segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Escrever

Escrever para mim é lavar a alma.
Expurgá-la de palavras que caem nos corredores mais distantes da minha mente.
Corredores esses cheios de gavetas, umas a abarrotar e outras semi-vazias, mas todas com algo para contar.
As palavras saltitam para o chão para eu as veja, para eu as recolha, para que eu construa algo.
Recusam-se a ficar fechadas apenas povoando os meus silêncios e pensamentos.
Empurram as gavetas com toda a força e gritam: Escolhe-me! Escolhe-me!
Há gavetas que deixam sair umas mais do que outras.
Quando escrevo é vê-las a saírem ordenadamente ou em sufoco, acotovelando-se para ver quem é a primeira a sair para os dedos.
E quando repousam num papel ou num ecrã... sossegam e sentem-se felizes por fazem algo mais do que ser apenas um conjunto de letras.
Crescem.
Responsabilizam-se por histórias, desabafos, memórias, desejos e alegrias.
Não gostam de fazer parte da tristeza de um texto mas, às vezes, não o podem evitar.
Adoram a inspiração e detestam o silêncio.
Adoram o significado e detestam a cópia.
Adoram a companhia de uma imagem e detestam o abandono num canto poeirento.
Escrever é assim, é dar alma às palavras, é deixá-las falar por mim.

domingo, 29 de novembro de 2009

Lembra-te...

sou mais do que um corpo, sou primeiro que tudo, uma alma.
E é essa que tu não queres.
Só pretendes o corpo.

sábado, 28 de novembro de 2009

Encontro

(Eu e a Meteorita criámos este texto de improviso no twitter)


(m) Numa manhã fria de Outono ela saiu à rua e sorriu. O vento soprava e levava com ele as angustias, a chuva caía e lavava as lágrimas...

... mas a cor das lágrimas era diferente. Passeava pela pele lembrando que não era uma água igual à da chuva...

(m) ... e p onde passava queimava, deixando para sempre a recordação daquela dor. O coração estava fechado num nó. E no entanto ela sorria...

... sorria porque acreditava que as lágrimas só lhe lavavam o espaço no coração, preparavam para outra emoção.

(m) ... A ansiedade daquele encontro rivalizava com o medo. Não queria ser mais uma vez esmagada por sentimentos que se revelavam fúteis...

... e parou por momentos olhando em volta. Será que sentiam que se ela se sentia perdida? Queria desistir mas algo dizia não.

(m) Sentia os olhos do mundo postos em si, mas não. O mundo ignorava a sua presença. O encontro ia acontecer. O destino estava marcado.

E então no meio da multidão que ela julgava não a ver, ele apareceu, algo perdido também. Os olhos não se cruzaram...

(m) ... no entanto ambos pressentiam a presença um do outro... o coração batia mais depressa e o frio do Outono transformou-se em calor...

... e acabaram por sorrir como não o faziam há muito. Banho de esperança, sentiram eles a chegar a si. E falaram.

(m) O que disseram não importa porque mais do que palavras, jorravam sentimentos. A partir daquele momento a vida sorriu, o sol espreitou.

Começava a mais real das vidas. E não pedia licença a ninguém para reinar. Só a eles os dois. A mais ninguém.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Segundo plano

A vida é um palco, dizem.
O palco está sempre pronto e a música começa.
Não estou a protagonizar, não. Parece que esse dia custa a chegar.
Estou no fundo do palco.
A cortina levanta-se e lá apareço eu, discreta e sem artifícios.
Dançam comigo, fascinam-se comigo.
Seduzem-me em cada gesto e sussurro, em cada passo de dança e eu respondo surpreendendo-os, tornando-me inesquecível.
Mas no fim da música, rodopiam, estendem o braço e voltam a colocar-me no fundo do palco.
Não me levam para a frente.
E puxam a cortina para que eu não seja vista.
E lá volto a ficar, só, calada à espera.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Para onde vai a Lua durante o dia?

Questionei, pensei e tinha de descobrir.
Um dia, decidi segui-la.
A Lua não me viu e sentou-se solitária junto a um canto, bem perto da janela e...
... chorou.
Não queria crer no que via. Porque ficou assim, daquele modo?
'Porquê?', não parava de perguntar.
Deixei-me ficar escondida e, então, percebi.
A Lua, tinha saudades da sua Noite.
Para si, nada mais importava a não ser a noite.
Era à noite que se sentia útil e desejada.
Era à noite que se sentia parte de um universo, complexo sim, mas dependente das pequenas individualidades de cada peça viva.
À noite, ficava rodeada de estrelas, cometas, galáxias, suspiros e desejos.
Queria a sua Noite para ajudar a encantar, a seduzir, a reconfortar e a amar.
O que seria dos enamorados sem a sua paixão?
O que seria dos solitários sem a sua luz?
O que seria dos sonhadores sem a sua inspiração?
A Lua necessita receber as juras, as promessas, os desejos... os sonhos, os lamentos.
Durante o dia, a sua magia perde-se para o potente e ditador Sol.
Durante o dia, lamenta a perda da escuridão que lhe dá alento e energia.
Durante o dia, chora o desaparecimento do brilho e do fascínio do Céu nocturno.
Eu não supunha que a Lua fosse assim tão emocional.
Mas agora percebo porque olhamos para ela.
Cada cratera é um coração partido.
Cada grão de areia é um beijo perdido.
Cada silhueta no céu é uma letra de palavras marcantes: D e C.
Cada aparição sua é uma saudação.
Assim, com todo o peso das nossas emoções mais profundas, como pode a Lua aguentar ficar ausente da Noite durante tantas horas?
Agora percebo porque a Lua tem um lado oculto.
É onde guarda a sua reserva da Noite para aguentar o Dia.

(resposta a um desafio pedido usando a frase 'Para onde vai a Lua durante do dia')


quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Há vidas bem piores que a minha

Há vidas bem piores que a minha, oh se há.
Mas da minha sentia-a Eu em cada segundo criando as minhas mágoas e memórias.
É difícil comparar vidas.
Mas o que é difícil para mim pode não o ser para outra pessoa que eu acho que sofreu mais do que eu.
Como se compara vidas?
Pelo sofrimento ou pelas alegrias?
Pela maneira como ultrapassamos os desafios ou pela força que sentimos dentro de nós quando estamos no fundo do túnel?
Não sei...
Só sei que não se compara.
Pelo menos acho que não sou digna de comparar.
Ninguém é...

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Don't Let Go

Descobri esta canção e este vídeo com fotografias que falam por si.
Duas das minhas paixões: música e fotografia.


Don't Let Go - Bryan Adams and Sarah McLachlan

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Afinal não era chuva

A fada andava pelas ruas de mãos atrás das costas sem nada para fazer. Olhava mas não via. Caminhava mas não sabia para onde ir. Estava deveras aborrecida por não ter nada para fazer. Parecia que ninguém precisava da sua magia, da sua varinha mágica da Paciência.

Surpreendida, sentiu uma gota a cair nos seus caracóis. E muitas outras começaram a cair. A chuva começou a cair forte e repentinamente. Todos na rua começaram a correr, abrigando-se. Todos menos dois duendes e uma fada pequenita.

A fada, imóvel no meio da rua, olhou-os curiosa: os três riam e olhavam para as gotas que caíam. Não estavam nada interessados em se protegerem das gotas fortes que caíam do céu. Inclinou a cabeça e cruzou os braços. Os primeiros caracóis molhados aconchegavam as sobrancelhas e as orelhas bicudas. Mas a fada não evitou a chuva. Deixou-se ficar, ali.

As primeiras poças começavam a aparecer. Os dois duendes e a pequena fada começaram a pular, chapinhando sem se preocuparem com mais nada a não ser a pura felicidade que aquele momento lhes estava a proporcionar.

As asas da fada elevaram-se e ela voou até junto deles. A primeira reacção foi de pararem de pular com receio de uma repreensão daquela figura mais velha. Mas a fada sorriu e pousou mesmo no meio de uma das poças.

Soltando um riso começou a chapinhar movendo com velocidade as pernas magras. As crianças olharam-se surpreendidas e juntaram-se aquela dança sem música mas deveras divertida.

Os salpicos apareciam de todos os lados. Completamente encharcados, os quatro gargalhavam sem parar. Cansada, a fada deixou-se cair de rabo no chão e soltou uma ruidosa gargalhada de felicidade. Os dois duendes e a pequena fada, caíram em cima dela e no meio de cócegas, pingos e lama, acabaram por se deitar de barriga para cima no chão, exaustos.

Respiravam depressa por entre risos. E a chuva não parava.

Perante o mexer aflito da sua varinha mágica na cintura, a fada percebeu que se passava algo. Olhou para o céu, observou melhor as gotas que caiam e então percebeu.

Afinal não era chuva.

Eram lágrimas.

domingo, 22 de novembro de 2009

Floresta

(Respondendo a um desafio diferente e aliciante, eu e o J criámos este texto de improviso, na hora, no twitter. Obrigada pelo desafio que foi deveras diferente e inovador. Obrigada J pela tua inspiração e ideia!)


Ele: E viajo no beijo. Paro o tempo. Sinto-o em cada segundo do tempo parado por mim. Para onde me levas, pergunto?

Ela: Levo-te para aquele recanto na floresta... onde a luz mal entra e o frio combate o calor.

Ele: Contudo o calor que é inflamado pelo desejo, faz com que o gelo sacie a sede da distância.

Ela: Escondo-me por detrás das arvores e mostro do que me despojo...

Ele: e eu guardo o meu olhar aguardando o momento exacto para deslumbrar a silhueta que se camufla na floresta.

Ela: Apareço mostrando um ombro nu. A luz abraça-me e leva-me até ti, não consigo travar a vontade de te ver para além da escuridão.

Ele: Lentamente, vou deixando escorregar o meu olhar pelos recantos perfeitos da silhueta feminina, mas o teu corpo continua amordaçado pelas tuas vestes molhadas.

Ela: Caminho devagar, muito devagar sem deixar de olhar para ti bem nos olhos. Chego junto do teu corpo e não te deixo tocar-me... mas sussurro junto do ouvido e tapo-te os olhos e passo com a minha mão pelo teu peito descendo...

Ele: esse teu jeito de provocação, acelera o coração e consequentemente a minha virilidade masculina, que está retida, aguarda que a tua mão vá explorando.

Ela: E eu exploro sem deixar de te olhar e aproximo-me dos teus lábios mas não os beijo. Faço sentir o calor dos meus e não beijo. E sem esperar, sou agarrada pelos cabelos e os teus lábios percorrem-me o pescoço e mais tarde os lábios sem piedade.

Ele: De repente o jogo de provocação passa para o outro lado. Eu, num instante paro, e fico a observar-te, a beber o momento de prazer interrompido e aguardo a tua reacção, escondendo o teu corpo nos tecidos húmidos de prazer e desejo.

Ela: Os corações não param de acelerar, o vento aumenta, levanta os cabelos, rodopia-nos, mas nós nem sentimos...

Ele: porque os corpos estão e grande excitação que absorvem todas as adversidades externas...

Ela: e nada nos importa. A floresta pertence-nos, a sua força percorre-nos cada pedaço da pele, da carne a saciar.

Ele: Então, eu pego na tua mão novamente, leva-a até ao colarinho da camisa. Pouco a pouco as tuas mãos vão-se rendendo ao desejo e partir à descoberta daquele corpo ardente. Aos poucos no chão jazem as roupas que te impediam de percorrer o olhar naquele corpo em brasa e que te chama...

Ela : Do meu corpo já nada resta para tu tirares a não ser um sopro de prazer. Os ventos param e a luz ilumina-nos.

Ele: A luz que ilumina é o guia dos nossos olhos fascinados, e então a força de atracção cresce mas ainda é cedo para nos entregarmos.

Ela: Afastamo-nos. Olhamos um para o outro. Questionamos se devemos continuar ou não. Será?

Ele: A paixão é um momento de loucura, que fazes então quando os corpos se observam mutuamente sem obstáculos?

Ela: Respiramos sofregamente como que possuídos por uma força controladora. E juntamo-nos de novo... sem demora, sem pressas.

Ele: Lanço o primeiro beijo na tua nuca criando um arrepio na espinha. Detecto a tua pele arrepiada, encosto, então, o meu peito ás tuas costas...

Ela: 'ahhhhhhh' solto em gemido pedindo mais. E a tua mão percorre-me com força puxando-me para ti. E então... calo-me! Calas-me!

Ele: Solto-te novamente e dou-te outro beijo entre os teus seios excitados e liberto calor de prazer sobre eles.

Ela: Quero que pares! Não! Quero que continues! Não sei o q fazer perante o aumento do desejo feito calor.

Ele: Provo o sabor dos teus seios seguidos pela luz chamando pelos meus lábios. De dentro dos lábios sai uma língua atrevida que acaricia desde da base até ao cume cada seio em movimentos leves e provocantes.

Ela: Toco-te como se fosses um tapete mágico que me leva por terras que nunca conheci. Deixo-me viajar ao som dos teus gemidos.

Ele: Volto novamente aos teus lábios e em voz trémula pergunto-te para onde queres viajar.

Ela: 'Dentro de ti', respondo eu quase num sussurro. E pegas em mim e deitas-me sobre o manto de folhas e olhas-me hipnotizando-me... dando-me ordens que a minha mente já sabe de cor.

Ele: Lentamente as minhas mãos exploram as tuas pernas transmitindo-lhes paixão e prazer. A mão é então agarrada pela tua e deixa ser guiada até ao oásis quente e fervilhante que habita no meio do teu corpo quente. Aí a tua mão desaparece deixando-o a tua abandonada naquele paraíso.

Ela: Abandonada... só por instantes. Porque procura novo caminho enquanto escuta o som da floresta, a nossa floresta. 'Somos um ramo', digo, 'onde tu és um lado e eu o outro'.

Ele: Os meus olhos percorrem lentamente o teu corpo a arder desde o topo até aquele oásis, que o atrai cada vez com mais intensidade. Mas ainda não chegou o momento de te explorar o oásis. Ainda há muito corpo para descobrir. Os meus dentes mordiscam o teus glúteos firmes e solta-se então mais um gemido teu... Mordes os teus lábios com o desejo que o tempo se imobilize.

Ela: Repentinamente, viro-te e agora sou eu quem exploro. Seguro-te os braços, desenho com a unhas na pele e aperto as mãos num abraço enquanto beijo o dorso. Não satisfeita, mordisco e tu mexe-te querendo retomar o controlo. Mas estás indefeso porque eu domino o teu centro, o teu local mais sensível e nem a seiva que te percorre o corpo consegue dar-te forças. Deixas-me dominar... E, então, percorre um vento forte.

Ele: Gosto de ser dominado e tu descobres isso. Encostas os teus seios aos seus lábios, e quando me preparava para mordiscar tu recuas, e ardo em desejo para lá chegar. Mas tu em vez disso apertas mais uma vez o meu centro eu solta novo gemido. Consigo novamente dominar-te e prendo-te os braços acima da cabeça...

Ela: e então sinto que já não somos dois mas sim um, apenas... Largamos duas lágrimas que se misturam no beijo que damos e a terra ajuda-nos nos movimentos que fazemos, girando devagar. O vento empurrar-nos, depressa e assim chegamos ao pico da montanha num grito uníssono.

Ele: Beijo-te as orelhas com leves mordiscadelas e pergunto-te onde queres ser descoberta agora. As minhas mãos agarram os teus seios como que a evitar que o prazer se escape.

Ela: Mas exausto, deitas o teu rosto neles e ouves a minha resposta: no mar. Amanhã descobre-me no mar...

sábado, 21 de novembro de 2009

Que diferença faz...

se eu não te der atenção?
Que diferença poderá fazer... se eu não te vir mesmo à minha frente?
Abanas-me e eu deixo-me abanar por ti sem te sentir.
Que diferença faz não me importar se te faço ver o arco-íris?
Fisicamente... deixas-me um rasto que nem a água apaga.
Que diferença faz se eu ceder de respirar para travar o tempo?
Tocas-me de alto a baixo e eu nada faço nem digo.
Que diferença faz se as tuas mãos deixam um perfume que não pára de me inebriar os sentidos?
Reclinas-te sobre mim e eu tapo os ouvidos.
Que diferença faz se luto para não te ter por perto assim?
Pegas-me no rosto e eu fecho os olhos para não me lembrar de ti.
Que diferença faz se és as ondas do mar que me assola todos os dias roubando-me areia?
Questiono...
Que diferença faz se eu não consigo deixar de te amar?
Já me disseste o que queria ouvir?
Que diferença faz se me exiges tudo?
Que diferença faz eu ser tão diferente de tudo que já conheceste?
Serei a guardadora do teu coração?
... ou uma simples taça aberta que usas por momentos?
Que diferença faz eu querer saber tudo isto?

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Lençol

Estendo devagar o lençol compondo a cama naquela manhã.
Mas... depois,
arranco-o, envolvendo-o em mim como se do teu corpo se tratasse.
Tenho saudades tuas.
Admito-o num sorriso que levanta os meus lábios.
Tenho saudades do teu corpo sobre mim, sobre o nosso lençol.
Desembaraço-o de novo e coloco-o no lugar.
Esticando-o com o meu corpo.
Paro. Fico imóvel.
Tenho saudades de ouvir o teu respirar sobre mim.
Puxo o lençol de novo e atiro-o para o chão, desprezando-o.
Ele, ali abandonado, olha-me como tu olhas quando precisas de mim.
Afasto-me, mas o lençol parece que me segue como tu fazes quando fujo de ti, provocando-te.
Paro.
Volto atrás.
Deito-me sobre aquele lençol e enrolo-o novamente em mim.
Paro.
Oiço-te junto ao ouvido.
Sussurras.
Abraças-me.
Amas-me.
E então, eu largo o lençol.
Já não faz parte do sonho.
Faz parte de um par que deixa de o ser para se tornar um uno.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Amizade

Amizade é uma prenda constante que se desembrulha todos os dias.
É o laço, é o papel fantasia, é a caixa de cartão, é o conteúdo que nunca, mas nunca perde a validade.
É aquela prenda que se guarda no armário e que sorrimos sempre que a vemos ao abrir a porta.
É a luz do candeeiro da rua quando caminhamos por ruas frias de escuridão.
É o vento quente que nos conforta e abraça quando estamos sozinhos a meditar no cimo da montanha, na ponta do precipício.
É os sabores que nos deliciam dos petiscos de uma refeição em que nos despimos das tristezas e vestimos a alegria.
É a força que precisamos para levantar um rochedo que bloqueia o nosso caminho.
É o suco da fruta que nos dá as vitaminas correctas na altura certa.
É o sangue que percorre os mais longínquos cantos do nosso corpo sem nunca perder a força.
É a bofetada que necessitamos quando estamos cegos.
É o olhar rigoroso e severo quando não queremos ver.
É a cor perfeita para o pormenor que pintamos num quadro já cheio de milhões de tons.
É o ser outra pessoa sem nunca o ser.
É ser-se um e sentir-se uma multidão.
É viver uma razão da nossa existência.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Despe-me para me vestires

Despe-me para conheceres o que Penso.
Despe-me para Sentir o frio e arrepiar-me com o teu calor.
Despe-me para perceber que estou Viva.
Despe-me para veres a minha Cor verdadeira.
Despe-me para caminhar Livre.
Despe-me para te arrancar Sorrisos.
Despe-me para lutar com o Tempo.
Despe-me para que as gotas da chuva me Vistam.
Despe-me para ficar para sempre vestida de Mim.

domingo, 15 de novembro de 2009

O espelho tem 2 faces

a que queremos ver,
e a que nos mostra a verdade.

Em qual gostamos de viver?
Na ilusão?
Ou na realidade?
Na beleza que disfarça o tempo?
Ou na simplicidade do genuíno?
Na espera incerta?
Ou no momento imediato?

Para quê ter um espelho se não nos mostra uma só face?

sábado, 14 de novembro de 2009

Eu dou-te, tu dás-me...

Eu dou-te o meu beijo, tu dás-me o teu abraço e assim fazemos o carinho
Eu dou-te a minha mão, tu dás-me o teu toque e assim fazemos o afecto
Eu dou-te o ar, tu dás-me o vento e assim fazemos a brisa
Eu dou-te o cheiro, tu dás-me os aromas e assim fazemos o perfume
Eu dou-te o céu, tu dás-me as estrelas e assim fazemos a noite
Eu dou-te a raiz, tu dás-me o tronco e assim fazemos a floresta
Eu dou-te as letras, tu dás-me as palavras e assim fazemos a filosofia
Eu dou-te o grito, tu dás-me o silêncio e assim fazemos a fala
Eu dou-te a raiva, tu dás-me a calma e assim fazemos o equilíbrio
Eu dou-te a fruta, tu dás-me o espremer e assim fazemos o rio
Eu dou-te o olhar, tu dás-me a luz e assim fazemos o ver
Eu dou-te o meu seio, tu dás-me o teu desejo e assim fazemos a união
Eu dou-te a dor, tu dás-me o alívio e assim fazemos a cura
Eu dou-te a pétala, tu dás-me a flor e assim fazemos o campo
Eu dou-te o frio, tu dás-me o quente e assim fazemos o corpo

Eu dou-te o meu perto, tu dás-me o teu longe e assim fazemos o caminho

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Como se...

Como se retira um lamento?
... falando
Como se apaga a dor?
... afugentando
Como se remove a revolta?
... lutando
Como se extingue a tristeza?
... alegrando
Como se esmaga a mágoa?
... chorando
Como se esquece uma perda?
... vivendo
Como se evapora um toque?
... soprando
Como se mata um beijo?
... esfregando
Como se limpa a solidão?
... conhecendo
Como se risca um rosto?
... observando
Como se afasta a espera?
... andando
Como se liquida uma memória?
... fechando

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Quando não há nada para se dizer, deixamos o Silêncio reinar.
Detesto o Silêncio das palavras.
Porque ele corrói-me a vontade da alma.
Tenho tanta coisa para deixar sair e o Silêncio nãos me deixa.
Levou-me a Inspiração e a Vontade...

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Mentira

Apeteceu-me colocar, hoje, este poema porque me diz muito...

Dá-me vontade de te ter a meu lado
Vendo-te a olhar para mim
Sei que estou apaixonado
Mas não posso ficar assim
Deitado num rochedo canto para ti
Como um pássaro livre que voa sem fim
Porque é que a vida nos trama
Quando alguém se ama?

Ter de partir
E não poder sorrir
Porque é que choras?
Porque é que dizes o meu nome
Sem nunca me poderes tocar?

Tenho saudades de te ver
Vontade de te abraçar

Sozinho tocando uma guitarra
Junto ao mar
Recordo-me de ti
E imagino porquê
A tua cara a flutuar
Porque é que a vida nos fascina?
Tantas vezes nos domina?
Acreditar que no amor
Não se sente a dor
Mas é mentira!

Mentira! Mentira!


João Pedro Pais - Mentira

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Solidão é

Solidão é estar deitado no chão de uma rua e ninguém te ligar.
Solidão é estares esfomeado e ninguém te dar comida.
Solidão é quereres ver e não te deixarem.
Solidão é quereres calor e darem-te frio.
Solidão é precisares de alguém para te levantar e só te deixam cair.
Solidão é só ouvires o silêncio quando só te dão barulho.
Solidão é estares no meio de uma multidão e não veres ninguém.
Solidão é nasceres para morreres logo de seguida.
Solidão é gritares e ninguém te ouvir.
Solidão é estar em desespero e ninguém se importar.
Solidão é chorar e ninguém ver as lágrimas de sangue.
Solidão é viveres agarrado a uma esperança que nunca chegará.
Solidão é deixares de querer viver.
Solidão é morrer lentamente por dentro.
Solidão é quereres que te peguem na mão e não encontrares ninguém.
Solidão é não se importar com mais nada.
Solidão é estar completamente sozinho, física e mentalmente.
Solidão é sentir a mais cruel das vidas e não conseguir mudar.
Solidão é não conseguires sorrir.
Solidão é sentires o coração cheio de desespero.
Solidão é simplesmente... caminhar nesta vida e não deixar saudade a ninguém.

Mas chega sempre o momento em que alguém nos vai limpar a solidão.
Sempre.
Mais cedo ou mais tarde.
Sempre.


(Texto criado após visualização deste vídeo)

Leona Lewis - Footprints In The Sand

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O beijo ficcionado

De pés descalços, deslizo pela superfície preta do piano.
Lentamente, deito-me sobre ele.
As costas nuas tocam o frio e eu levanto-as abrindo os lábios num murmúrio da tua lembrança.
Sinto um quente súbito na minha mão dos braços estendidos.
Sei que a tua mão puxa por mim e eu deixo-me ir.
Toco as teclas brancas e pretas com os dedos dos meus pés enquanto tu tocas notas nas minhas pernas.
Puxas-me mais e sento-me em ti.
Juntos, começamos a tocar.
O meu coração segue o som das teclas.
Não te oiço.
Oiço a música que desejas que eu oiça.
Começo a tocar nas teclas brancas enquanto tu tocas nas pretas e... desafinamos quando te sinto ainda mais.
Voltamos à melodia e retomamos o ritmo.
As teclas tocam-se num beijo ficcionado...
inventado...
dissimulado...
fingido...
breve...
Elevamos as mãos quase sem deixar de tocar no teclado e escutamos o piano a respirar.
Preciosos momentos em que nos unimos ainda mais.
De repente, os nossos dedos recomeçam a mexer e tocam uma frenética mistura de notas que termina com o silêncio na agonia do arrebatamento do espírito.
Beijámo-nos com as mãos num beijo ficcionado.

(resposta a um desafio pedido usando a frase 'O beijo ficcionado')

domingo, 8 de novembro de 2009

A ouvir o coração e não saber o que fazer...
Quero acordar por dentro para que possa contrariar o Destino...
... e fazer as coisas à minha maneira, porque sou eu quem manda na minha vida.
A vida que vivo não pode ser vivida por mais ninguém.
A vida que vivemos, pertence-nos até a atirarmos para o Cosmos.

sábado, 7 de novembro de 2009

... e nasce uma sinfonia

O que fazer quando nos apercebemos que duas músicas se tocam e nasce uma sinfonia?

Que as notas se encontram e não se largam?
Que é difícil esquecer a partitura do nosso ritual?
Que, sem explicar, a mente viaja ao som das mesmas melodias?
Que esta matemática de notas e sons é uma porção dos Destino para nos baralhar?
Que queremos ouvir os mesmos sons e desligarmo-nos, naqueles breves instantes, da realidade?
Bach, Albinoni, Aranguez, Mozart são os culpados.
São os culpados desta nossa sinfonia despretensiosa, não planeada... mas nossa.
Esta sinfonia já é minha. E jamais a esquecei...
... nem mesmo quando partir para a outra vida onde te tornarei a conhecer.
É inevitável cruzarmos caminhos...


Concerto de Aranjuez

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Centro, eu?

Hoje tive a sensação que estou no meio de um universo cujo centro de força sou eu mesma.
Nos últimos meses, tenho vivido situações que enchem uma vida. E, a mim, encheu-me 15 meses de um renascer que jamais pensei que passasse por mim.
Conheci novas vidas, algumas que as quis minhas, mas que não o foram, porque assim decidiu o destino.
Mas reparo que no meio da mágoa, solidão, revolta, amor, prazer, descoberta eu também mudei a vida dessas pessoas.
Percebi que fui o seu centro de coragem e sorte mostrando um caminho que não viam.
Todos caminham.
Mas eu, continuo imóvel, no meio no Universo de onde todos eles partiram.
Em pé, calada, de braços pendidos, olhando em volta, com um sorriso leve mas sincero...
.. sinto-me feliz por ter sido a energia de onde começaram a partir.
Despeço-me deles com um olhar, desejando uma boa viagem.
Mas..
... eu ali fico, só, no meio, olhando para todos a partirem. E eu dali não saio.
Então a minha vez?
E então o meu caminho?
Serei eu Fazedora de Caminhos para os outros, não conseguindo encontrar o meu próprio caminho?

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Rachmaninov had big Hands

Brincar com Rachmaninov desta maneira, acho delirante ;-)

Igudesman & Joo

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

O dragão de água

Aquele dragãozinho resmungava e resmungava o que levou a fada a espreitar por cima da pedra.
Arregalou os olhos e as sobrancelhas subiram.
- Hummm...
Com algumas bagas doces na mão que andava entretida a apanhar, a fada flutuou até ao dragãozinho vermelho que insistia em não parar de pular, furioso.
Poisou suavemente os pés na terra e perguntou:
- Que tanto tu resmungas, dragãozinho?
Este olhou-a de alto a baixo e disse:
- Sou um Dragão de Fogo mas não me sai fogo pela boca!
Encheu o peito de ar e ao abrir a boca saiu um esguicho de água que levou a fada a espreitar para onde ele tinha ido parar.
- Mas saiu água!
- Sim! - gritou o dragãozinho.
- Hum... - A fada observou melhor aquela criatura e perguntou: - Tu não és novinho demais para brincares com o fogo?
O dragão pulou e resmungou:
- Eu sou um Dragão de Fogo!! De Fogo!!
A fada sentou-se no chão e, com muita calma, perante um irrequieto e furioso dragãozinho, disse:
- Tens de esperar mais um tempo para teres essa capacidade. És muito novinho.
Mais resmungos e um frenético agitar de braços não fizeram baixar as sobrancelhas levantadas da fada.
- Muito impaciente... - disse a fada agitando a cabeça em sinal de reprovação.
- Eu quero largar fogo! Eu quero!!
A varinha mágica guardada na cintura agitou-se.
- Eu sei. Eu sei... - disse a fada acalmando-a.
Virou-se para o dragãozinho que continuava zangado e disse:
- Não queiras crescer depressa porque cresces mal. Espera pelo teu tempo que o fogo aparecerá.
- Mas eu não quero esperar. Quero agora!
A fada levantou-se e agitando as asas acrescentou:
- Muito desejam os jovens de crescer depressa! Não é assim que sabem crescer. Esperar por cada passo do crescimento, é um avanço para a verdadeira aprendizagem.
Deu um afago na cabeça do dragãozinho e regressou à colecta de bagas.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Construtores de Planetas

Todos nós somos construtores de planetas.
Estamos sempre à espera de algo mais, algo perfeito para o nosso planeta. Mas a perfeição não existe.
Criamos um mundo assim que nascemos.
Cada passo é um país, uma ilha, uma montanha, um rio... um pedaço de terra vivo.
Manter o equilíbrio deste planeta é a chave para uma vida proveitosa e rica.
Descobrir como se cresce, como se constrói, como se acaricia, como se ama, como se protege... e com se deixa morrer.
Cuidar de um planeta é uma tarefa divina e exigente.
E quando nascem satélites que dependem da nossa força, mais fortes ficamos fragilizando-nos como mundo.
Rodamos à volta de uma estrela. Mas o modo como criamos a atmosfera determina o crescimento do planeta.
Cada passado é enterrado ou lembrado, cada presente é vivido ou arrastado, cada futuro é esperado ou temido.
No meu planeta, deixo escorrer lágrimas pelo rosto como se fossem riachos,
deixo brilhar os olhos como se fossem raios de sol,
deixo estremecer o corpo como se fosse um vulcão,
deixo repousar a pele como se fosse uma bruma,
deixo sair o suor como se fossem gotas de chuva,
deixo entrar os sons como se fossem ecos do cimo de um vale,
deixo sair a raiva como se fosse um mar revolto,
deixo entrar a tristeza como se fosse uma ventania que arrasa tudo,
deixo cativar-me pela alegria como se fosse um nascer do sol único,
deixo viver um mundo em cada segundo como se fosse o último.
E não será a vida um planeta? Com rios, ventos, arco-íris, furações, chuvas, sol, noite, dia... É sim.
Somos construtores de planetas e,
deste modo,
os seus únicos Deuses.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Lava-me

Pega num pano e começa a lavar-me.
Lava-me os olhos para nunca chorarem por ti.
Lava-me as orelhas para não deixarem de ouvir os teus gemidos.
Lava-me a boca para nunca gritar pelo teu nome em desespero.

Lava-me o pescoço para que nunca pare de se arrepiar com os teus beijos.
Lava-me os ombros para que nunca deixem de ser descobertos por ti.
Lava-me os seios para que me façam sempre sentir Mulher.
Lava-me as ancas para que não deixe de ter a montanha que gostas de acariciar.
Lava-me o ventre para que possas ajoelhar-te no meu altar.
Lava-me as pernas para que não parem de te prender contra mim.
Lava-me os pés para que nunca deixem de caminhar no teu jardim.

E por fim, lava as pegadas de água que deixo pelo caminho para que ninguém me siga e me roube de ti.

domingo, 1 de novembro de 2009

Breackout

Preciso de ir abaixo. Bem abaixo.
Quero descansar.
Quero ficar deitada na rua e ver todos a passarem,
de um lado para o outro, passando por cima de mim e...
sorrindo,
resmungando,
chorando,
olhando,
reprovando,
aprovando,
invejando,
tocando.
Assim posso ver melhor o céu e sorrir para ele.
Estou com aquele sorriso maroto de satisfação total!
É do céu que vem o Sol e... as nuvens.
Mas, para as nuvens, eu levanto o braço, estico o dedo e empurro-as para o canto, sossegadas.
E deixo entrar o Sol.
E as pessoas continuam a passar por mim sem repararem naquele lindo céu.