 011, 012, 013)

CAPITULO 14

- Senhores, desculpem incomodar mas trago-vos uma notícia algo desagradável.
- O que se passa? - perguntou Leo..
- Dan Tolos aproxima-se de Semy.
- Raios do céu! Perdi o apetite. - exclamou Dave atirando com o prato. - Esse estupor tem o dom de aparecer nos momentos menos propícios. Pensava que estava livre de Dan por algum tempo, mas enganei-me! Porque fui eu jurar o que jurei ao meu pai?!! Irei enfrentá-lo cedo demais... Não pensei que viesse aqui tão depressa.
- Virá escolher escravos?
- Duvido, Clive.
- Temos de as esconder imediatamente. Ele não as pode ver... apesar de já saber da sua existência. Aqueles forasteiros que se passearam nos campos eram seus homens. Contaram-lhe a história das mulheres de cabelos escuros. Dan Tolos sabe da existência das estranhas e quere-as para si. Vem tentar confirmar o que ouviu dos seus guardas. Cheira-lhe a mercadoria nova e rara. Quero falar com elas imediatamente. - pediu Dave levantando-se da cadeira, no topo da mesa.
- Encontram-se a tomar banho.
- Ai sim? Então vamos lá buscá-las e levá-las para um sítio seguro. - declarou Dave a olhar para os irmãos que a sorrir, responderam afirmativamente.
- E haverá sitio seguro?
- Não compliques Leo.
E saíram.
Os passos acelerados que vincavam o chão frio de pedra mostravam bem a preocupação com que viam a visita surpresa do inimigo vizinho. Afastando quem lhes aparecia pela frente, chegaram rapidamente à sala de banhos. Mal abriram a porta, a maioria das escravas trataram de se tapar com o que arranjavam à mão. Outras, preferiram passear pela sala exibindo os seus corpos nus. Algumas, as íntimas conhecidas dos Elmer, sorriram. Mas estes sorrisos não foram retribuídos. Não estavam ali para as admirarem. Havia outros motivos para a sua presença ali. Leo e Clive ainda olharam satisfeitos enquanto que Dave observava a sala inteira, procurando-as. Não as vendo ali, começou a abrir todas as cortinas dos pequenos compartimentos onde algumas escravas tomavam o seu banho. Compreendendo a ideia de seu irmão, Clive e Leo ajudaram-no também pelo que deixaram os galanteios para mais tarde.
Descobriram onde se encontravam as três mulheres, mesmo na altura em que Muriel e Jamie iam a sair das selhas. Mal os viram, enfiaram-se novamente dentro das selhas com a água ainda com restos de espuma. Kate observou tudo muito sossegada no seu canto. Os Elmer olharam-nas curiosos e com um toque de desejo no olhar. Tinham esquecido por momentos da sua missão. Despertaram quando Lann chegou junto de todos.
- Outra vez! Isto está a tornar-se um hábito! - murmurou Jamie colocando as mãos na testa. - Já não se consegue tomar um banho sossegada neste lugar. Que hábito mais incomodativo... - continuou a resmungar por entre os dentes.
- Que desejam, senhores? - perguntou Muriel.
- Quero que saíam imediatamente daí. Dan Tolos aproxima-se de Semy e vocês têm de se esconder. - avisou Dave Egon um pouco perturbado. - Vamos!! Não pretendo que ele as veja.
Na sala, o murmúrio começou quando aquele nome se ouviu. Mas Lann rapidamente acalmou as escravas.
- Meu Deus! - exclamou Muriel.
- Dan Tolos é imprevisível e vem à vossa procura. - respondeu Dave. - Saíam daí já e façam o que lhes ordenei. Ou querem ser o seu presente de boas vindas?
- Não, senhor. - respondeu Kate.
- Depressa!
- Onde pensam esconder-nos? - perguntou Jamie admirada. Recebeu uma toalha de Lann e envolveu-se com ela, limpando-se rapidamente. - Pelo que sei, esse homem até anda nos aposentos do castelo. Não há nenhum lugar seguro como...
- SAIAM! - gritou Dave.
- Ele deve estar prestes a chegar. - disse Lann. - Não podemos perder tempo com pormenores. Depois saberão. - E entregou as roupas.
- Vistam-se e venham connosco. - ordenou o mais velho fechando as cortinas. - Vamos lá para fora. Nunca posso estar aqui muito tempo.
- Concordo plenamente! - exclamou Leo olhando para a cortina corrida.
- Lann, obriga-as a vestirem-se rápido. - pediu Dave antes de abrir a porta.
A vestirem-se depressa ao mesmo tempo que caminhavam, Muriel, Kate e Jamie juntaram-se aos irmãos no exterior da sala. Sem perda de tempo, levaram-nas para a cozinha.
As poucas pessoas que se encontravam naquele local de trabalho, olharam surpreendidas para todos. Lann explicou-lhes a situação e logo se prontificaram a ajudar as três mulheres. Dos cabelos, ainda pingavam gotas de água.
- Vão esconder-se ali junto da lenha. Aí ele não se lembrará de as procurar. - indicou Dave abrindo a porta do compartimento.
- Permanecerão aqui até alguém as avise que estarão fora de perigo. - indicou Leo um pouco nervoso.
- Se ouvirem as nossas vozes, é porque ele se dirige para aqui. Então, será a altura de se esconderem muito bem e nem sequer respirarem!! Como alguém muito bem lembrou, nenhum lugar é seguro perante o olhar de Dan Tolos. Tentem contrariar esse facto. Ele não deverá vir à cozinha, todavia, e como eu disse há pouco, ele é imprevisível. Com ele nunca nos sentimos descansados. Como sabe da vossa existência, quererá vê-las para acreditar de que é verdade o que lhe contaram. - esclareceu Dave.
- Sempre era verdade que aqueles homens eram da sua guarda... - falou Muriel.
- Sim. Confirma-se com a presença de Dan Tolos em Semy.
- Não seria melhor escondermo-nos numa casa da povoação? - sugeriu Jamie. - Certamente que não iria visitar todas as casas da cidade. E se estivesse perto, fugiríamos para outra até desistir.
- Dan Tolos nunca desiste até atingir os seus objectivos. - respondeu Leo. - Talvez seja isso que o transforma num homem poderoso e temido pelos seus súbitos...
- ... e vizinhos. - murmurou Jamie.
- Não vou castigá-la neste momento por ter dito essas palavras. - avisou Dave frente ao rosto de Jamie. - Para a próxima, não pense outras iguais porque nem a cor dos seus cabelos a salvará.
Jamie olhou-o intrigada e baixou o rosto. Mas acrescentou:
- E quem nos diz que o depósito da lenha é seguro?
- E porque é que não poderemos ficar no nosso quarto? Ele não sabe em qual estamos. - perguntou Kate.
- Chega de tanta pergunta!!! Terminou a conversa. Escondam-se.
- Adeus. - disse Clive roubando uma peça de fruta.
E os quatro saíram apressadamente.
Do meio dos escravos que se moviam pela cozinha, surgiu um já conhecido das raparigas.
- Desta vez se for necessário, eu ajudarei. Ajudarei mesmo.
- Oh! Jullien... obrigada. Espero que não seja preciso. - respondeu Jamie.
- Na verdade ele nunca veio à cozinha. - lembrou uma das cozinheiras.
- Mas pode vir hoje... - disse Kate.
- Estão tão calmas... Eu estou a tremer e não é nada comigo... - comentou uma escrava muito jovem junto do fogo.
- Estamos com medo. Tudo indica que somos muito desejadas por esse homem que todos temem. Mas vai tudo correr bem. - respondeu Muriel.
- Bem, vamos esconder-nos. - interrompeu Jamie a olhar para as escadas.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

New York

Por vezes descobrimos coisas fantásticas.. sem querer.


Paloma Faith - New York

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Cascata

O dia estava quase a desaparecer mas eu continuava a caminhar por aquelas florestas dos montes de belas encostas fotografando o que sentia.
Desci e encontrei, quase escondida, uma lagoa onde imperava uma pequena cascata de águas límpidas.
Aquele dia tinha sido particularmente quente e, subitamente, apoderou-se de mim uma tremenda vontade de fazer algo que nunca tinha feito: nadar naquelas águas tal como vim ao mundo.
Olhei em volta e apercebi-me que era seguro, ninguém me veria.
Despi cada peça da minha roupa e provei a água com a ponta dos dedos do pé.
Tapando-me com as mãos, como que a medo de me expor, entrei nas águas.
O Sol descia para o seu leito lentamente e eu nadei.
A meio, mergulhei e deixei de ouvir o silêncio da cascata para ouvir o meu próprio silêncio.
Precisava de estar no silêncio dos meus pensamentos por instantes de paz.
Suspirei com a sensação de sentir a água daquela maneira, nua e crua.
Mergulhei de novo e quando apareci para respirar, num respirar de espírito livre, vi-te à minha frente olhando-me.
Assustada, tentei nadar, envergonhada com uma presença tão súbita.
Mas tu não deixaste.
Seguraste-me pela mão e num silêncio que não me fez falar também, levaste-me para junto da cascata.
Mergulhaste e eu senti que me rodeavas mirando-me.
Emergiste mesmo à minha frente e colado a mim.
Permanecemos calados, olhando-nos apenas.
Tocaste o meu rosto e aproximas-te o teu. Os teus olhos eram estranhos: grandes, escuros e hipnotizadores.
E, o beijo chegou, a medo.
E logo outro a seguir, ainda a medo.
E mais outro já sem medo.
O tempo pareceu parar e tive de escolher em te abraçar ou deixar que me abraçasses.
Deixei-te dominar-me.
Não conseguia explicar porque precisava ser submissa.
Nem as águas da cascata detiveram o explorar dos nossos lábios,
o descobrir dos corpos.
Mergulhaste de repente e deixei de me sentir para te sentir em mim.
Apetecia-me gritar. Será que podia? E o que saiu foi um uivo como nunca ouvira.
Emergiste devagar deixando à vista apenas os teus olhos que me luxuriavam, desventrando-me.
Sabias o que fazias debaixo de água.
Não querias que eu visse. Apenas que não me esquecesse de sentir.
E limitei-me a esquecer onde estava,
limitei-me a esquecer-me de quem era.
Quando abri os olhos, o Sol já se tinha posto e tu não estavas mais junto de mim.
Procurei-te, mergulhei e não te encontrei.
Ouvi então um uivo vindo da margem.
Afinal eras um lobo.
Solto, livre, misterioso, amante e... meu.

Acordo na minha cama,
exausta, suada, feliz e com a sensação que te conheço...

domingo, 22 de agosto de 2010

Lentamente

Não preciso explicar-te, Tempo, a tua real função,
num misto de presente embrulhado para o futuro,
num misto de receber vida de mim e dando lentamente,
tão lentamente... uma vida onde me aventuro.

Não preciso explicar-te, Amor, a tua presença,
neste corpo e alma sedenta e medrosa de receber,
neste corpo e alma onde já semeaste novamente,
tão lentamente... que agarro no sentimento e o deixo crescer.

Não preciso explicar-te, Paciência, a tua espera contínua,
que se encaixa tão bem em mim endoidando-me,
que se encaixa tão bem no Tempo que me testa,
tão lentamente... num fio ténue abençoando-me.

Não preciso explicar-te, Esperança, a tua força,
que constrói muros possantes e frágeis,
que constrói remoinhos e magia com que me fortaleço,
tão lentamente... que parecem brisas ágeis.

Não preciso explicar-te, Saudade, os teus suspiros,
neste bater do coração descontrolado e calmo,
neste bater do coração bravio que só tu podes domar,
tão lentamente... com afecto que só tu sabes como me acalmo.

Não preciso explicar-te, Prazer, os teus jogos,
que me levam a sair de mim quando me tocas,
que me levam a perder-me quando me entras,
tão lentamente... que retiras o meu respirar e não me sufocas.

Tão lentamente...


sábado, 21 de agosto de 2010

Semy (Capitulo 013)

(Capítulos anteriores: 001, 002, 003, 004, 005, 006, 007, 008, 009, 010, 011, 012)

CAPITULO 13

Quando chegaram ao pátio, quem os esperava era Wise Sage. De mãos atrás das costas, parecia esperar com ansiedade alguém.
- Wise Sage! Não o víamos desde que se meteu dentro da sua cabana, e já passaram mais de cinco meses. Está bem? O que tem feito? - perguntou Dave com um leve sorriso desmontando da montada. - Só sabíamos notícias suas por Lann ou por Jullien.
- Sim, estive solitário... Quanto ao tempo que passei escondido na minha querida casa serviu para estudar e preparar uns assuntos importantes, uns assuntos meus. Saí para respirar ar fresco e...
Pelo canto do olho, o sábio apercebeu-se da chegada dos escravos e da figura desgrenhada e abatida de Jamie. Muriel chegou junto da amiga e abraçou-a. Entre cochichos nem repararam que Wise Sage lhes dirigiu a palavra:
- ... e receber as heroínas. - Surpreendeu-as quando pegou nas mãos com um ar feliz. - Nunca me canso de vos elogiar.
Jamie retirou a mão devagar e pediu:
- Por favor, não diga isso. Peço-lhe. Eu apenas fiz a minha obrigação. Com a vossa licença, preciso ir. - E afastou-se visivelmente embaraçada.
Ao mesmo tempo que trocava olhares cúmplices com Leo, Muriel falou ao ouvido do mago:
- Senhor Wise Sage, ela gosta de ajudar pessoas. Desde que a conheço que assim é. Jamie encara a injustiça como, como um monstro com quem gosta de medir forças. Tenta pôr bem o que está mal. Mas não gosta de destaque... - E afastou-se puxando Kate.
Leo observou a entrada das duas no interior do castelo e depois encontrou o olhar de aprovação de Jullien.
- Jullien, meu rapaz, precisamos ter uma conversa.
- Não me aconteceu nada, tio! Estou bem.
Apontou para a sua casa e Jullien contrariado caminhou para ela. Desviando os olhos verdes para Dave, Wise Sage disse-lhe:
- Logo após o jantar necessito falar contigo e com o teu irmão. Tu também deves aparecer, Clive. - Respirou fundo endireitando-se um pouco e acrescentou: - O vosso pai deixou-me uma tarefa complexa e determinante. Mais logo lhes revelarei do que se trata. Agora vou beber um chá do Lann. Tenho de recuperar os dias perdidos. - Passo entre passo, o velho senhor aproximou-se da casa de madeira.
- Eu cada vez percebo menos do que este velho diz. - murmurou Leo.
- Não sei que trabalho é que o vosso pai lhe deixou.
- Eu tenho um pressentimento do que será. - disse Dave pensativo.
- O que é?
- Vamos ver o gado. Não podemos parar.
- Gostaria muito de saber quem eram aqueles homens. Tenho a certeza absoluta de que eram de Nastro.
- Por esta altura Dan já saberá que há escravas novas em Semy.
Dave levantou o olhar para Clive e nada disse.
- Não duvido. O que vamos fazer, Dave?
- Evitar o confronto. - Entregou o cavalo a um escravo e olhando para uma certa janela da torre acrescentou: - Caso contrário terá uma surpresa desagradável.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Uma pergunta para pensar - 00001

Descobri um site fantástico com perguntas que nos fazem questionar o nosso intimo e isso agrada-me.
Por vezes ao se ler, podemos encontrar uma resposta ou um sinal...
A partir de hoje vou colocando periodicamente algumas dessas perguntas tal como são colocadas no site. Respondam como desejarem.. a resposta é pessoal, é muito nossa/vossa!

http://thoughtquestions.com

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Foto 0015

Neste Dia Internacional da Fotografia não podia deixar de dizer...

que é em ti, instante, que dedico uma das minhas fortes paixões.
Cada vez mais, vibro, vivo e respiro os instantes que me ofereces.
És paixão, fogo, paz, ajuda, conforto, amor, rebeldia, escape, respirar e criação.
Que nunca desapareças... fotografia.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O Amor ronda-me

Não posso negar que me deixaste sozinha neste lugar.
No meio do nada.
No meio de tudo.
E é quanto te vejo aproximar.
Devagar e decidido, aproximas-te.
Estupefacta não consigo sair de onde me prendeste.
E então percebo quem tu és.
O Amor ronda-me.
Ronda-me e observa-me como uma peça em bruto.
A decidir o que fazer comigo, que destino me dar.
E eu não posso mexer-me.
E eu não posso responder.
O Amor ronda-me.
E eu...
desconfio, confio...
questiono, respondo...
anseio, acalmo...
resmungo, elogio.
Passa pelos meus ouvidos e sussurra-me.
Indica-me o que quero saber, o que tenho de saber.
Mas eu não oiço.
O Amor ronda-me e sabe bem que eu não sei o que sussurrou.
Afasta-se e numa bruma tal como apareceu, desaparece.
E eu fico assim,
vazia, cheia...
pensativa, sábia...
mas, principalmente
e
unicamente
à tua espera,
à espera do nome com que o Amor me rondou.


terça-feira, 17 de agosto de 2010

O sorriso triste

é do cimo deste sorriso triste que ouvi as tuas palavras
é do fundo deste sorriso triste que me vou esconder de mim
é do desenho deste sorriso triste que vou inspirar-me para viver
é do calor deste sorriso triste que vou abraçar a solidão do meu leito
é do peso deste sorriso triste que vou prender o meu desejo carente
é do socorro deste sorriso triste que vou gritar até ficar sem respirar
é da revolta deste sorriso triste que vou levantar-me até cair de novo
é da calma deste sorriso triste que vou jogar se te vou querer
é do gelo deste sorriso triste que vou deslizar até me perder de vista
é do branco deste sorriso triste que vou gastar o preto das lágrimas
é do tormento deste sorriso triste que vou implorar pelo meu momento
é da palidez deste sorriso triste que vou criar as cores para não desistir de nós.
é da agonia deste sorriso triste que não encontro a minha alma

é do rosto deste sorriso triste que quero arrancar a tristeza
é do rosto deste sorriso triste que guardo o medo com que tenho coragem

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Não é o tempo

Não é o tempo vil e lento que nos tortura.
É a lentidão da pressa que nos domina.
Não é a noite silenciosa e distante que nos separa.
É a luz pálida e fantasma que nos desanima.
Não é a vontade crescente e forte que nos une.
É o desejo cego e surdo que nos determina.
Não é o sonho acordado e real que nos abraça.
É o passo certo e demorado que nos cria a rima.
Não é o beijo limpo e único que nos sela.
É o lábio sequioso e tirano que nos ensina.
Não é o abraço apertado e solto que nos vibra.
É o bater certo e uno de um coração que reanima.
Não é a minha vida ou a tua vida que nos importa.
É a eternidade do que vibra e ilumina.
Não é o mel e o fel com que nos falamos.
É o livro de recados que aberto nos anima.

domingo, 15 de agosto de 2010

Semy (Capitulo 012)

(Capítulos anteriores: 001, 002, 003, 004, 005, 006, 007, 008, 009, 010, 011)

CAPITULO 12

Passaram semanas atrás de semanas e as três amigas executavam exemplarmente as suas tarefas. Tudo que lhes era ensinado, aprendiam sem demora. Depressa, os habitantes de Semy descobriram que tinham ali novas amigas em vez do desconhecido que tanto falavam no início. Nos primeiros dias, muitos foram aqueles que iniciaram o contacto com elas. A curiosidade e interesse eram consideráveis. A origem da cor dos cabelos e olhos predominava nas perguntas. Nos simples gestos do dia a dia, Jamie, Muriel e Kate cativavam a amizade e simpatia daqueles que trabalhavam junto de si. Os dias custavam cada vez menos a passar. Já faziam parte daquela povoação. Habituaram-se aos seus costumes e leis. Tudo corria pelo melhor até... até recordarem o passado. Aí, a melancolia tomava conta do rosto e coração. Quem poderia esquecer a sua terra natal?
Um dia, por altura das colheitas, quando a maioria dos escravos se encontrava nos campos a trabalhar, apareceu um grupo de seis cavaleiros. Traziam a cara tapada por elmos escuros, e todo o restante trajo seguia o mesmo tom. Os misteriosos homens rondaram demoradamente os campos de culturas em cima dos seus belos cavalos brancos e pretos. Alguns escravos começavam a inquietar-se com a presença daqueles cavaleiros.
Do meio do campo de trigo, Jamie, Muriel e Kate observavam todos os seus movimentos ao mesmo tempo que executavam o seu trabalho de recolha do cereal.
- Aqueles não vêm aqui para fazer coisa boa... - murmurou Jamie olhando-os com desconfiança. A sombra do chapéu de abas largas escondia-lhe os olhos inquiridores. Disfarçadamente, escondeu os cabelos dentro do chapéu. Aquelas criaturas não eram de Semy.
- Ai tenho a certeza de que são homens de Dan Tolos. - afirmou uma das escravas que se encontravam ao lado de Jamie.
- Porque dizes isso, Shasta? - perguntou Kate intrigada.
- Vestidos daquela maneira... são seguramente de Nastro.
- E trazem a cara tapada, é porque não querem ser reconhecidos. - acrescentou Muriel colocando a trança dentro do chapéu redondo que trazia na cabeça.
- É habitual visitarem Semy deste modo? - perguntou Jamie.
- Raro, muito raro. Mas já o fizeram em tempos sim...
- E se fossemos avisar os Elmer? Não será melhor?
- Boa ideia, Muriel! Eu não quero ser apanhada por eles. E não está aqui ninguém para nos defender.
- Temos de arranjar maneira de os avisarmos, de pedir ajuda. - declarou Jamie a olhar para a distância a que estavam da povoação. Olhou para Muriel e disse: - Tu que corres muito rápido vais ao castelo avisá-los enquanto que os despisto para uma outra direcção de modo a não te verem. Usa a vegetação para te esconderes até estares numa distância segura e depois corres o mais depressa que conseguires. Concordas?
- Sim! A distância não é muito grande.
- Ai meninas isso é muito arriscado!
- Pode resultar Kate. Não sejas medricas!! Boa sorte, Jamie.
- Boa sorte para ti. Vai depressa!
- Só espero que as minhas pernas aguentem...
- Claro que vão aguentar. Vai. Eu aparecerei na altura ideal. - E piscou o olho num sorriso.
- Tem cuidado. Eles poderão fazer qualquer coisa de desagradável. - avisou um escravo de pele e cabelos claros que se encontrava perto e que escutou toda a conversa. - Jamie, achas que precisas da minha ajuda? Vais tu numa direcção e eu noutra? Para eles terem duas frentes de atenção e nem sequer olharem em direcção a Semy?
- Boa ideia, Jullien. Vamos fazer isso mesmo. Eu vou para a direita e tu para a esquerda. Agora, vocês, continuem a trabalhar como se de nada se tratasse. Vamos esconder-nos no trigo. Kate... devagar, vem para o meu lugar. - E olhou uma última vez daquele lugar para os misteriosos cavaleiros. Apertou melhor o chapéu e desapareceu no meio das espigas que se agitavam com o vento suave que passava no local.
Agora, o campo de trigo continha três escravos escondidos com uma missão. Muriel avançava o mais depressa que podia; numa outra direcção e Jamie e Jullien rastejavam sem deixar de observar os seis homens.
Os cavaleiros continuavam a molestar as escravas e a admirar os campos em cima dos seus cavalos. Alguns mexiam nos cavalos de modo aos cestos, já cheios, tombarem no chão. Algumas gargalhadas ouviam-se bem altas. Quando se viraram para a direcção onde ia Muriel, Jamie surgiu do campo de trigo e puxou fortemente a perna de um, atirando-o para o chão. Mal o viu estendido na terra, começou a correr no sentido contrário ao de onde se encontrava a amiga.
O resto do grupo vendo o que a mulher tinha feito a um dos seus membros, iniciou uma cavalgada em sua direcção. Jullien surgiu e conseguiu atirar um deles para o chão. Jamie corria através do trigo o mais depressa que as pernas permitiam. As pontas da saia presas no cinto, deixavam o caminho livre para os passos maiores e certeiros. Em ziguezague, fugia da perseguição dos cavalos levando-os quase a chocarem entre si. Do outro lado, Jullien, repetia a estratégia mas foi imobilizado por dois cavaleiros que o prenderam no chão. Os restantes escravos assistiam a tudo com medo.
Quando Muriel viu por entre o trigo que os seus amigos já lhe tinham deixado o caminho livre, levantou-se e correu velozmente para o castelo. Jamie corria, saltava e fugia dos dois cavaleiros restantes quando a deslocação do ar arrancou o chapéu que caiu sobre as costas. Tentou segurá-lo mas não conseguiu. O que não queria que acontecesse acabou por se concretizar: os cabelos castanhos-escuros esvoaçaram ao vento.
Um dos cavaleiros apanhou-a de surpresa, desmontou e conseguiu agarrá-la pela cintura e boca. Jamie não ficou quieta, tentava livrar-se dele dando-lhe pontapés e cotoveladas. Mas de nada servia porque ele só a apertava mais e quase já não respirava. Vendo que não poderia competir com a força do seu captor, a jovem mulher desistiu de bater. Jullien, olhou para a amiga e esperou o pior. Com um punhal a tocar-lhe bem nas costas, pedia que a ajuda chegasse depressa.
- Calma, mulher!!! PÁRA!!! Senão desfaço-te já aqui!!! - ordenou o cavaleiro junto ao ouvido de Jamie. - Porque é que fizeste aquilo ao meu amigo? Hem? Responde! - E apertou-a ainda mais ao que Jamie respondeu com uma expressão de dor. - Responde, cabra!
- Não sei! - gritou quando ele aliviou o braço à volta do pescoço. - Porque me apeteceu! - Ao sentir novamente o apertar do braço e o respirar furioso junto ao ouvido, acrescentou: - Talvez porque são estranhos e nós aqui não gostamos de pessoas estranhas. E além disso, estão em propriedade privada...
- ... propriedade privada... Que palavras são essas?
- Não... podem estar... aqui. É melhor... abandonarem... este local... - terminou Jamie a muito custo.
- Ahhhhh!! Temos aqui uma guarda - Cheirou-a perturbantemente e disse: - Tu não és destes lados... escrava! - Ela sentia que ele observava atentamente os seus cabelos. - Hummmmm... As tuas ameaças não me afectam, escrava. - disse o forte e alto homem atirando-a para o chão.
Assim que caiu no chão, Jamie reparou, por baixo dos cavalos, que a ajuda já se aproximava. Manteve-se deitada e olhou vitoriosa para o misterioso homem de negro.
- Agora sempre quero ver a sua coragem. - desafiou, com a espada do cavaleiro apontada para a garganta.
Apercebendo-se de que se aproximava alguém, guardou a espada visivelmente contrariado. Olhou para trás e deu uma ordem com a cabeça. Subiram para os cavalos e esperaram a chegada dos Elmer e alguns guerreiros. Sentindo-se segura, Jamie levantou-se do chão. Jullien rapidamente se juntou a ela.
- O que se passa aqui? - perguntou Leo ao travar o cavalo.
- Quem são vocês? - questionou Clive. - O que querem?
Dave colocou-se ao lado do cavaleiro principal como que a provocar ainda mais a sua ira.
Os dois olharam-se em silêncio e um dos homens mais atrás respondeu:
- Calma! Não viemos fazer nada de mal. Estamos de passagem apenas...
O cavaleiro que chefiava do grupo de seis, continuava calado e sem tirar os olhos de Dave. Este por sua vez respondia de igual modo. Seguravam os cavalos que pareciam tão agitados como os seus donos.
- Estamos a visitar estas lindas terras. Lindas de verdade. - disse outro cavaleiro.
- É mentira, senhores! Estavam a molestar as escravas e atacaram-nos quando os quisemos mandar embora. - afirmou Jamie a sacudir a terra da roupa e cabelo.
- Verdade? - inquiriu Dave levantando a sua espada reluzente.
Mas o cavaleiro nada respondeu.
- Se não saírem das nossas terras a bem, sairão a mal. Desapareçam!! E não se lembrem de passar mais por aqui. E lembrem o vosso senhor disso. - avisou Leo com um ar imponente. - De outro modo, terão uma bela surpresa quando cá voltarem.
- Então? De que estão à espera? - acrescentou Clive. - Desapareçam!
O cavaleiro passou junto a Jamie e, baixando-se para que só ela ouvisse, deixou uma ameaça:
- Tu, mulher, vais pagar por isto que fizeste.
Com o coração acelerado, Jamie engoliu em seco lembrando-se de que brincar com o fogo sem maneira de o combater não era uma boa ideia. Todavia, sentia que tomara a atitude correcta.
Virou o cavalo e olhando uma vez mais para Jamie começou a cavalgar. Sem demora, o resto do grupo seguiu-o abandonando os campos de culturas em grande velocidade.
Leo e Clive desmontaram e falaram com Jamie e Jullien enquanto que mais escravos se aproximaram para ouvirem.
- Muriel ficou no castelo. Ela está bem. Estamos agradecidos por nos terem ido avisar. - disse Leo num sorriso. - Eles são homens perigosos. Teriam feito o que lhes apetecesse... como sempre. - E olhou para o irmão que se mantinha em cima do cavalo com uma expressão carregada. - Sabem que não vigiamos os nossos escravos, e então, por vezes, decidem aparecer para os atormentar.
- São de Nastro?- perguntou Jamie adivinhando a resposta.
- Certamente...
- Obrigado, Jullien. - agradeceu Clive colocando a mão no ombro do baixo escravo. - Se o teu tio sabe disto ainda te repreende. Ele não te quer perto de espadas.
- Ele não precisa saber, certo? E eu mal ajudei, fui logo apanhado. É a Jamie e Muriel que devem agradecer e não a mim.
- Eu sei. - respondeu Dave com o olhar sobre Jamie que desviou os seus olhos e colocou o chapéu de novo na cabeça. - Por hoje terminou a colheita. Venham connosco.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Fogo de Letras

Oiço o crepitar das chamas e a luz quase que me ofusca.
Mexo o caldeirão de poemas como quem mexe uma receita secreta,
de uma poção mágica que só em mim faz efeito.
Mexo e remexo e limpo as gotas de suor do escaldar que me provoca.
Provo na língua o sabor da poção e, não satisfeita,
volto a agitar,
a mexer,
a provar.
Olho para o fogo de letras que alimenta o calor da minha poção.
Está perfeito este fogo que não se esgota.
E mexo e remexo de novo e não quero parar até sentir que a fórmula está primorosa.
Chegou ao supremo.
Abro os braços e grito.
Abro os olhos e vejo-te gemendo por baixo de mim.
És tu o meu fogo de letras.
És tu quem me dá as chamas para a minha poção de carícias,
para o meu caldeirão de poemas.


(resposta a um desafio com as palavras "Fogo de Letras")

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A Lua espreita

Sentada à janela aproveito a luz da Lua.
Escrevinho, escrevo um pouco para ele.
Curiosa, a Lua espreita por cima do meu ombro.
Desvio-me para não revelar o meu segredo. Não quero que saiba o que escrevo.
Mexeu-se e agora está mesmo por cima de mim.
Sinto os seus olhos inquiridores mas escondo os papéis.
E desvio-me.
Parece o jogo do gato e do rato.
Ela tenta de novo e eu escondo.
Move-se e não consegue impedir-me de escrever cada vez mais.
É para ele. Como posso parar? Nunca!
E a Lua, já zangada, puxa-me o cabelo.
E eu tapo os papéis e resmungo com ela.
Amuada, a Lua desvia-se um pouco e eu aproveito a pausa e escrevinho mais versos para ele e sorrio.
Ela aproxima-se uma vez mais e espreita por cima do meu outro ombro.
Cheia de vontade de ler e saber.
Termino e deixo-a descobrir o que tenho naqueles papéis.
Concentrada, lê.
Mas não acredita no que lê.
Mesmo assim, e no meio do espanto, sorri.
Não acredita no segredo.
E satisfeita volta para o céu.
É hora de eu dormir.
Poso os papéis na janela e deixo que a Lua faça o seu trabalho.
E ela, semicerra os olhos e sopra.
E os papéis voam num vento que sabe bem o seu destino.
As estrelas iluminam e encaminham-nos.
Um a um, pousam na tua janela.
Devagar, flutuam até ti invisíveis e, então, transformam-se.
Acordado, na noite serena, sentes os meus beijos.
Sentes os beijos que escrevi para ti.
Sorris, espreitando a Lua, a mesma Lua que curiosa quis saber quem tu eras.
Pisca-te o olho e protege-te na noite, na tua noite que é o meu dia.
Missão cumprida.


segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Dá-me a mão

Dá-me a mão, tremida mas firme
de um desejo paciente.
Deixa-me fazer a loucura das loucas esperas
porque não seguro mais desejosa mente.

Dá-me a mão, quente e rude
de um toque sonhado.
Deixa-me voar no tenebroso universo
porque percorro o teu caminho amado.

Dá-me a mão, chorosa e carente
de um prazer contido.
Deixa-me lavar as lágrimas que guardas
porque agora são beijos do meu canto retido.

Dá-me a mão, sozinha mas acompanhada
de um criar lento.
Deixa-me ver-te a moldar-me lentamente
como quem forma um corpo turbulento.

Dá-me a mão, perto e longe
de um regresso verdadeiro.
Deixa-me beijar o caminho a que me levas
porque agora já és o meu perfeito celeiro.

Dá-me a mão, desenhada e rica
de uma carícia de sorte.
Deixa-me tremer por te amar
porque já não sei onde fica o meu norte.

Dá-me a mão, minha e tua
de um laço escrito.
Deixa-me tocar a felicidade correcta
arranca-me o meu mais perfeito grito.

Dá-me a mão, velha e nova
de uma vida vivida.
Deixa-me repousar no teu peito de estrelas
porque te atreves a entrar em mim assim atrevida.

Dá-me a mão, perdida e achada
de uma espera encontrada.
Deixa-me abraçar-te em silêncio
nesta cama por nós ansiada.

domingo, 8 de agosto de 2010

Semy (Capitulo 011)

(Capítulos anteriores: 001, 002, 003, 004, 005, 006, 007, 008, 009, 010)

CAPITULO 11

- Está aberta. - respondeu Wise Sage quando escutou um toque.
A porta abriu-se e espreitar Jamie disse:
- Mandaram-nos fazer a limpeza a esta casa.
- Entrem, entrem. Devem ser Jamie... Muriel e Kate. - disse à medida que entravam para o interior da cabana.
- Sim, está correcto. Mas como...? Que pergunta mais idiota! Alguém já lhes falou de nós. - declarou Muriel poisando no chão o pesado balde de madeira que trazia cheio de água.
- Cuidado com aquela mesa. Isso arruma o meu sobrinho. Só ele é que sabe onde e como quero as minhas coisas.
Enquanto limpavam e lavaram o chão, o sábio não lhes dirigiu a palavra. Limitou-se a observá-las atentamente sentado perto da janela junto à mesa fingindo ler um grupo de papeis. Quando as três se encontravam de costas, Wise Sage rabiscava com velocidade algo num papel e parava mal se viravam. Ao fim de algum tempo, o chão daquela casa mostrava um brilho raro em toda a superfície e a arrumação geral era evidente. Foi então, a altura que Wise Sage escolheu para iniciar a sua conversa.
- Belo trabalho. Obrigado. Não sei se lhes falaram de mim... Eu sou o sábio e curandeiro desta cidade...
- Já nos informaram. - respondeu Jamie a limpar as mãos. - É o ancião mais respeitado de Semy. Muita da vida da povoação depende de si, das suas resoluções, das suas visões, dos seus conselhos e dos seus cuidados.
- Certo, certíssimo! Eu não me poderia ter apresentado de uma melhor forma. - Sentou-se na cadeira junto à lareira e prosseguiu: - Sei muito bem que vieram de um outro mundo. Mundo esse, muito diferente deste em que vivem agora. Dave contou-me que não gostam de falar do vosso passado, principalmente de onde surgiram. E posso saber porquê? Esse assunto ficará apenas entre nós...
- O nosso passado deixou de existir a partir do momento em que viemos parar a este lugar. Foi o resultado de termos confiado numa pessoa que não merecia. - respondeu Muriel um pouco comovida. E passou com o braço pela testa de modo a limpar o suor que começava a escorrer-lhe pela face.
- Devo confessar que é realmente muito bonita.
Muriel sorriu algo constrangida.
- Um falso amigo que nos traiu mandando-nos para aqui, para uma terra totalmente desconhecida, quer a nível de pessoas como de costumes. E nem se preocupou que tal viagem poderia ter-nos causado a morte. - declarou Jamie pegando na vassoura com ar impaciente. - Tudo em nome de ideais... Mas já passou. Não interessa agora recordar. Viemos parar a este tempo e local sem maneira possível de voltarmos ao nosso verdadeiro mundo. Por isso, teremos de viver o resto das nossas vidas em Semy, cidade que até agora nos recebeu bem. E para mantermos, teremos de respeitar e fazer tudo que nos mandarem. Mas devo dizer que...
- O vosso sistema de segurança não funcionou ontem. - interrompeu o mago com um ar calmo.
As três mulheres olharam surpresas para aquele homem.
- De que está a falar?
- Da mesa, Kate.
- Mas, mas como soube? - inquiriu Muriel.
- Visões, como disseram há pouco. Engenhoso. Se alguém tentasse entrar no quarto, a mesa tombaria e avisaria da entrada furtiva.
- Era a nossa primeira noite em Semy e alguém poderia entrar e fazer-nos mal. Foi apenas uma simples maneira de não sermos apanhadas de surpresa. - explicou Kate a medo.
- Pensaram que os Elmer as quisessem molestar...
- Não o fariam. - respondeu Jamie. - Mas outros não sei...
- E porque não? São homens e vocês mulheres, mulheres únicas no seu género. É uma novidade.
- Se quisessem experimentar teriam feito na ocasião em que nos encontraram. E pelo que fomos sabendo, seriam incapazes de nos magoar.
- É uma questão de honra?
- A sobrevivência com as gentes de Semy. Queremos viver o melhor possível, sem conflitos, sem ódios, sem medos.
- Temos de ir, senhor. - disse Kate abrindo a porta. - Muito trabalho ainda nos espera pela frente.
- Não vão já! Fiquem um pouco mais. Não se preocupem, que eu responsabilizo-me. Se sou o ancião mais respeitado de Semy, mereço uma atenção redobrada. A minha casa estava muito suja... - E piscou o olho num sorriso. - Digam-me mais coisas sobre vós. Estou deveras curioso! Devo confessar que nunca vi nenhuma mulher com a cor dos vossos cabelos. Nunca. E são fascinantes por sinal. Toda a povoação se encantou com eles. E eu também! Fazem destacar todo o rosto e suas expressões.
- No nosso mundo existiam cabelos de todas as cores. Os naturais variavam entre o preto, branco, castanho e louro. Existiam tintas para quem quisesse pintar de outras cores. Poderia mudar-se a cor do cabelo sempre que se apetecesse.
- Mas que interessante... Deveria ser divertido estar numa sala com criaturas de cabelos da cor do céu e outras da cor das maçãs. Deixaram alguém importante donde vieram? - inquiriu o sábio com um brilho misterioso nos olhos.
- Não. - declarou Jamie respondendo de igual modo.
- Deixámos amigos... - lembrou Kate triste.
- E um namoradozinho... - suspirou Muriel.
- Desculpe, mas agora temos mesmo de ir. As tarefas não se fazem por si próprias. Gostámos muito de o conhecer - disse Jamie antes de abrir a porta.
- Talvez seja melhor sim... Apareçam sempre que quiserem. Serão bem vindas. - declarou o velho sábio à porta de sua casa vendo-as a afastar-se. Seguiu-as com o olhar até as perder de vista. Observou o movimento geral do pátio e mexendo na barba murmurou: - Eis que o momento chegou. Tenho de fazer... tenho de fazer! Está a começar a tarefa mais importante da minha vida. Finalmente!! Ahhh! Como está belo o dia! Obrigado Senhores do Céu! Humildemente agradeço as ofertas. Jamais pensei que fossem assim.
E no que pareciam passos de dança, entrou para o interior da cabana.

sábado, 7 de agosto de 2010

T-shirt War

Sempre gostei de t-shirts (não desenhasse e pintasse eu t-shirts...),
mas ri-me ao encontrar esta animação onde as t-shirts são as protagonistas.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Breathe Me

Quando ouvi isto pela 1ª vez arrepiei-me...


Sia - Breathe Me

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Aquelas expressões

Admirei a cara e esperei pela correria das expressões.
Tombei ligeiramente o rosto para ver se algo saía do lugar.
Mas não. Ficou tudo preparado.
Tenho de entender o seu significado e não sei como.
Aproximo-me do espelho e começo a olhar para a ponta do nariz e levanto o sobrolho. Imediatamente os meus olhos saltam para aquele sobrolho levantado.
Como sou capaz de o fazer? Ginástica?
Obrigo o sobrolho a ginasticar, enquanto sobe e desce.
E logo atrás vem o sorriso que obriga os lábios a marcarem território.
Paro e passo com a mão pelo rosto como que apagando tudo para recomeçar de novo.
Começo a ver as rugas vincarem-se e a dominarem o rosto. Os dois sobrolhos quase que se tocam e os olhos semicerram num olhar que me dá arrepios de medo.
Medo? E eu sei o que isso é?
A sensação de raiva cola-me os dentes e fazem abrir a boca mostrando que todo o rosto está em sintonia com o que sinto.
Mas o que é a raiva? Saberei eu o que é?
Porém, quando me fixo, olhos nos olhos, enfrentando o poder do meu olhar, acalmo e volto à posição inicial.
Vejo as bochechas ficarem terrivelmente rosadas e só me apetece rir. A minha cara parece nascer e solto uma gargalhada.
Que som esse, estranho, que saiu da minha boca!
Curiosamente esta gargalhada faz mexer todo o meu rosto. Todo. Tudo se ilumina.
Devagar coloco a ponta dos dedos nos cantos da testa e começo a arrancar a capa.
Sai devagar como com que tristeza.
Guardo aquele rosto numa caixa, tapo e vou embora.
Um robot não tem expressões.
Precisa de uma capa humana para conseguir compreender o que transmitem.

Textos e ilustração criados para a Revista Visitações com o tema 'Expressões'

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Rasgo-me

Lamento mas não aguentei mais.
O coração cimentado por mim rebentou como uma nascente
que se vinga de um dormir forçado.
Ele pulsa de novo, livre.
Mas eu,
presa a esta pele,
agarrada a esta parede, a esta casa que me prende,
prego a prego,
numa solidão devasta e egoísta que só me quer para ela,
grito,
esperneio,
arranco,
e finalmente arranjo forças para me rasgar.
A dor é libertadora.
Vou ao teu encontro, amor.
Largo centímetro a centímetro a pele de um refugo é deixada para trás.
Não quero ser os restos, as últimas escolhas.
Perdoa-me amor, mas estou louca por te viver.
Posso pingar sangue mas sei que serei curada
só por te ver,
só por te ter.
Conseguirei eu,
assim,
chegar a ti?

domingo, 1 de agosto de 2010

Let Me Love You

Mais uma descoberta musical que me agradou :-)


Schiller - Let Me Love You (with Kim Sanders)