quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
2009
Era uma protegida especial, alguém que já seguia há muito, muito tempo. Chamava-se Isa.
Destapou a caixa e encontrou uma carta.
Dobrada, trazia escrito em números grandes: 2009.
A fada sabia que dentro dela estava a vida durante um ano.
Abriu a carta e começou a ler.
Nela encontrou...
decepção, pressão, desmotivação, solidão, tristeza, dificuldades, lágrimas, vontade de desaparecer, vontade de desistir de tudo, saturação...
Mas depois encontrou...
vida nova, paz, liberdade, descobertas, alegrias, novos amigos, novos projectos, novos prazeres, surpresas...
A fada coçou a cabeça e limpou uma lágrima. E no final da carta leu:
Deixei de sonhar certos sonhos. Porque há sonhos que os quero viver e não sonhar.
A fada levou o olhar para a sua varinha mágica da Paciência que usava à cintura e sentiu o seu agitar. Dobrou a carta e voltou a colocá-la na caixa. Fechou-a e batendo as asas subiu até à última prateleira. Abriu uma gaveta e colocou a caixa lá dentro. Fechou-a e ficou pensativa. Suspirou e flutuando, saiu daquela sala.
No cimo da prateleira havia uma placa que dizia: Anos para esquecer e para não voltarem.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
A lareira
Olhei para a janela e reparei que a chuva não parava.Vejo-te chegar à sala e baixo o rosto virando-o em direcção aquela luz que me aquece.
É a única luz.
Sentada junto à lareira, oiço-te encher o copo com o vinho tinto.
Aproximas-te por trás de mim e fazes aparecer o copo à minha frente tocando-me junto ao ombro.
Seguro-o e beberico um pouco enquanto te sentas ao meu lado com as pernas a tocar nas minhas costas.
Observas-me como se nunca me tivesses visto, como se descobrisses em mim o segredo daquele néctar que me depositaste nas mãos.
Beberico um pouco mais e sinto a tua mão percorrer o meu braço terminando no rebordo do copo.
Lá, molhas o dedo e chegas até ao limiar dos meus lábios.
Sinto o cheiro do vinho e sorrio. Aproximas-te e limpas o teu dedo nos teus lábios.
Agarras-me no rosto e beijas-me... puxando-me para ti.
Poiso o copo porque já nada me interessa a não ser o teu néctar.
Deitas-te e levas-me contigo.
A luz da lareira tremelica a imagem no teu olhar vidrado em mim.
Lendo os pensamentos que queres que eu descubra, sinto as tuas mãos.
Tentamos beijar-nos mas não nos beijamos porque, algures, os nossos corpos começam a beijar-se.
Trocamos olhares adivinhando o que cada um sente e cruzamos as bocas finalmente.
O fogo estala na lareira aumentando a luz e nós largamo-nos ofegando.
Surgem gotas minúsculas na nossa pele que revelam que também ardemos num fogo sem chamas.
Afagamo-nos entre sorrisos e beijos leves enquanto partilhamos néctares.
A lareira começa a parar, pedindo por mais lenha.
E nós...
paramos consumidos pelo cansaço e pelo prazer.
Rimos e deixamo-nos ficar assim, lavados no calor, um ao lado do outro.
Olhamos para aquela lareira e admiramos as imagens no dançar das chamas, as imagens que vivemos sobre aquela manta, naquela sala, naquele dia chuvoso.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Feliz
Fazer alguém feliz é tão fácil e por vezes esquecemos que a felicidade é feita de instantes e não de um Sempre.Agarrar esses instantes é uma arte que poucos dominam.
É uma arte que só os de coração simples conseguem transformar em emoções e memórias que duram uma vida.
Ser feliz é criar minutos que são infinitos.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Danço o tango à chuva
Agarras-me contra ti e desces a mão até à minha perna levantando-a.
Colo-me a ti sem forças para me afastar.
O tango começa e dançamos.
Atiras-me para o chão e depois agarro-me à tua perna. Puxas-me para cima e rodas e rodas e não me largas.
Inclinas-me para trás e passas com a mão com paixão pelo meu peito.
E sinto a primeira gota.
Cai... arrepiando-me.
Olhamos para o céu e dele recebemos uma chuva de gotas que nos abraçam e aumentam o calor ardente.
Olhamos, olhos nos olhos, viras-me de costas e avanças ao ritmo das nossas pernas quase coladas.
Deixas-me rodopiar e sem largar o teu olhar, aproximo-me agarrando-me ao teu rosto e levantando a perna acariciando-te a anca.
Tocas nela com malícia e deixas escorregar a mão na pele molhada.
Encharcados pela chuva que cai, não deixamos de dançar o nosso tango.
Rodopiamos, esticamos os braços, roçamos as mãos e corpos e esquecemos por momentos a melodia ritmada.
Os lábios quase que se tocam mas não o fazem para não estragarem a magia da dança provocante.
Afastamo-nos e limpamos as gotas do rosto e enquanto passo com as mãos pelos cabelos agarras-me de novo e soltamos gemidos pelo frenesim final da melodia.
De corações juntos, olhamo-nos quando aquele tango à chuva termina.
A respiração não deixa dúvidas...
com aquelas gotas e música... fizemos amor, ali.
domingo, 27 de dezembro de 2009
Deixa-me
Deixa-me olhar-te com as mãos.Deixa-me saborear-te com os olhos.
Deixa-me sentir-te com o meu quente.
Deixa-me ver o teu ser sem te entregares a mim.
Deixa-me perceber os teus pensamentos de mim quando apenas te toco na ponta dos cabelos.
Deixa-me caminhar para te encontrar.
Deixa-me respirar para sentir o que precisas.
Deixa-me ouvir o que não tens coragem de dizer.
Deixa-me chamar o teu nome sem saber como te chamas.
Deixa-me cheirar o perfume que deitas quando me amas.
Deixa-me suspirar para ouvires o meu cantar.
Deixa-me soprar-te para que saibas onde estou mesmo que seja do outro lado do universo.
Deixa-me saber o que sei e ensinar-te o que ainda vou descobrir.
Deixa-me dar-te os dois tipos de amor que te posso dar.
Deixa-me chorar para que as minhas lágrimas te ensinem o caminho.
Deixa-me gritar para que as notas te arrepiem a pele de saudades minhas.
Deixa-me estudar-te para depois te equacionar.
Deixa-me ser quem preciso ser para ser quem tu precisas.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Ele há resmas de histórias
A minha, a tua a de muitos. E por sua vez dentro de nós passam outras tantas histórias.
Somos fazedores de histórias em cada minuto de vivemos.
Não paramos de as escrever em cada Sol que nasce e em cada Lua que se esconde.
Mas, um controlo limitado sobre as personagens das nossas histórias.
Escrevemos com os dedos do Destino.
É ele que muitas vezes apaga e reescreve as nossas histórias.
A vida não é mais do que um rolo de papel cheio de histórias com um começo e um fim.
Terminada a sua leitura, esse rolo é arrumado para alguém ler quando quiser.
Há os que copiam,
há os que imitam mudando o rumo,
há os aprendem,
há os que não acreditam,
há os que nunca vêem,
e há os que nunca viverão.
Somos fazedores de história quando as escrevemos e alguém a vive.
Confesso...
sou fazedora de histórias que já me aconteceram e de histórias que gostaria que me acontecessem.
Em cada palavra, coloco um pouco de mim ou...
um pouco do que gostaria de ser.
Nas frases que crio, revejo-me ou...
sonho ver-me.
Nas emoções que mostro já as vivi na pele ou...
gostaria de as viver.
Ele há resmas de histórias.
sábado, 19 de dezembro de 2009
O Natal já não é o que era?
- Ahhh! Uma estrela cadente - murmurou.
Mas apercebeu-se de que a estrela não se movia dessa maneira. Observou melhor e viu que se arrastava pelo céu. Parecia ser puxada por algo. Levantou-se e esticou as asas. Os caracóis dos cabelos agitaram-se com a leve brisa e então reparou que havia um fio que a puxava.
Bateu as asas e tentou perceber onde terminava esse fio. Voou por cima de árvores, de vales e riachos até que encontrou 3 figuras que caminhavam devagar por uma planície. Aproximou-se e, com muito espanto, descobriu que se tratavam dos 3 reis magos. Baltasar, Belchior e Gaspar avançavam cabisbaixos, curvados, com as vestes cheias de remendos, com os turbantes tombados e destruídos. De tão magros e fracos que estavam, a fada mal os reconheceu. Era Gaspar quem puxava a Estrela de Natal, também ela muito débil.
- Olá. - disse a fada triste por os encontrar em tal estado - Senhores, o que se passa convosco? Nunca os vi nesse estado. Estão irreconhecíveis!
Os 3 reis magos pararam e olharam para a figura magra e esvoaçante que lhes apareceu a meio daquela noite fria e solitária.
- Porque queres saber? - questionou Baltasar, poisando o seu saco no chão. - Já ninguém se importa connosco. Deixa-nos prosseguir o caminho. Queremos descansar.
- Esperem, esperem!!! - pediu a fada colocando-se à sua frente pousando no solo. Bateu com pé no chão e com as mãos na cintura, disse: - Mas o que é isto? Derrotismo numa altura destas? Mas afinal o que se passa?
Baltasar, Belchior e Gaspar trocaram olhares e Belchior respondeu:
- Cara fada, as pessoas deixaram de se importar com as nossas palavras, com o que significamos, com o que ensinamos. Já ninguém liga à humildade, à sinceridade, à devoção, à nobreza de espírito, à partilha, ao sacrifício... Depois de muita luta para resistir, depois de muitas tempestades, decidimos desistir e voltar para casa. Perdemos a esperança no Ser Humano. - E baixou o rosto. - O Natal já não é o que era.
A fada levantou os sobrolhos e as asas esticaram-se até não puderem mais. Até os caracóis dos cabelos pareceram ficar hirtos. Olhou para eles com muita atenção e sentiu a sua varinha a mexer na cintura.
- Pára tudo!!!! - gritou estendendo os braços com as palmas abertas.
Agitou a cabeça em sinal de discordância e prosseguiu:
- O quê?? Perderam a esperança??? Como é possível? Foram vocês que guiaram todos com aquela Estrela que têm ali no alto e agora querem desistir? Estará assim o mundo tão moribundo? Até a minha varinha que só funciona de vez em quando, não desiste! -E a varinha agitou-se, agarrada à cintura - Se o Natal já não era o que era, é altura de ir buscar ânimo e coragem para mudar a situação. 'Tou pasmada convosco!!! Como é possível? - resmungava a fada agitando a cabeça. - Ná! Eu tenho de fazer algo.
Os 3 reis magos entreolharam-se e voltaram o olhar para a fada questionando-se no que iria fazer.
Chegou junto de Baltasar e, com as mãos e a varinha, compôs o turbante voltando-o a colocá-lo no sítio com todo o seu esplendor. Agitou a varinha e o manto de Belchior voltou a colorir. Mais um agitar da varinha e Gaspar sentiu-se mais forte erguendo-se, deixando o curvar de costas numa memória. A fada afastou-se e num rodopiar agitou pela última vez a varinha e quando parou, presenciou todos com um belo sorriso ao ver que os 3 reis magos tinham regressado à sua figura inicial.
- Ahhh... agora sim, já vos conheço! É só preciso ter um pouco de Paciência para se perceber que o Bem toca sempre quem é digno do seu merecer. O Natal é feito de partilhar o bem e não de partilhar a ilusão do fácil. Entrego-vos de novo o ouro, incenso e a mirra. E... mais uns pozinhos de paciência que vão precisar. Oh se vão! - E largou uma gargalhada. A sua varinha já repousava descansada à cintura.
- Não podemos recusar tal presente de uma criatura que nunca fez parte do Natal mas que sabe encantar e ajudar. - disse Gaspar num sorriso no seu rosto feliz.
- E que lição tivemos para nos lembrar da nossa missão. - acrescentou Baltasar levantando o olhar para o Céu.
Olharam para o alto e, no fim do fio, estava uma Estrela de Natal a brilhar intensamente. Deixara de estar obscura e sem brilho.
- Eheheheh... Agora já posso ir embora mais descansada.
- Bem haja, linda fada. E que a Estrela te ilumine sempre o caminho.
- Ahhh bem que preciso porque, vez em quando, nunca sei por onde seguir!
Este texto foi criado para um desafio de Natal criado pela Ana Martins com o tema 'O Natal já não é o que era?' Aqui estão todos os autores convidados e respectivos textos:
Ana Martins http://anamartins.com/literatura/o-natal-ja-nao-e-o-que-era/
Ana Paula Motta http://quartodesegredos.blogspot.com/2009/12/o-natal-ja-nao-e-o-que-era.html
João Moreira de Sá http://arcebispodecantuaria.blogs.sapo.pt/989449.html
Luís Bento http://bento-vai-pra-dentro-bento.blogspot.com/2009/12/o-natal-ja-nao-e-o-que-era.html
Nuno Gervásio http://literaturaverylight.blogs.sapo.pt/1872.html
Tito de Morais http://miudossegurosnanet.blogs.sapo.pt/23634.html
Vasco Catarino Soares http://www.vascocatarinosoares.com/um-desafio-de-natal-um-conto-de-natal/.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
E se não houvesse Natal?
Levada pela sua varinha mágica da Paciência, a fada agitava os braços enquanto era puxada pelo ar.
Parou quando foi contra uma árvore em forma triangular. Atordoada com o embate, agarrou-se. Foi escorregando e largando uns uis e ais pelo caminho. Acabou por ficar pendurada de cabeça para baixo a poucos centímetros do chão.
Ainda intrigada por a varinha a ter embatido contra a árvore, abriu as asas e pousou no chão. Foi então que ouviu uma voz a dizer:
- Até que enfim! Estavas a fazer-me cócegas.A fada rodou rapidamente à procura de alguém. Ainda a limpar os restos da caruma agarrada à sua roupa, espreitou para cima da árvore. Mas nada encontrou.
Uns olhos pequenos mas intensos apareceram no tronco.
- Ahhh... Tu és uma árvore falante. Não percebo por vim parar aqui. Ando à procura de umas palavras para um livro que encontrei. Mas a minha varinha enganou-se de certeza.
- A que livro te referes?
- Não conheces. É um livro que se chama 'E se não houvesse Natal?'.
- Conheço sim. - respondeu a arvore tristemente. - Faço parte desse livro.
- Hum?? Verdade? Mas como? Tu fazes parte do Natal. Todos os anos és decorada de muitas maneiras e rodeada de prendas e famílias.
A árvore fechou os olhos e suspirou. Olhou novamente para a fada e prosseguiu.
- Mas eu não sou uma árvore qualquer. Sou a árvore da história do Natal.
- Como assim? Não entendo. - questionou a fada sentando-se.
- Tudo começou com a estrela que indicou o caminho para que os 3 Reis Magos encontrassem o menino Jesus. Essa estrela fica lá bem em cima, na minha ponta... - e a árvore inclinou-a para que a fada a visse melhor.
- Mas está vazia.
- Pois está. - disse tristemente. Suspirando, a árvore prosseguiu. - Nascia nesse dia um homem que iria mudar uma parte do Mundo, usando as suas palavras e actos. E a partir daí nasceram muitos ramos espalhando-se pelas terras, mentes e corações das pessoas. O tronco foi ficando maior e mais forte para criar mais e mais ramos. Foi crescendo, crescendo até que chegou à base enterrada na terra com raízes que a alimenta. A raiz alimenta-se de amor, solidariedade, compaixão e dádiva.
- Mas os teus ramos estão fracos, sem vida, a desaparecerem...
- Sim. É o que acontece se não houver Natal. Se a essência do Natal se perder, se ela deixar de existir, se a minha raiz deixar de ser alimentada e os ramos desaparecerem, pararei de contar histórias felizes em cada ramo e folha, deixarei de ajudar em cada ramo e folha, deixarei de dar em cada ramo e folha.
- Serias uma árvore vazia... Hum...
- O Natal não é feito de correrias ou de imposições, de chantagens ou solidão, de falta de amor ou do poder do dinheiro. O Natal é feito da maior dádiva que se pode dar: o genuíno oferecer por prazer. É uma oferta que não pensa em si mesma mas sim nos outros.
A fada ficou pensativa e sentiu a sua varinha a mexer-se novamente.
- Mas eu posso ajudar! - disse feliz e agitando as asas nervosamente.
- Como?
A fada tirou a varinha mágica da Paciência da cintura e agitando-a disse:
- Com ela vais recuperar os teus ramos e fortificar a raiz. É só preciso um pouco de tempo...
A árvore começou a vibrar e num sorriso esticou os ramos. Nas suas pontas começaram a surgir pequenas estrelas. E num instante, ficou toda iluminada por milhares de luzinhas cintilantes.
A fada olhou para o topo e lá estava a Estrela de Natal. Num grande sorriso, colocou as mãos no ar e pulou feliz mexendo as pernas.
- A tua varinha não dá só Paciência. Dá algo extra. Sabes... o Natal é partilhar, partilhar aquilo que não se compra.
- Ahhh!! - gritou a fada - Essa frase estava no fim do livro!!!!
A árvore sorriu muito e disse:
- Vá, vai a correr e leva as palavras da minha raiz para o livro. Vai!!
Satisfeita, a fada carregou nos braços todas as palavras esquecidas e abandonadas.
Regressou à biblioteca e depositou-as no livro vazio.
Nesse momento, ele mudou de título. Passou a chamar-se: Quando há Natal.
Orgulhosa, a fada saiu do corredor piscando o olho à fada anciã. Esta sorriu por achar aquela fada tão peculiar.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Foto 0002
leva-me e não me mantenhas parada no meio do rio.
Quero seguir caminho e não perder-me no meio do nada.
Leva-me.
Leva-me para onde sou desejada.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
A encomenda
Aquele presente chegou fora de época e sem saber o destinatário. O carteiro bateu-lhe à porta e ele, surpreendido, aceitou a encomenda.
(j) Pousou a encomenda em cima da mesa, colocou mais um tronco na lareira e sentou-se na cadeira a observar o embrulho com um laço de cetim vermelho.
Estava hesitante em se abria aquele embrulho mistério ou se o arrumava num canto da sua despensa. Até q se apercebeu que ele se agitou...
(j) Aquele movimento inesperado, despertou nele a curiosidade e o receio, contudo direccionou o seu olhar para as chamas da lareira... e deixou a sua imaginação ser consumida pelas chamas que observava.
Foi como se emanasse daquele embrulho algo que o fazia sonhar. Não resistindo, fechou os olhos e deixou-se ir. Acordou com o respirar de alguém.
(j) Abriu os olhos e atravessou toda a sala com o seu olhar, mas tudo o que via era aquilo que a memória já tinha gravado, não acrescentando nada de novo, reside então a curiosidade, o que tem o embrulho?
E decidiu abri-lo. Devagar desapertou o laço, abriu o papel e viu 1 caixa. Destapou-a e... estava vazia. "Decepcionado?" perguntou uma voz feminina. E ele rodou rapidamente a cabeça assustado.
(j) Essa voz ficou-lhe gravada no ouvido, contudo os olhos ainda não descodificavam o corpo que deu a voz. Olhou novamente para a caixa e questionou-se: "Serás tu ???"
"Eu, quem? Quem esperas?" E a imagem de uma mulher apareceu-lhe junto à lareira trazendo vestida um mando escuro.
(j) Pois o seu manto negro prendeu e despertou o brilho dos olhos como que duas estrelas iluminassem aquele universo feminino.
Ele aproximou-se para crer que via bem, que não era uma ilusão. E ao tocar nela, ela sorriu e disse: "Sim, sou real".
(j) Aquele sorriso tocou-lhe o coração como uma brisa de uma noite de verão, e ele respirou fundo e retribuiu-lhe a brisa.
Não conseguia falar mas os olhos tudo diziam. Era como se fossem um par de algo uno, duas almas unidas pela eternidade de vidas.
(j) Perceberam então, que naquele momento a única coisa que os separava era a ténue linha do horizonte que separa o céu do mar e impede de o sol beijar a terra.
Ela estendeu-lhe a mão e puxou-o para si beijando-lhe o centro da palma, quente pela surpresa. Ele, mexeu-lhe nos cabelos, e sentiu o cheiro perfumado que o enfeitiçou.
(j) O seu coração batia a uma velocidade estonteante, como o de um cavalo selvagem a percorrer os verdes prados, os seus lábios ardiam de desejo por sentir o veludo dos lábios dela.
Tocaram-se num beijo que pareceu durar um sopro do infinito e juntaram os corpos firmando um pacto com o destino: eram um do outro para sempre, ao longo de muitas vidas repetidas.
(j) E enquanto os corações sincronizavam o desejo selado pelo beijo, a luz da lareira extinguiu-se pela combustão dos corpos ardentes ficando a sala entregue a mais uma pagina em branco à espera de ser novamente preenchida por uma nova historia.
A sala ficara vazia. Levara aquele solitário de volta à felicidade. Tudo, dentro de um embrulho.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Hipocrisia
Porque gosto do meu conforto sem desejar pensar de onde ele vêm.
Não estou na Índia para trabalhar de sol a sol por um salário miserável.
Sou hipócrita porque abro a torneira e gasto água por muito que a poupe.
Não vivo em África para caminhar quilómetros para ir buscar um pouco de água.
Sou hipócrita porque gosto de usar o meu telemóvel sempre disponível.
Não estou no outro lado do mundo onde depositam o lixo tóxico que o Ocidente faz.
Sou hipócrita porque gosto de chegar ao supermercado e ter de tudo para escolher.
Não estou na floresta Amazónica a lutar por a salvar porque é necessário cada vez mais campos para criar gado e o resto que se lixe!
Sou hipócrita porque produzo lixo desnecessário.
Não estou nos lençóis de água contaminados que se multiplicam dia a dia.
Sou hipócrita porque vivo num país que tem tudo.
Não estou num país onde tenho de lutar para que o mar não destrua a minha casa já frágil e quase vazia.
Sou hipócrita porque não ligo aos que falam na TV na Conferência na Dinamarca.
Não estou a reconstruir a minha casa que mais uma vez foi destruída pelos ventos dos furações cada vez mais fortes.
Sou hipócrita porque tenho o peixe que desejo à mesa.
Não sou eu que percorro os mares cada vez mais vazios à procura da faina.
Mas também sei que posso mudar o mundo em pequenas coisas que faço.
Se todos fizessem o mesmo, sentia-se a mudança.
Aqueles senhores que se sentam a decidir o futuro do mundo não sabem o que é lutar diariamente pela sobrevivência.
Como podem eles decidir sobre a vida se não sabem o que é lutar por viver?
Os milagres são coisas que acontecem rapidamente mas nem isso são capazes de fazer.
Daqui a uns anos, poderemos estar todos a lutar pela vida e aí a hipocrisia transforma-se em crueldade.
domingo, 13 de dezembro de 2009
Aniversário
Hoje fui à arca das palavras especiais para encontrar duas que preciso.Arrumada naquele canto onde o Sol bate sempre, abro a tampa.
Reviro as palavras à procura das que necessito para te enviar.
Olho para a palavra Felicidade, mas, baixo o olhar. Essa custa a sair da arca para mim.
Toco na palavra Amor e sorrio tristemente porque sei que ainda não foi desta que ela saiu para ficar no meu coração. De lá só sai e não entra. Cada vez que sai, não volta. É um dar sem retorno. Cansei. E por isso, mais vale ficar na arca do que andar solta sem significado ou sem rumo.
Encontro a palavra Espera e atiro-a para dentro com raiva.
Remexo uma vez mais e encontro as duas palavras que te quero enviar neste dia: Feliz Aniversário.
Fecho a arca e afasto-me.
Só voltarei aquele canto para ir buscar a palavra que preciso e que não consigo encontrar. Aquela que me fez sorrir tristemente.
sábado, 12 de dezembro de 2009
Make You Feel My Love
Quando descubro certas músicas que tocam no meu coação estupidamenteromântico, tenho de as colocar aqui...
Adele - Make You Feel My Love
When the rain
Is blowing in your face
And the whole world
Is on your case
I could offer you
A warm embrace
To make you feel my love
When the evening shadows
And the stars appear
And there is no one there
To dry your tears
I could hold you
For a million years
To make you feel my love
I know you
Haven't made
Your mind up yet
But I would never
Do you wrong
I've known it
From the moment
That we met
No doubt in my mind
Where you belong
I'd go hungry
I'd go black and blue
I'd go crawling
Down the avenue
No, there's nothing
That I wouldn't do
To make you feel my love
The storms are raging
On the rolling sea
And on the highway of regret
Though winds of change
Are throwing wild and free
You ain't seen nothing
Like me yet
I could make you happy
Make your dreams come true
Nothing that I wouldn't do
Go to the ends
Of the Earth for you
To make you feel my love
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
I have a dream, a little dream.
So small that I can't find it.If you find it, please send to me.
É colorido! Ohhh tão colorido!
Tem Amor, Afecto, Atenção, Prazer, Calor, Desejo, Sorrisos, Lágrimas, Felicidade, Pele, Coração e sabe pensar.
Não anda embrulhado mas anda vestido.
Não sabe para onde vai mas tem um caminho.
Não sabe o que vai fazer no Futuro mas constrói um Presente. Não sabe que estou aqui mas quer encontrar-me.
Não sabe onde estou mas sabe que um dia irá encontrar-me.
Será que assim o conseguem descobrir e entregar-me?
This simple dream of mine?
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
O Livro branco
Levantou um olhar do livro e suspirou lembrando-se dos dias quentes e divertidos.
Voltou a colocar o livro no sítio e reparou na fada anciã que cuidava da biblioteca. Olhava desconfiada para si, ali a pairar no ar, de volta dos livros que muito poucos liam.
A fada sorriu, baixou um pouco e retirou um livro chamado 'Honra'. Desfolhou as primeiras páginas e delas sentiu um sopro de aventura e respeito. Completamente absorvida na sua leitura, esticou as pontas bicudas das orelhas.
Quando estava a meio, ouviu um tossir de alerta da fada anciã e então reparou de estava de pernas para o ar a ler o livro. Virou-se e guardou-o no sítio.
Voltou-se para a outra prateleira e escolheu o livro 'Angústia de Outono'. E antes de abrir, espreitou com cuidado para as primeiras folhas. Viu muitas palavras. Todas elas cheias de melancolia, dor, suspiros e saudade. E perguntou-se porque seria. Sentiu a varinha mágica que guardava à cintura a tremer e ao rodar a cabeça em direcção à prateleira anterior, percebeu que aquele livro tinha saudades do livro 'Verão', o mesmo que lera no inicio.
Coçou a cabeça e decidiu colocar o livro 'Angústia de Outono' junto do 'Verão'.
A fada anciã, tossiu de novo e com um gesto do dedo mandou-a guardar o livro no sitio dele. Contrariada, a fada colocou a 'Angústia de Outono' afastada do 'Verão'.
Resmungou baixinho e sem a fada anciã ver, fez-lhe uma careta não concordando com a sua ordem. Bem tentou mudar o livro escondendo-o por trás das costas mas a fada anciã percebeu e ordenou que colocasse o livro novamente na prateleira.
Irritada, a fada rodopiou no ar e ao agitar os braços desequilibrou-se e foi parar ao fundo do corredor quase junto ao chão. Um livro de capa branca chamou-lhe a atenção.
Pegou nele e leu o título: 'E se não houvesse Natal?'.
Levantou o sobrolho e abriu o livro.
Desfolhou as páginas e viu tudo em branco. Até que chegou à última em que tinha escrito: O Natal é partilhar, partilhar aquilo que não se compra.
Muito intrigada olhou para a fada anciã e esta sorriu dizendo: Vê se consegues descobrir onde estão as palavras desse livro.
E a varinha mágica que tinha à cintura começou a mexer ansiosamente...

(a história continua para responder a um desafio proposto pelo Rui Barros com o tema 'E se não houvesse Natal?')
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Foto 0001
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Almas gémeas
Porque duas almas gémeas não podem ficar juntas?Porque têm de sofrer para finalmente ficarem juntas?
Porque têm de ficar fortes?
Para finalmente tocarem a felicidade quando se juntarem?
É isso?
Para saberem dar valor ao que importa?
É isso?
Para saberem como não desperdiçar o que é divino?
É isso?
Quanto mais a Espera quer que eu espere?
A eternidade?
Não posso. Não sou imortal.
domingo, 6 de dezembro de 2009
O papel
(Eu e o Jumpsun criámos este texto de improviso no twitter)A folha de papel apareceu à minha frente inesperadamente. Olhei em volta e não percebi de onde tinha vindo.
(j) Foi como uma brisa me toca-se e fizesse parar o tempo...
Virei o papel e vi que trazia apenas uma palavra escrita. 'Espera'. Mas espero o quê?, perguntei?
(j) Espero por algo? Por alguém? Não espero pelo tempo, sim por esse infinito e vazio, para quê pergunto então?
Olho em volta novamente para ver quem me enviou tal mensagem. E encontro um olhar caído em mim, encostado aquela esquina...
(j) O que procura o olhar? será que perdeu algo? Não o seu olhar não perdeu algo, o seu olhar perdeu tudo e está a perder-se no tempo.
Olho intrigada para aquela figura. Decido aproximar-me para descobrir a essência do papel enviado. Do seu olhar sinto um pedido...
(j) Mas o seu pedido vem afogado nas águas da nascente sequiosa do olhar. Peço-lhe então que volte a repetir o pedido perdido.
E ele, pega-me na mão e escreve-me na palma: Quero-te sem saber quem és. E eu fico imóvel, sem palavras. Como é possível? penso.
(j) Então o seu olhar encontrou-se na palma da tua mão. O seu olhar renasce novamente, desprendendo-se do vazio e vai subindo.
Pega na minha mão e puxa-me para si. Resisto, mas acabo por me deixar ir. Porque será que sinto que já o conheço tão bem? Não é estranho para mim...
(j) Será que eram os olhos que não te deixavam descobrir o outro, será que eram os teus olhos não viam os traços de tinta no papel?
Olhei novamente para o papel e escrevi: Não quero esperar. Ele, levantou o sobrolho e sorriu. Pegou-me na mão e levou-me até 1 banco de jardim.
(j) Pelo caminho, olhou para trás e verificou que o teu perfume fazia corar as flores do jardim, pois libertavas o perfume do desejo... enfim chegaste ao jardim e ele ofereceu-te uma flor da cor do desejo. E tu em que pensavas naquele momento?
Cheirei-a e tremi. Sentou-me no banco, foi para trás e tapou-me os olhos e disse ao ouvido: Imagina-te perdida nos sentidos...
(j) Pegou em ti, estendeu-te no banco e começou por explorar os teus contornos, como se de um poema fosse escrito na hora.
As suas mãos sabiam como escrever o poema num papel que era um simples corpo nunca feito arte das palavras. E quando o silêncio reinou, abri os olhos.
(j) E no horizonte ficou mais uma vez as letras estampadas no espaço e no tempo "Espera"
Peguei no papel e rasguei-o e deixei-o viajar no destino do vento. Olhei para o estranho e não o encontrei. Afinal ele era o papel. Vestiu o meu desejo por não esperar mais.
sábado, 5 de dezembro de 2009
Dedo
Levanto o olhar e reparo que olhas para mim intrigado.Estendo a mão.
Sentes o calor mas não te toco.
Estico um dedo e começo a percorrer o teu rosto com a ponta da unha.
Sei que estás pensativo porque sinto o teu olhar cravado em mim.
Levanto de novo o olhar e enfrento-te.
Paro o meu dedo nos lábios e lá desenho lentamente como que deixando o rasto de um beijo meu.
Percorro o pescoço e vejo que te arrepias.
Chego ao peito.
Deixo um dedo, e mudo para o outro da outra mão que, ciumento, começa logo a pintar-te de calor e desejo.
Sem nunca tirar os meus olhos do dedo, sigo-o com o olhar devorando-te.
Séria, concentrada, com o coração a bater, desço mais e exploro o resto da tua pele.
O teu estremecer não pára o meu dedo. Pelo contrário. Desafia-o.
E chego ao final da tua perna.
Termino na ponta do dedo do pé com um suspiro.
Acabou o meu caminho.
Terminou a minha tela de pintura.
Mas, agora, transformo-me eu no teu barro de escultura.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Adagio
A mim não me falta coragem. Falta encontrar quem a tenha.
Dominic Miller-Adagio in G Minor-Albinoni
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Viajo pelo espaço
Ajeitei o fato.
Activei o motor e lá vou eu.
Sentada na minha nave vou viajar pelo espaço.
O simples viajar para ver o mar já não me contenta.
Preciso de ver o espaço.
Silencioso, frio, perturbador, encantador.
Vasto e misterioso, tal como é o futuro.
Parto para viajar por mim mesma.
Saio da Terra e vou em direcção a Marte, a minha casa.
É frio mas reconfortante e faz-me recuperar forças que perco quando dou de mim e não recebo.
Desço só para tocar na terra. Cheiro-a e assim mato a saudade.
Volto à nave e prossigo.
Júpiter fica ali mesmo em frente. Imponente, como o Amor é.
Mas tenho medo de me aproximar. A sua gravidade puxa-me e esmaga-me.
Desvio-me para, talvez, mais tarde voltar. Não posso esmagar-me de novo.
Saturno vem já a seguir.
Estico a cabeça e vejo os seus anéis e sinto que abraçam as minhas sensações. É definitivamente a ilusão. Gosto, mas não me deixo levar pelo falso.
E sigo em frente para encontrar o Úrano azul.
Está triste por estar longe mas não deixa de me dar esperança.
Vive rodeado de satélites com nomes das personagens das obras de William Shakespeare. E Shakespeare escreveu tão belas palavras sobre o amor...
Neptuno aparece logo para me chamar a atenção.
Leva tanto tempo a dar uma volta ao Sol mas nunca desiste e diz-me para nunca desistir do ser como sou.
Dou meia volta e começo a regressar para a Terra sem antes olhar para o que fica para lá do sistema Solar.
Apetecia-me lá ir. Apetecia-me começar num outro sistema, longe.
Mas...
... pertenço ao Sol.
Pelo caminho penso no que devo fazer,
no posso fazer,
no que vou fazer.
Sabe bem viajar pelo espaço para depois decidir a realidade.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Paixão vs Amor
Paixão é não sentir mais nada.Amor é sentir tudo.
Paixão é o fogo de um tempo.
Amor é o frio feito calor e que não se apaga.
Paixão é insanidade
Amor é insanidade feita com juízo
Paixão é tango.
Amor é balada.
Paixão é um rio que se perde no mar.
Amor é um oceano que nunca se esgota.
Paixão é correr.
Amor é caminhar.
Paixão é um turbilhão.
Amor é uma brisa que te abraça.
Paixão é gritar.
Amor é conversar.
Paixão é a sede do desejo.
Amor é a sede de afecto.
Paixão é ilusão.
Amor é compreensão.
Paixão é uma explosão.
Amor é uma construção.
Paixão é cidade.
Amor é vila.
Paixão é caminho com fim.
Amor é caminho com destino.
Paixão é apetecer arrancar a carne.
Amor é querer amainar a carne.
Paixão é letras perdidas.
Amor é poema imortal.
Paixão é impetuosidade.
Amor é serenidade.
Paixão é querer amar e não conseguir.
Amor é conseguir amar.
Paixão é breve.
Amor é sempre.
Paixão e Amor são semelhantes mas diferentes.
O fio que os separa é tão ténue que é difícil distinguir quando vivemos um e quando vivemos o outro.
Mas apercebemo-nos sempre da diferença a certa altura da nossa vida.

