sábado, 31 de julho de 2010
Frase solta
sexta-feira, 30 de julho de 2010
I'm Waiting For You
Para quem aprecia o chamado smooth jazz, tem aqui uma boa sugestão para ouvir ;-)
I'm waiting for you. Always.
Jackiem Joyner - I'm Waiting For You
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Semy (Capitulo 010)
CAPITULO 10
Após o jantar, Dave e Leo dirigiram-se a uma pequena e modesta casa que morava dentro do grande pátio frontal à torre do castelo num dos cantos mais discretos. No exterior, ainda alguns trabalhavam sobre a luz de archotes que iluminavam um pouco a escuridão da hora. As estrelas brilhavam no céu e o ambiente estava agradável naquela noite. A casa só com uma janela, pertencia a Wise Sage, o sábio e mago de Semy. A presença de Lann também foi pedida pelo sábio que parecia intrigado e muito curioso com os últimos acontecimentos naquela cidade. Wise Sage era a figura mais acarinhada e respeitada de Semy e quando se apercebiam que tinha algo a dizer ouviam-nos com atenção. E foi o que aconteceu naquela noite.
Sentado junto à lareira sorriu e explicou a razão daquela reunião.
- Há algum tempo para cá que eu sentia que alguém diferente iria surgir nas nossas vidas. - Respirou fundo e prosseguiu: - Algo bom, não prejudicial, mas no entanto, nada pacifico. Forças poderosas se vão levantar.
Dave olhou-o e agitou a cabeça em sinal de discordância evidente. Wise Sage levantou-lhe um dedo e não parou de explicar.
Wise Sage tinha sido, no auge da sua vida, um homem alto. Agora, com o peso dos anos, vivia um pouco curvado. Usava o cabelo escasso e barba de cor branca um quase nada maior que o usual. O nariz era pequeno e os olhos verdes vivos, brilhavam quando olhava para a luz em cima da mesa. Ajeitou o seu roupão tradicional e aconchegou-o de volta das pernas.
- À medida que a minha idade avança, mais visões futuras eu tenho. E foi após uma dessas visões que presenciei a vossa chegada ao castelo. O tratamento dado às mulheres que encontraram não o aplicam nem aos escravos fugidos, nem mesmo aos de pior espécie. Trataram-nas como se fosse uma peça de carne morta, sem sensações nem temores. -Wise Sage juntou as pontas dos dedos frente ao nariz e levantou novamente o olhar para Dave. - Estas criaturas que descobriram são muito diferentes do que alguma vez conheceram e asseguro-vos de que nunca foram tratadas assim no local de onde vieram. São mulheres especiais, diferem demasiado das de Semy. Conhecem muito do que não sabemos, do que jamais viremos um dia a saber.
- Mas que mistério!
- Não quero ser objecto do teu gozo constante Leo.
- Calma! Eu paro. Nós não sabíamos que género de pessoas seriam. E ao ver aquele aspecto, receámos o pior.
- Recearam o pior? Tontos! Estão habituados a lidar com pessoas bem piores!! Por vezes penso que a vossa sabedoria e sensatez se desvanece e sai para passear.
- Não associou a cor dos cabelos a ninguém?
- Isso não vem ao caso, Leo. São assuntos completamente diferentes!
- Muita coincidência. Se estivesse no nosso lugar teria...
- Estamos a divagar e a afastarmo-nos do que vos trás aqui. Voltando ao que me interessa, expliquem-me como é que elas são? Estou muito curioso. Quero saber tudo! Não as vi bem quando chegaram.
- Por esta altura pensava que já sabia mais do que nós!
- Leo, responde. - resmungou Lann
Encostado à mesa, Dave assistia com expressão carregada mas recusava-se a sair do seu silêncio.
- Bem, nenhuma delas traz nos cabelos a cor loura, tão tradicional entre as mulheres de Semy. Os olhos são escuros, belos por sinal...
- Isso eu sei. revelem-me algo que não saiba, por favor.
- Uma delas é alta, dá-me pelo nariz e chama-se Jamie. Tem os cabelos compridos, cheios de caracóis, um corpo bem feito e olhos castanhos do tom mais escuro que já vi em toda a minha vida... É como se perfurassem a alma à procura de algo. É de todas a mais feia. - explicou Leo rindo-se no seu habitual ar de gozo. - A mais linda de todas é sem dúvida a Muriel. Lindíssimo cabelo preto, tão preto! Ahhh e os seus olhos... são um paraíso para admirar e recordar vezes sem fim. Estatura média, corpo perfeito. Linda! Linda! A pequena chama-se Kate. Por estranho que pareça usa o cabelo pelo pescoço, demasiado curto. A sua cara graciosa dá-lhe um ar juvenil. Um pequeno botão das mais simples e belas rosas. - concluiu a sorrir coçando a barba de alguns dias.
- Tenho um irmão poeta. - murmurou Dave com expressão carregada quebrando o silêncio desde que tinha entrado naquela casa.
- Muito bem, muito bem. Belas descrições. Gostei de ouvir. Eu próprio não teria feito melhor. - Atirou com um toro pequeno para a lareira e revelou: - Infelizmente só me trouxeram preocupação. Pelo que me contaram, quando o Dan Tolos nos visitar fará tudo para as conseguir para si. Terão de as esconder com perfeição.
- Ora porquê?
- Leo, o seu aspecto exterior único captará imediatamente a atenção de Dan e assim certamente que as quererá em Nastro. E estou certo que isso não está nos vossos desejos. Correcto?
- A mim tanto me faz. Fale ali com o Dave. Ele é que parece interessado em mantê-las cá. Não entendo... Poderiam render-nos uma fortuna fora do país.
- E Dave resolveu muito bem. Deve mantê-las em Semy a todo o custo. São preciosidades mas não para fora do país. Nunca, mas nunca deverão ir para Nastro. Se Dan Tolos as observar, nem que seja de longe, será um perigo. É fácil de imaginar o que ele faria com mulheres daquelas em seu poder. Não podemos permitir. Digo-vos, não podemos permitir. Porque infelizmente... tudo se complicará.
Dave olhou para os olhos do sábio e respondeu:
- Notará que não são de cá e as levará para ele. Eu sei. - Desviou o olhar e aproximando-se do fogo da lareira continuou. - Já que afirmou que elas serão algo benéfico, quero esperar para ver com os meus próprios olhos. Tratarei de as colocar longe dos olhares de Dan. A sua cobiça não as atingirá.
- Já estás com olhinhos para algumas, não é mano?
- Não, Leo. Quero estudá-las para depois resolver o que fazer com elas. Sei o que Wise Sage pretende...
- Sabes?? - perguntou o sábio abrindo os olhos - Sabes mesmo?
- É estudá-las, certo?
Respondendo ao olhar fixo do senhor de Semy, o mago sorriu e disse:
- Vejo que sabes o que eu pretendo.
- Não significa que concorde.
- Tu, Leo, nunca, nunca entendes nada do que eu digo.
- Eu também vou estudá-las. - disse o irmão mais novo piscando o olho.
- Pelo que vi e ouvi hoje na sala de banhos, acho que merecem amizade e respeito. Devo acrescentar que a mulher mais interessante, e para mim a chefe do trio, é a mulher que Leo frisou pela sua falta de beleza.
- Pois é Lann... o problema de Leo é de só ter em conta o que vê e não o que está escondido. Só isso é que é importante para ele. É por isso que já tem sofrido alguns dissabores no passado. - Virou-se para Leo e insistiu. - Aprende a ver o que não se mostra, aquilo que é muito nosso e talvez assim não venhas incomodar-me com o coração destroçado. Aqui dentro, assim que entras por aquela porta, deixas de ser o homem forte e inatingível para te tornares no rapaz sensível e frágil que sempre conheci. Como eu gostaria que fosses mais vezes o que és na verdade. Mas felizmente o teu irmão Dave tem uma certa influência benéfica em ti.
- Está bem, já percebi. Mudemos de assunto. - Leo fez uma careta. - Já estou convencido que estamos perante um trio brilhante...
- Muito bem dito... Quando queres observas tudo em conjunto. Quero que o faças mais vezes. Nunca se deve julgar as aparências. As exterioridades criam, por vezes, grandes ilusões. E as ilusões só se abatem com o tempo. Pois bem... veremos como as três adoráveis donzelas se portarão daqui para a frente. Eu estarei a observá-las com toda a minha atenção. Sou eu quem as irá estudar. Apenas eu tenho conhecimentos e isenção para o fazer. - Levantou-se da cadeira e colocando a mão no ombro de Dave pediu: Amanhã, digam-lhes para virem fazer limpeza à minha cabana. Necessito conhecê-las pessoalmente e conversar um pouco. Numa simples troca de palavras um homem como eu descobre pormenores fundamentais. Agora preciso dormir, já estou velho demais para estar acordado a estas horas. Adeus. Adeus. Adeus!! Lann, antes de dormir, preciso de um daqueles teus chás. São deliciosos e durmo sempre melhor quando os bebo. Preciso de dormir muito bem esta noite...
Lann afirmou que viria o mais depressa possível e todos deixaram a cabana do sábio.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Ó Destino
Ó destino bêbado que cambaleiase crias serpenteados de caminhos para mim.
Levada em curvas e curvas cegas
gastas e vazias de uma esperança sem fim.
Ris de mim, perdida nos teus caminhos
como uma cobaia num labirinto encantador
de cantos que rasgam a pele em cada passagem
num jogo brutal e humanamente tentador.
Ó destino poeta, conta-me um segredo só nosso,
semeias, assim, palavras no meu coração
para depois queimares pedaço a pedaço
num fogo que me consome com aclamação.
Forjas divertido as minhas voltas no fogo que crias
e não me deixas forças para te gritar.
Vá, arranca tudo do peito e retira o sagrado
que ensinas em cada passo no teu desacreditar.
Ó destino cozinheiro que mexes e remexes
num imenso pote frio do quente mistério
com que cozinhas tuas fartas iguarias
servindo-me nos dias num sorriso sério.
Tens medo de rebentar com o que resta?
Ó desejas tu que resista para que te alimentes
numa gula que despeja sobras constantes
tapando-me de medo com que mentes?
Ó destino dançarino que me levas num tango,
descoberto numa música intensa que um dia aparecerá,
mas que me deixa rendida nos braços de alguém
que nem mesmo os passos reconhecerá.
Abre-te como se de uma pauta te tratasses
na tentativa de encontrar nas folhas a história
do que procuro e que me negas sem parar,
levando-me à leitura breve e inglória.
Ó destino guerreiro derruba já a muralha
para que eu no castelo desbrave demente.
Quero encontrar o meu mais secreto desejo
para o sonhar e tocar tão absurdamente.
Diz-me uma só vez ao meu ouvido surdo
por que estradas me levas a perder
para que eu recorde o cheiro da saudade dele
e jamais volte a sentir o que é o doer.
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Dúvida
Decido finalmente sentar-me naquela posição.Levo a ponta dos dedos desde o inicio até ao fim de mim.
Pretendo sentir a areia que deixas dentro da minha pele.
Sou uma ampulheta nas tuas mãos, presa numa passagem infinita de um caminho sempre igual.
A minha alma está escorregadia como a areia que passa pelo estreito canal que quase a sufoca.
Quer incessantemente passar de um lado para o outro sem nunca sair do vidro a que chamo corpo.
Aprisionada, grita.
Salva-a.
Parte o vidro e leva-me para além do tudo.
Não me quero.
Não te quero.
Quero-nos!!
Mas depois nasce a dúvida.
Salta entre o lado do coração e o lado do ventre nesta ampulheta desenhada em mim.
O que fazer com a dúvida?
A dúvida se te tenho ou não?
A dúvida se te mereço ou não.
A dúvida se te quero ou não.
A dúvida se devo ter dúvida.
É como o rio de areia: sempre constante balanceando de um lado para o outro.
És uma dúvida que passa por mim e que não sei como a travar.
(resposta a um desafio com a palavra 'Dúvida'. Ilustração de Isa Silva)
domingo, 25 de julho de 2010
Wheels
Encontrei esta música deste brilhante músico...
Só me fez ter vontade de viajar de comboio de cabeça fora da janela para levar com as caricias do vento, o mesmo vento que te acaricia quando viajas nas tuas wheels...
Jamie Cullum, Wheels
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Foto 0014
Vá, diz-me algo que me faça acreditar.
Enterrei o coração e queimei o mapa para não o encontrar.
Vá, dá-me o que preciso para o relembrar.
Vá, dá-me tudo, até mesmo a tua mais profunda secreta dor.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Contraluz
Por vezes há algo que nos trava de fazer uma asneira porque afinal, somos importantes para alguém ou fazemos a diferença em algo ;-)
Aproveitem a vida e nunca deixem nada por dizer, nada por fazer.
Contraluz de Fernando Fragata
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Terra esquecida
(j) O sol adormeceu, as nuvens deixam cair umas gotas de lágrimas sobre a terra seca que emana o mágico perfume da terra molhada.
Acariciou-a do húmido há muito desejado. O perfume levantou a vida adormecida de uma terra esquecida.
(j) O desejo lançou sobre o corpo o jardim de beijos e toques sedosos de paixão iluminados pela frescura do olhar apaixonado.
Agarras na terra como se de uma escultura se tratasse e não a largas enquanto não consegues criar a pele, a carne, a respiração e o pulsar.
(j) A sombra testemunha a vida que esse corpo existe, e anseia pelo corpo do outro que a luz ofusca...
... os ramos das árvores agitam-se numa dança que nos faz selar os lábios virgens de toque mas mestres de desejos.
(j) O beijo provoca a explosão de arrepios que se escondem debaixo dos tecidos molhados de suores pedintes de mais ousadia.Ousamos, avançamos, descobrimos e paramos para respirar num segundo de pausa que o tempo egoísta nos concedeu
(j) A respiração acelera, as mãos avançando por zonas que os olhos não atingem mas a mente desenha num paraíso virtual.
São comandos da mente louca que despretensiosa ignora tabus e limites e só exige mais e mais. E nós... arrepiados, rendemo-nos a ela.
(j) Mas para alimentar o desejo é ditado ao tempo que pare por mais uns instante para contemplar o delírio do outro corpo a pedir.
Largas lágrimas que eu limpo com carícias tomando o sabor do prazer que largas na sua água salgada.
(j) Mais uma vez se fecham os olhos e deixa-se que as mãos façam uma cópia do corpo esculpido mas com vida e húmido de paixão...
... criamos de novo e de novo acabamos por repousar depois de saciar os sentidos alertas. Guardamos as memórias daqueles minutos...
(j) ... e nos olhares indiscretos das estrelas, esperam por mais um bailado de prazer, que as almas e os corpos escutam.
Sorrimos e combinamos deixar o novo bailado para uma nova terra molhada. O desejo nunca se perde.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
O corpo
estou perante o teu olhar crucificando-te com o corpo que tenho
aquele que te ofereço em suplica
porque nada mais contenho.
Inicio pelos cabelos revoltos e rebeldes
de ondas suaves que acaricias desenhando mares agitados,
tão agitados como a mente que os contém,
a mesma mente que te oferece altares sagrados.
Sacrilégio aquele que nega os olhos que muito vêeme que tudo cega não conseguindo aguentar uma oferenda
desmedida, resistente e vagarosa
dos muitos impulsos só surpreenda.
O segredo do teu nome repousa nos lábios
que guardam o meu beijo prometido.
Anseio pela quebra da insanidade descontrolada que chama por ti
numa língua gulosa que te procura com sentido.
Pela mão passa a pele do pescoço alto que adoras percorrer.
Arrepiar da ponta quente do teu toque
que desperta os bicos que mergulhas nos teus lábios
como que procurando o ar para que não te sufoque.
Protege-me senhor, os peitos que agarras imperiosamente
como se de ilhas perdidas se tratassem num mar desconhecido.
Descobertas por ti na procura de um paraíso,
e eu afago-te a cabeça para neles te deitares adormecido.
Ventre teu, desmedido e oferecido aos dedos do prazer,
perdição minha e tua, no leito da mesma loucura.
Entra guerreiro de espada em punho
e conquista a minha torre e faz dela a tua cura.
Pelos montes das minhas ancas desenhadas
já passou o rio da tua luxúria e sofreguidão.
Deixo-te explorar os quentes caminhos,
necessito da tua mais doce brusquidão.
Compridas são as pernas que te abraçam
em cada amor que fazemos, aprisionados
nas brumas suaves que nos dominam a vontade
em movimentos sensuais muito mais que abençoados.
Pelo calcanhar já beijaste sem pudor
deixando-me comandante dos meus desejos contidos
que descobres em cada vez que me fazes gemer.
Meu prisioneiro, que me tornas numa cama de bandidos.
Vazios parecem os desenhos que desenho com os dedos,
dedos esticados de um pé que te acaricia pintando-te
numa tela onde impresso as minhas curvas
e que largam o perfume do meu ser em ti, amando-te.
sábado, 17 de julho de 2010
Há uma primeira vez para tudo
Na passada quarta-feira, tive a oportunidade de fotografar uma peça de teatro pela 1ª vez. Eis neste slide show o resultado dessa experiência.
Peça: Showcase, Uma Noite de cenas, no Auditório Camões.
O Estudio John Frey Para Actores, apresenta uma composição de cenas e monólogos, trabalhados pelos actores durante o curso de 2009/2010.
Say (All I Need)
OneRepublic - Say (All I Need)
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Semy (Capitulo 009)
Num dos compartimentos de madeira as três despacharam-se a tomar o seu banho. De cortina corrida e com cada uma dentro da sua selha, conversavam.
- Eu já não saía daqui. Só de pensar o que nos espera...
- Tens toda a razão, Kate. Mas não te esqueças que agora somos escravas, temos de trabalhar. Iremos trabalhar para comer e viver. Acabaram-se as compras, a televisão, os cd's de música, bares, dança... a liberdade.
- Oh, dançar! Boys!! - exclamou Muriel.
- Trabalhar no duro! Quando não é certo que iremos parar às mãos do tal Dan Tolos. - acrescentou Kate a lavar os cabelos.
- Gostaria de conhecer a cara dele para perceber se revela o monstro que dizem que é. Seja quem for, temos mesmo é de nos manter afastadas dele. Não quero morrer tão cedo. Acho melhor sairmos...
Mas Jamie foi interrompida pela abertura da cortina. Visivelmente insatisfeito, Lann olhou para todas. Mal viram de quem se tratava, baixaram-se rapidamente deixando só as cabeças fora de água.
- Acabou o tempo. Levantem-se e vistam-se. Ou querem ser castigadas logo no primeiro dia? Fora da água JÁ!
- Assim que baixar a cortina nós faremos isso sem demora. - respondeu Kate timidamente a tapar-se o melhor que conseguia.
O grande homem de chapéu redondo riu alto e disse:
- Desta vez... passa. Fico à espera no corredor. Quero-as lá fora. E eu não espero nem mais um instante. - avisou fechando a cortina.
As roupas de trabalho eram muito simples: uma blusa larga, uma saia também larga quase até aos pés e um colete justo, tudo de cor castanha. Custou um pouco a todas deitarem as roupas velhas no fogo da lareira. As últimas recordações palpáveis do seu mundo eram consumidas pelas chamas. Seria melhor assim. Deixariam de pensar na sua casa. Era o adeus final. Agora, a sua terra era Semy. Tinham de aprender a viver na nova realidade.
Ainda algo atrapalhadas apareceram junto a Lann fora da sala de banhos. Traziam os cabelos molhados e terminaram de ajeitar as botas seguras com fios grossos. Devagar, Lann mostrou todos os lugares do interior do castelo e fora dele. No pátio, todos queriam ver de perto as estranhas mulheres. Quando a visita terminou, levou-as novamente para dentro da torre a fim de mostrar o quarto onde iriam ficar instaladas. Passaram pela sala principal, já sua conhecida, e seguiram por um largo corredor também ele decorado com tapeçarias.
Quando chegaram ao final de um corredor menor, Lann abriu uma porta e esclareceu:
- Este vai ser o vosso quarto. No corredor, está situada a porta para a sala onde existem as entradas dos quartos dos Elmer, como já lhes indiquei. Eles pediram para ficarem aqui, porque como vão ser as escravas que cuidarão de tudo que lhes diga respeito, devem permanecer sempre perto no caso de precisarem de algo. Além de cuidarem o melhor possível dos seus haveres, farão também outras tarefas que eu ocasionalmente indicarei. Dentro daquela arca, existe mais roupa. Amanhã já começam as vossas tarefas. Eu, pessoalmente, virei acordá-las bem cedo. - E fechou a porta. Tornou a abri-la e acrescentou: - Não tentem fugir. Isto está sempre muito bem guardado. - E saiu deixando a porta definitivamente fechada.
O quarto era pequeno. Havia três camas, uma mesa, um banco velho e a arca junto da janela que deixava entrar a já pouca luz do dia. Jamie abriu-a e espreitou o exterior. O movimento lá em baixo no pátio, frente à torre de menagem, diminuía à medida que a noite se aproximava. Era o primeiro dia da sua nova vida. E quantos mais esperariam por elas? O vento agitou os cabelos encaracolados e ela fez um esforço por não largar uma lágrima que teimava em cair. Não podia mostrar fraqueza junto das amigas porque contavam sempre com a sua força. Tentava controlar o medo que a assolava. Limpou a lágrima e fechou a janela.
- Está frio e já estão todos a ir embora.
- É tão cedo para irmos dormir. - comentou Kate a experimentar a sua cama.
- Já começo a ter saudades da televisão. - declarou Muriel sentada na sua cama a escovar o cabelo negro. - Falta-me ouvir uma musiquinha agradável e conhecida. Não sei se vou aguentar esta vida. Isto é tudo inimaginável.
- E ainda não vimos nada. - sussurrou Jamie olhando para o tecto.
- Vai ser um pouco difícil do início.
- Ora, Kate, vai ser mesmo muito difícil! Por mais que não nos custe trabalhar, estes dias que se avizinham, vão causar muito cansaço em todas nós. Não estamos habituadas a este tipo de trabalho e a todas as suas horas. Acabaremos por nos habituar mas até lá... vai custar.
- Os Elmer são mesmo giros.
- Ohhh Muriel tu por favor cala-te com isso! Se um deles te apanhar a jeito e te saltar para cima quero ver se o vais achar assim tão giro.
- A Kate tem razão. Nós arriscamos a que nos façam isso e não podemos negar. Somos escravas. Por isso nada de encantamentos porque isto aqui não é o século XXI. Vamos mas é dormir. - disse Jamie já dentro da cama.
- Bons sonhos. - desejou Kate tristemente.
- Para vocês também. - suspirou Muriel deitando-se. - Acho que não vou conseguir dormir... Isto é muito cedo para mim! Sou noctívaga.
- Cala-te e dorme morcega.
Enroladas nas cobertas, cada uma olhava para escuridão do quarto. Olhavam-na de maneira diferente, e no entanto, todas pediam o mesmo: pediam que a coragem ultrapassasse o medo neste desafio bem real.
segunda-feira, 12 de julho de 2010
O nosso amor é fácil?
este amor que partilhamos,
nem sabemos bem como o fazemos
nem queremos saber como amamos.
Fácil é soprar devagar
em terras que não se levantam
nem por ventanias tamanhas
nem por amores que se acorrentam.
Devolve-me os sentidos roubados
num beijo longo em que o tempo parou
porque nos achou peças fáceis
e levando-te para o mar rumou.
Pára o meu rio que rebenta na tua pele,
lavando-te de beijos loucos de desejos ricos
consumidos para durar a eternidade
que me fustiga de silêncios os ouvidos doridos.
Trava o meu turbilhão de ventos na tua carne,
porque te quero deliciar com o meu infinito
dando-te o futuro no presente invisível
que esculpes no meu corpo feito de escaldante granito.
Enterrado no fundo do meu coração vive um veneno
que fazes pingar em cada zanga desmedida
o esperar do conforto dos teus braços de sombras frias
num arrepio que cheira tanto a despedida.
O nosso amor é fácil?
Ou estarei eu simplesmente enterrada
sonhando que estou a amar
e no fim, sou tudo menos adorada?
Queimo-me sem me magoar
neste amor que quero cheio
mas fisicamente seco-me em lágrimas pesadas
que na minha pele passeiam quando te folheio.
Perdidamente perco-me num suspiro perdido
no manto de nudez que visto vestida
e no entanto estico-me encolhendo-me comprida
no tecido irreal onde suavemente me deito abatida.
Sinto o meu coração plano e estéril
e suplico-te que me lavres sulcando-me
em linhas visíveis que esculpem devagar
o renascer vagaroso parando-me.
Se o nosso amor é fácil, então,
porque sinto o vazio da tua forma
sempre que te encaixas em mim
num delírio que só longe me transforma?
domingo, 11 de julho de 2010
The Art of Analog Computing
E se algumas coisas do computador fossem analógicas?
The Art of Analog Computing from meltmedia on Vimeo.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
As fotos
Sentada na cadeira, movo o olhar sem levantar a cabeça. Fecho os olhos momentaneamente e desejo que chegues.
Odeio estas esperas de surpresas tuas.
Adoro estes jogos que me provocam.
Consciente disso, entras com algo na mão.
Puxas a cadeira e sem olhares para mim... sentas-te.
E então, cravas-me o olhar, queimando-me.
E eu, imóvel, respondo-te de igual modo.
Levantas uma foto como que acusando-me.
E eu levanto o sobrolho e pergunto:
- Que queres?
- O que vês? - perguntas tu rapidamente.
- Céu.
- Puxa-me - exiges tu.
E atiras com a foto para longe.
Num leve sorriso, pegas noutra e colocas junto dos teus olhos.
- Terra - respondo.
- Prende-me.
Aproximo-me da mesa e, repentinamente, agarras-me na mão e prendes-me o pulso.
Não te dou sinal da dor do prazer que começa a nascer.
Pegas numa outra foto e acaricias-me com ela lentamente, muito lentamente vendo a minha pele a responder a tal toque. E paras no topo do braço e perguntas:
- O que vês?
- Água.
- Rebenta-me.
Levantas-te, viras-me para ti prendendo-me o outro braço.
Não sei onde queres ir mas dali não posso sair.
Com outra foto na mão, tocas-me com a ponta desde o pescoço até ao joelho.
Demoraste.
Demoraste muito pelo caminho.
Já deixei de ver o que a foto mostra.
Já só te vejo.
Já só vejo os cliques do teu olhar cravado na carne que consomes em cada passagem da foto.
Rasgas-me e expões-me.
E tocas-me novamente com a foto.
E não permites que fale.
Colas-me uma foto nos lábios transpirados por ti.
Brincas com as fotos na minha pele colando-as onde recusas tocar-me sabendo que são redutos teus, só teus.
Com a última foto, arrepias-me, beijas-me, torturas-me.
Largo uma lágrima, não de dor mas de arrebatamento, e tu pegando nela beijas-me e dizes:
- A última foto vou tirá-la agora...
E entras sem cerimónia depois de entregues tantos convites.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Semy (Capitulo 008)
CAPITULO 8
O pequeno descanso foi interrompido pela entrada repentina de um possante homem na sala. De meia idade, conservava o seu corpo musculado em plena saúde. Trajava de semelhante modo ao dos irmãos, apenas com uma pequena diferença: usava um pequeno chapéu redondo que mal se notava no cimo da cabeça. Com os olhos verdes a brilharem, chamou-as pelos nomes, no que acertou correctamente nas respectivas donas. Indicou o caminho com o braço, levou-as através de vários corredores e acabou por descer uma escada de pedra já muito usada.
Poucos metros a seguir, entraram numa sala com muitas mulheres: umas completamente nuas e outras com algumas peças de roupa. O certo é que todas elas pararam de se lavar ou vestir para observar a entrada das misteriosas mulheres de quem todos falavam. Sabiam da sua chegada a Semy mas agora era altura de as verem ali mesmo.
Encontravam-se na sala de banhos das escravas. Lann ordenou a um grupo delas, que lavassem e vestissem as raparigas. Entregou a uma delas as roupas de trabalho, e saiu fechando a porta.
Um grupo de escravas começou a retirar as roupas de Jamie, Muriel e Kate. Afastando-se delas, Jamie disse:
- Por favor, parem. Não é preciso. Se vamos ser escravas como vocês, não queremos que façam isso. Digam-nos apenas onde podemos lavar-nos e colocar as roupas velhas. Depois, continuem a fazer o que estavam a fazer. Não precisam...
- Não podemos desobedecer a Lann. - avisou uma das escravas de cabelo louro.
- Eu responsabilizo-me. Eu falo com ele.
- Não, não, não!. Se desobedecermos, seremos castigadas. - declarou uma outra também de longos cabelos claros e a insistir em tirar a roupa a Muriel.
- Então que seja eu a castigada. - insistiu Jamie afastando-as.
- Parem! - afirmou Lann sem ninguém ter detectado a sua entrada. Olhou de alto abaixo a mulher que o desafiava e acrescentou: - Não serão castigadas. Deixem-nas. - Rondou Jamie e acrescentou: - Lavem-se ali ao fundo e queimem as vossas roupas ali no fogo. Dentro de minutos estarei aqui. E é bom que desta vez não recusem as minhas ordens.
- Mas nós comemos muito! - interveio Muriel tirando a sua camisola com marcas de sujidade. - Vai fazer-nos mal.
- Não vou repetir a minha ordem. - respondeu fechando a porta devagar.
- Sorriu... Simpatizou convosco, e isso é um bom sinal. - declarou uma escrava idosa que se encontrava sentada no fundo da sala. A luz vinda da janela, iluminava-lhe os muitos cabelos brancos.
- Sendo ou não um bom sinal, teremos de obedecer às suas ordens para sobreviver. - respondeu Muriel.
- Mas serão sempre especiais. Sempre.
- Porquê? - inquiriu Jamie
Uma das escravas pegou no cabelo de Jamie como resposta.
- Aqui neste lugar talvez existam certos privilégios que ainda não entendemos e que não os queremos ter. Muito menos privilégios baseados na cor do cabelo ou na dos olhos. Somos escravas como todas vós. - redarguiu Jamie com um leve sorriso no canto da boca. - Podemos ter um aspecto diferente, contudo não fizemos nem faremos dele uma vantagem. Aqui somos todas iguais.
- Nós gostaríamos de saber mais coisas sobre os senhores da cidade e um tal de Dan Tolos.
Quando Muriel pronunciou o último nome, todas as escravas murmuraram e fizeram um gesto, desconhecido para as três. As expressões de cada um dos rostos presentes na sala alteraram-se radicalmente.
- Peço-lhe que não fale nesse nome. - pediu a escrava mais velha.
- Porquê? - questionou Kate.
- Esse homem é maldito. Escrava que poisar nas suas mãos, não sairá viva de certeza, ou... ou ficará marcada para sempre. E os escravos também são muito castigados. Esse homem é um demónio!
- Ele experimenta todas as novas escravas que adquire. Se não fizerem aquilo que ordenar no dia seguinte já não se encontrarão vivas. Uma escrava não dura mais de dois meses em Nastro. Aquilo é um inferno! Acreditem!
- Soubemos tudo isto por uma que conseguiu escapar. Mas, pobre coitada, durou pouco tempo em Semy.
- Quando está com falta de escravos, vem aqui comprá-los. Os Elmer só vendem aquelas que trabalham pouco ou as de mau feitio, as que arranjam sarilhos...
- Os Elmer tratam muito bem quem os serve com lealdade. Mas é sempre um martírio quando esse homem vem cá. Por vezes, não fica satisfeito com os escravos que lhe apresentam e então, passeia-se pelos corredores e quartos para escolhê-los. E se os irmãos não quiserem vender, essa maldita criatura, ameaça com guerra.
- Os Elmer não têm qualquer receio em o enfrentar mas... desagrada-lhes andar em guerra. Nisso, saíram ao pai. Que bom homem era. - concluiu a escrava idosa.
- Consta que fizeram uma promessa no seu leito de morte...
- Nem sei o que dizer. Na terra donde viemos não existia nada disto... quero dizer, não se vivia assim. Porque maldade existe em todo o lado, seja no passado, no presente ou no futuro. Muito obrigada pelas explicações, senhora... Como é o seu nome? - perguntou Jamie junto da escrava que se mantinha sentada numa cadeira.
- O meu nome é Zaca. Só peço que esse maldito nunca as encontre. Mas será impossível escondê-las dele por muito tempo. O vosso aspecto é muito diferente das mulheres de Semy e saltará logo ao olhar daquele caçador, começando pela cor dos cabelos e olhos. Chamam a atenção. Ele acabará por as descobrir. Infelizmente, parece que adivinha... Não as prendo mais.
- Mas queremos saber mais sobre este lugar e suas gentes.
- Noutra altura Kate. Temos de nos despachar. Não estou com vontade de conhecer os castigos deste lugar. - resmungou Jamie puxando-a do chão.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Linha recta
As notas do piano dão o empurrão e, feroz, com a vontade a rebentar-me nos poros quentes, corro ao ritmo da bateria que nem me deixa respirar de tão rápida que é.
E lanço-me...
lanço-me no topo do abismo numa ânsia por te tocar com o vento que as minhas asas libertam.
Tempestades que desejam ser domadas para que não se percam.
Liberta, não caio... mas flutuo.
Estico os braços para sentir o horizonte que me beija com os beijos com que sonhamos mas reprimimos estupidamente.
Lembro-me de ti e desfaleço enquanto cortas novamente o sonho selando a tua boca, negando-me as palavras que exijo ouvir.
Baixo as asas e voo num frenesim.
Sinto-te atroz e uma punhalada do teu olhar eleva-me numa velocidade que rebento com as nuvens que desfeitas explodem no céu.
Resisto às correntes que me querem extrair cada grão das minhas asas já despidas pela tua reserva e distância.
São monstros que me ferem a cada avanço que dou.
As linhas invisíveis que tu puxas chicoteiam-me a pele clamando pela minha atenção.
Tens o meu voo.
Voo ao teu encontro.
It could be wrong... It could be wrong... It could be wrong... It could be right...
Voo em linha recta apesar de seres a linha mais curva que conheço.
(resposta ao desafio com as palavras "linha recta" e inspirado na música que coloquei no post anterior dos Muse: Resistence. Ilustração: Isa Silva)
domingo, 4 de julho de 2010
Resistance
Muse - Resistance
sábado, 3 de julho de 2010
Foto 0013
e no entanto tão presa com a mais indestrutível das amarras.
Acordo assim, cada dia, porque tu deliras com a minha tortura,
porque tu não sabes o que desejas e, assim, não me agarras.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Estendo
Não falo.
Não oiço.
Não toco.
Não cheiro.
Apenas te estendo o meu coração.
Vais deixá-lo morrer na minha mão?